12 de mar. de 2012

Sindi ignora decreto municipal


Ipirá, março de 2012.
     Calma, O sindi não é fora da lei. Quando dissemos que a raça Sindi ignorou um decreto municipal, não estamos falando em nada ilegal.  Para explicar melhor vou relatar o que presenciei.
Ipirá, março de 2012.
     Ao chegar ao município de Ipirá constatei ainda na estrada diversos rebanhos bovinos pastando no acostamento. Isso ocorria por que nas fazendas que passei não havia mais nada para os animais comerem. Ainda constatei também diversas camionetes no acostamento cortando e carregando o capim de beira de estrada para leva-lo às fazendas, pois já nada havia lá para alimentar os animais. Vi também algumas carcaças de animais mortos e outros perambulando pelas estradas parecendo zumbis esqueléticos desnorteados. Reparei também que a maioria do rebanho era  composto de mestiços de holandês.

Faz. Brava, março de 2012.
     Na fazenda Brava, onde se encontra o rebanho Sindi da BRS não era diferente. Logo na porteira da entrada percebi o quanto a seca castigava o local. O campo era ressecado  de uma cor pastel onde apenas se sobressaiam em verde às folhas do icó. As aguadas estavam secas e tudo me pareceu um pouco desolador.  Também não era para menos. Há meses não chovia em Ipirá e a prefeitura se viu obrigada a decretar estado de calamidade pública devido à seca que assolava a região.

Sindi na Faz. Brava em Ipirá, março de 2012.
     E como estaria o rebanho Sindi? Será que encontraria animais abatidos e depauperados pela terrível seca que assolava a região? Esperei paciente o vaqueiro juntar o gado no campo. De longe avistei uma poeira levantando e embaixo dela um “bolo de pelo vermelho” era o rebanho Sindi da BRS se aproximando. Mais alguns minutos e adentrou pelo curral um imponente rebanho composto de vacas paridas com seus bezerros ao pé, capitaneadas pelo extraordinário touro Vultan-E. Logo as minhas perguntas foram respondidas. Esqueceram de informar ao rebanho Sindi que o município de Ipirá estava em “calamidade pública”, esqueceram de dizer ao Sindi que existia uma seca, com certeza não informaram a aquelas vacas que ali estavam amamentando seus filhos e produzindo leite sem qualquer ração, que não chovia há meses. 

Sindi na Faz. Brava em Ipirá, março de 2012.
     Para nós ainda é uma surpresa ver um rebanho em condições de abate, amamentando e produzindo leite para ordenha, em plena seca. Para o Sindi não. Afinal de onde ele vem isso é normal. Para uma raça que sobrevive no deserto, nas piores condições de clima do planeta, o que ocorre em Ipirá é apenas uma pequena estiagem. Nada que afete o seu organismo adaptado e aperfeiçoado por mais de dois mil anos. O Sindi não vai deixar de reproduzir e garantir a sua espécie, não vai deixar de amamentar e criar seus filhos e não vai deixar de servir a seus senhores produzindo o leite e lhes dando a carne. Pois isso é o que lhe garantiu até hoje a sua existência e é isso que vai garantir o seu futuro nos próximos dois mil anos.

Peso de um bezerro (7,5 meses) Sindi ao pé da vaca: 247 Kg.
   Foi essa a minha primeira experiência com o Sindi na seca severa e pude constatar que tudo que haviam me dito era verdade. É verdadeira a afirmação que o Sindi foi moldado para resistir às adversidades de um clima desértico. E digo mais, além de preservar a sua espécie, mostra generosidade para com os que o criam, abastecendo seus pastores com carne e leite demonstrando seu agradecimento para com os que o cercam. Por isso posso dizer: O sindi não obedece aos decretos, ele rege a sua própria lei. A lei da sobrevivência.
 
 Cezar Mastrolorenzo
Sindicista e Secretário da ABCSindi.
   

28 de fev. de 2012

Bahia Red Sindhi divulga o livro “Sindi o gado vermelho dos trópicos”.


            Sempre empenhados em divulgar o Sindi na Bahia os pecuaristas José Caetano e Cezar Mastolorenzo divulgam o livro do escritor Rinaldo dos Santos na Bahia.
Sérgio Vilas-Boas na Fazenda Carnaúba
de Manoel Dantas Villar. Antiga paixão pelo Sindi.

           Alguns exemplares foram adquiridos junto a ABCSINDI e doados a pessoas que contribuem voluntariamente para divulgar a raça Sindi na Bahia. Entre essas pessoas não poderíamos deixar de citar com honras o nome do pecuarista Sérgio Vilas-Boas. Sérgio é criador de Guzerá e Nelore, mas se confessa apaixonado pelo Sindi. É também professor, consultor e pesquisador nas áreas de recursos naturais, economia agrária e meio ambiente.

O Presidente do Sindicato dos Produtores de Ipirá , José Caetano (e),
acompanhado pelo secretário da ABCSINDI Cezar Mastrolorenzo (d)
entregam o livro para o Professor Sérgio Vilas-Boas (centro).
           Dr. Manoel Dantas Villar, mais conhecido com Dr. Manelito, em uma conversa informal na sua fazenda em Taperoá na Paraíba, fez um comentário que jamais esqueceremos. Disse ele: “O sindi não tem criadores o Sindi tem torcedores” e de fato podemos constatar isso no dia a dia de nosso trabalho com a raça. Por onde o Sindi passa deixa um rastro de amizades e companheirismo. Foi assim quando em sua primeira exposição oficial da raça na Bahia a comitiva de apenas três novilhas foi a única a ser aplaudida, e é assim no trabalho voluntário de pessoas como o nosso querido amigo Sérgio.

         Poderíamos citar aqui mais alguns colaboradores a quem muito devemos nesta tarefa de divulgar o Sindi pelos sertões baianos mas, o nosso intuito neste momento é apenas de registrar nossa gratidão a este criador de Guzerá e Nelore que com toda certeza cria o Sindi em seu coração.
Da esquerda para direita, Marco Navarro (Girolandista),
José Caetano, Cezar Mastrolorenzo e Sérgio Vilas-Boas
durante a Expofeira 2011.

        Ao Sérgio e tantos outros que colaboram com a divulgação do Sindi e da BRS o nosso muito obrigado.

Bahia Red Sindhi.

19 de fev. de 2012

SINDI : GENÉTICA MILENAR

Sindi X Nelore
         Recentemente fui perguntado por um produtor amigo meu sobre o porque da minha opção em criar o Sindi puro , mais conhecido como PO (puro de origem).  A princípio esbocei uma resposta meio que pronta, disse-lhe que tinha uma paixão pelo Sindi desde que conheci os primeiros animais na EMEPA  na Paraíba e que tinha em mente melhorar a genética de meu rebanho, antes mestiço, optando por rusticidade e dupla aptidão.
        Depois pensando melhor me deparei com a seguinte dúvida: Qual a verdadeira vocação do Sindi? Evidentemente que para existirem animais puros que possam ser criados com o objetivo de utilizá-los nos cruzamentos com outras raças e até mesmo com animais ditos “comuns” tem que existir os rebanhos puros e destinados a esse propósito. Mas muitas vezes para atingir determinados propósitos como meio de produção viabilizando determinados empreendimentos agro-pastoris  creio que nem sempre a alternativa PO é  a melhor solução.

Sindi X Pardo Suiço
      Entre os maiores exemplos de cruzamentos bem sucedidos do Sindi estão os cruzamentos do Sindi com o nelore, objetivando rusticidade e leite para o bezerro e o Sindi com o Jersey , holandês ou o Pardo Suiço, aumentando a rusticidade e o leite comercial. Em regiões menos adversas e que se tem a possibilidade de um arraçoamento no cocho , ou seja uma suplementação alimentar, cruzamentos do Sindi com animais de raças européias destinadas a produção de leite comercial tem sido uma excelente alternativa.  Vale observar o cruzamento do holandês com o Gir, formando o girolando, resultado com enorme poder de produção leiteira aliada a rusticidade de um zebuíno.
     Portanto , penso que poderia eu criar um gado que fosse resultado do cruzamento do Sindi com o Jersey, já que meu objetivo maior é a produção leiteira e aumento da rusticidade, mas penso também que se não houvessem  os determinados e apaixonados criadores de raças puras e que preservassem a genética original de seus rebanhos , esta genética se perderia entre tantos cruzamentos e o prejuízo
para  a nossa pecuária seria imensurável.
Sindi X Jersey
    Mais do que isso, tentar preservar a genética milenar de uma raça, criando-a sem misturas internas ou seja, a preservando exatamente igual como ela se encontrava no seu país de origem. E não tentando , como muitos, reconstruir a raça fazendo “enxertos” de outras raças para simplesmente “melhorar” a raça com o propósito de obter resultados comerciais mais satisfatórios. Muitas vezes na ânsia de se obter melhoramentos genéticos de uma raça, trilhamos um caminho sem volta perdendo um inestimável material genético resultado de uma seleção natural de centenas de anos.

   Sendo assim, respondendo melhor ao questionamento de meu amigo, criamos o Sindi PO com o objetivo de preservar e transmitir a genética milenar para que outros possam utilizá-la de acordo com suas necessidades obtendo assim o melhor aproveitamento possível de acordo com a sua necessidade e realidade regional.

Cezar Mastrolorenzo, 
é produtor no semi-árido baiano 
e Secretário da  ABCSINDI.

5 de fev. de 2012

ATÉ QUANDO ?

 
Bilhões de bocas
estão ávidas por proteína.
          Nas minhas andanças pelo sertão, procuro fazer uma avaliação do que vejo. Não de maneira sistemática e distante de de observador ou técnico  mas sim, tentando viver o dia a dia daquele local.  Visito fazendas de diferentes modelos. Algumas super equipadas  com utilização de tecnologia de ponta, e outras, a grande maioria,  mantem ainda um manejo natural, até primitivo.


        Quando me refiro a manejo natural, entenda-se  àquele manejo das propriedades que têm os  seu dia a dia regido pela natureza. Bezerros desmamam ao pé da vaca, não há controle de monta, pastagens são nativas , não se utilizam vermífugos , defensivos, e muitas vezes nem vacinas. Sempre me pergunto como podem as coisas funcionarem dentro destes parâmetros de manejo. E pasmem, funcionam.


Será que esta criança quer saber se o alimento que
lhe falta é organico ou não?
          No novo mundo globalizado as propriedades com falta de manejo estão caminhando para o abismo. A utilização da tecnologia e da informação está estreitamente ligada ao aumento de produção e renda. Não há problema nenhum em utilizar um produto agroquímico desde que na dose indicada e na forma adequada. Os Estados Unidos usam duas vezes mais defensivos que o Brasil. A Europa consome três vezes mais, e o Japão consome dez vezes mais agroquímicos em uma cultura de arroz que o Brasil! 


        De acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) , caso não existissem esses produtos, haveria uma perda de até 40% da produção agrícola mundial. Começaria a faltar alimentos nas prateleiras dos supermercados. No caso Europeu, a neve proporciona um descanso para o solo e mesmo assim consomem três vezes mais defensivos agrícolas que o Brasil.


Vamos condenar a morte estas crianças?
          Como vemos seria impossível produzir alimentos no mundo moderno sem o uso dos agroquímicos porém, é preciso investimento público e privado para dar treinamento aos produtores para que fossem disseminados os procedimentos corretos nas aplicações dos defensivos agrícolas.


         Com um bilhão de famintos no mundo, os produtores brasileiros serão responsáveis em ser os maiores fornecedores de alimentos, fibras e energia do mundo até 2030 e, para que isso ocorra se faz necessário ampliar o acesso a tecnologia, ao crédito e ao mercado. Sabemos que a pecuária atualmente concorre com a agricultura e que as melhores terras serão reservadas para culturas nobres . O semi-árido então poderá despontar como uma boa alternativa para produção de carne e leite, suprindo os mercados regionais e exportando o excedente.


Será que o que vai fazer mal a estas crianças
foi a utilização de defensivos agrícolas?
          Eu poderia aqui fazer mais um discurso bonito sobre a pecuária ecológica, boi orgânico e outros modismos que agradam aos ouvidos mas, na verdade é que seria muito difícil sustentar as bilhões de bocas que estão ávidas por proteína animal sem a utilização correta de defensivos agrícolas aliadas as novas técnicas de manejo e a utilização de uma sofisticada mecanização.


        Precisamos não ter medo do avanço da tecnologia. A opinião pública, muitas vezes manipulada por ONGs  mal intencionadas e por algumas reportagens de

29 de jan. de 2012

PASTAGEM ECOLÓGICA E SERVIÇOS AMBIENTAIS DA PECUÁRIA SUSTENTÁVEL

Jurandir Melado
Por: JURANDIR MELADO
Engenheiro Agrônomo - Consultor

O enfrentamento dos problemas relacionados ao aquecimento global e as ações para atenuar as suas causas e conseqüências serão provavelmente a primeira grande luta a envolver toda a humanidade, independente de raças, credos ou nacionalidades.

O aquecimento global, considerado até pouco tempo assunto exclusivo da comunidade científica (e para muitos, de ficção científica), tornou-se hoje tema de interesse geral, sendo discutido em todas as esferas, com os “vilões” se revezando no interesse dos estudiosos e da mídia. Os efeitos aparecem por toda parte; do derretimento de geleiras em todo o mundo ao furacão “Catarina”, ocorrido no Brasil em março de 2004, que tornou necessário re-escrever os livros de ciência que diziam: “É impossível haver furacões no Atlântico Sul” (Gore, 2006).
Recente relatório da FAO “Livestock’s long shadow” (Longa sombra da pecuária) colocou a produção pecuária mundial como uma grande vilã, colocando-a quanto a produção CO2 (ou equivalente), acima do sistema mundial de transportes, consumidor voraz dos combustíveis fósseis. Este relatório descreve em detalhes o impacto da criação de animais, ruminantes ou não sobre o aquecimento global.  
Longa sombra da pecuária
O principal estrago ocorre na hora do 
desmatamento e queimada.

Os valores se apresentaram assim tão elevados, por incluir no total não só todas as espécies animais da porteira para dentro, como também toda a cadeia produtiva da pecuária, incluindo o transporte, grande consumidor de energia fóssil. A realidade, porém é que a pecuária tem mesmo grande responsabilidade pelo aquecimento global, começando pelo desmatamento e queimada de florestas para o estabelecimento de pastagens e chegando à produção de metano pela fermentação ruminal e a fermentação anaeróbica dos dejetos.
O principal estrago ocorre na hora do desmatamento e queimada, já que a queima de cada hectare de floresta, com 250 T de matéria seca, lança ao espaço 500 T de CO2. Com a posterior lavra do solo para a agricultura, ocorre a “queima” da matéria orgânica reduzindo seu teor. Supondo uma redução de 3,50% para 1,5%, são mais 80 t de CO2 lançados no ar.

A fermentação ocorrida no rumem de um bovino de corte em pastejo, produz de 40 a 70 kg/animal/ano de metano (CH4), gás que tem um “efeito estufa” 25 vezes mais potente que o CO2., resultando entre 1 e 1,7 t/animal/ano de CO2 equivalente. No processo metabólico dos ruminantes, perde-se na forma de metano, de 2% (rações concentradas) a 18% (pastagem de má qualidade e baixa proteína bruta) da energia bruta fornecida pelos alimentos. Sendo um valor aceito como médio, em torno de 6% (Primavesi, 2007).

A fermentação ocorrida no rumem de um bovino de corte
 em pastejo, produz de 40 a 70 kg/animal/ano de metano (CH4),
 gás que tem um “efeito estufa” 25 vezes mais potente que o CO2.

Em sistemas com confinamento intensivo, onde a dieta pode chegar a 90% de alimentos concentrados, a produção de metano poderá ser reduzida para 2% da energia bruta ingerida. Porém, ocorre a transferência do problema para a área agrícola, produtora dos grãos. Estas áreas, quando ocorrem problemas de arejamento (compactação ou encharcamento) e o aporte de nitrogênio, sejam pela adubação mineral, orgânica ou mesmo pela fixação biológica, resultando em presença de nitratos, o óxido nitroso (N2O) que é 250 vezes mais eficiente na retenção de calor (efeito estufa) que o CO2. Outro problema sério das criações intensivas (confinadas) de animais é a grande quantidade de dejetos produzidos, cuja fermentação anaeróbica produz o metano.

Visto que a produção de metano não pode ser dissociada da pecuária e que a atividade pecuária não pode ser suprimida nem mesmo reduzida, o que então poderá ser feito, para reduzir os seus efeitos no aquecimento global? Muita coisa pode e está já sendo feita! Porém numa escala que ainda longe da desejável e necessária! Já existem tecnologias capazes de mitigar os efeitos da pecuária sobre o aquecimento global, algumas delas capazes mesmo de transformar a pecuária de vilã, em heroína, contribuindo para o seqüestro de carbono atmosférico.

Na realidade, o aumento da camada de gases de efeito estufa é apenas uma das causas do aquecimento global. Esta camada de gases funciona apenas como um cobertor, que não tem a capacidade de aquecer, mas sim de conservar o calor do corpo, neste caso a Terra. 

Na realidade, o aumento da camada de gases
de efeito estufa é apenas uma das causas do
aquecimento global.

Um solo sem cobertura vegetal ou com cobertura escassa, como ocorre com as pastagens degradadas ou em regime de super-pastejo, são verdadeiros espelhos devolvendo calor ao espaço na forma de ondas longas ou radiação infravermelha. Em todo o mundo existem muitas áreas que emitem calor em excesso (acima de 300 W/m2), contribuindo para o aquecimento global. No Brasil estas áreas se concentram no Semi-árido Nordestino e agora lamentavelmente também nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, em que a cobertura vegetal permanente foi substituída por culturas que não conseguem manter folhas verdes o ano todo e com isso o serviço ambiental de vaporização de água no ar (e que retira calor do ar), atendendo a demanda atmosférica. Para deixar mais claro, o que queima mais a sola do pé descalço às 13h da tarde, com o mesmo sol a pino: a areia

22 de jan. de 2012

ÁGUA NÃO É A ÚNICA SOLUÇÃO

Para desenvolver o semi-árido, é preciso enterrar a idéia de que a região só avançará se dispuser de água abundante, diz diretor do Instituto Nacional do semi-árido (Insa)
         O desenvolvimento do semi-árido brasileiro, região com quase 1 milhão de quilômetros quadrados na qual vivem cerca de 23 milhões de pessoas de nove estados brasileiros (metade delas na área rural), dependerá sobretudo de uma quebra de paradigma. Será preciso enterrar a idéia de que a região só avançará econômica e socialmente se dispuser de água em abundância.
         “Tão prejudicial como negar a miséria do semi-árido é a idealização da irrigação em toda a região”, afirmou o diretor do Instituto Nacional do semi-árido (Insa), Roberto Germano Costa, durante a conferência de abertura da Reunião Regional da SBPC em Mossoró (RN).
         Na conferência, Germano Costa mostrou que apenas 2% das terras do semi-árido são passíveis de receber sistemas de irrigação. Para agravar, os longos períodos de seca e a variabilidade das chuvas tendem a se intensificar com as mudanças climáticas. “Na região, 60% das chuvas ocorrem em apenas um mês, sendo que 30% em um só dia. Trata-se de uma dinâmica climática que ninguém conseguirá mudar”, frisou ele. Por isso, na sua avaliação, é necessário acabar com a visão de que a água é a única solução para os problemas do semi-árido, e passar a apostar nas potencialidades da região.
        Apostar em culturas xerófilas, adaptadas à escassez de água, pode ser um dos caminhos, uma vez que a agricultura na região é uma atividade de alto risco. “Historicamente, a cada dez anos se tem apenas dois anos de chuvas regulares”, disse o diretor do Insa. Além disso, as áreas de sequeiro utilizadas hoje correspondem a apenas 4,8% do território. A pecuária, por sua vez, apesar de ser de baixo risco, precisa avançar mais em manejo, nutrição, reprodução e melhoramento, sendo que o principal gargalo são as forragens.
      O semi-árido ainda tem o desafio de resolver a questão das pequenas propriedades. Com 2,5 milhões de estabelecimentos rurais, cerca de 1,9 milhões deles possuem menos que 20 hectares, área insuficiente para garantir a sustentabilidade de uma família. “O desafio é conviver com as peculiaridades da região, transformando a semi-aridez em uma vantagem”, ressaltou Germano Costa.
      Exemplos de potencialidades não faltam. É o caso da palma, que no México está sendo utilizada mais para alimentação humana do que animal. Do licuri, do qual é possível fazer azeite e até barra de cereais. Ou da faveleira, usada na produção de óleo. “A questão toda é agregar valor com inovação tecnológica”, resume, citando o exemplo do mel, cuja expansão da cadeia produtiva praticamente está na dependência da
quebra de barreiras fitossanitárias.
     Para transpor esse desafio, diz Germano Costa, será necessário haver uma educação de ensino superior contextualizada, focada nas reais potencialidades da região e na inovação, de forma que se possa gerar produtos e serviços com vantagens competitivas.
     Ele lembra que a economia do século XXI é pautada pela baixa emissão de carbono, por uma regulação ambiental mais severa, responsabilidade socioambiental, exploração de energia renovável e eficiência energética, e de novos materiais e processo produtivos. Nesse contexto, a exploração de culturas xerófilas, a agroecologia e a agropecuária devem estar também na pauta dos estudos das universidades e instituições de pesquisa. Assim como estudos que visem frear a desertificação do solo na região.
         O diretor do Insa destaca, porém, que os problemas do semi-árido não se limitam à exploração sustentável dos recursos naturais. “É necessário romper com a política de combate a seca, de clientelismo e manipulação da miséria, entre outros inúmeros problemas de ordem social, econômica e política”, ressaltou.
         “Trata-se de uma questão estratégica e de interesse nacional”, acrescentou ele, lembrando que, em todo o mundo, há uma tendência de as regiões áridas ou semi-áridas aumentarem de tamanho, enquanto que a porção agricultável tende a ser insuficiente para atender a demanda de alimentos causada pelo crescimento da população. “Não é difícil imaginar as conseqüências sociais e econômicas caso o semi-árido brasileiro, considerada a região semi-árida mais

9 de jan. de 2012

OPÇÕES NO USO DE FORRAGEIRAS ARBUSTIVO-ARBÓREAS NA ALIMENTAÇÃO ANIMAL NO SEMI-ÁRIDO DO NORDESTE

 Por:  Gherman Garcia L. de Araújo, Severino G. de Albuquerque
Clóvis Guimarães Filho - Pesquisadores da Embrapa Semi-Árido 
- Caixa Postal 23. 56300-970  - Petrolina, PE

"à medida que a estação seca progride,  há o aumento da 
disponibilidade de  folhas secas de arbustos e árvores"
RESUMO - Estudos têm revelado que acima de 70% das espécies botânicas da caatinga participam da composição da dieta dos ruminantes domésticos. No período chuvoso, as herbáceas perfazem acima de 80% da dieta dos ruminantes. Porém, à medida que a estação seca progride, há o aumento da disponibilidade de folhas secas de arbustos e árvores, as quais se tornam cada vez mais importantes na dieta dos animais, principalmente dos caprinos. Estrategicamente, as espécies lenhosas são fundamentais no contexto da produção e disponibilidade de forragem no Semi-Árido.
caatingueira 
(Caesalpinia pyramidalis;
C. bracteosa)
     As espécies nativas destacam-se pela alta resistência à seca, por já fazerem parte dos sistemas, pelo alto nível protéico (> 12 %) e pelo fato de a maioria produzir outros produtos, como madeira e frutos. Elas têm algumas desvantagens, como alto teor de tanino, e, por isto, nunca devem compor dietas exclusivas. As principais são caatingueira (Caesalpinia pyramidalis; C. bracteosa), umbuzeiro (Spondias tuberosa), maniçoba (Manihot spp.; M. pseudoglaziovii), camaratuba (Cratylia mollis), mamãozinho (Jacaratia corumbensis), e as cactáceas nativas mandacaru (Cereus jamacaru) e facheiro (Pilosocereus pachycladus). Algumas já estão sendo estabelecidas em plantios sistemáticos, como maniçoba e umbuzeiro. A caatinga, por seu lado, formada por espécies forrageiras como um todo, tem suas deficiências como pastagem nativa, mas é uma ótima pastagem na época chuvosa, e por razões de equilíbrio ambiental, estará sempre presente nos sistemas pecuários do Semi-Árido (AS). Daí a

25 de dez. de 2011

PUROS OU CRUZADOS? EIS A QUESTÃO!

Por: Kepler Euclides Filho




Vaca Nelore com bezerro 1/2 sange Sindi (Mundo Novo-Ba).
     A necessidade de se tomar decisões, de fazer escolhas faz parte de nosso cotidiano. No entanto, muitas vezes, a escolha por uma das opções com as quais nos confrontamos não exclui, necessariamente, as demais. O fiel da balança nem sempre pende obrigatoriamente para um dos lados. Apesar do ser humano ser movido por uma mescla de sentimentos que percorrem o espaço entre a razão e a paixão, não raro, há necessidade de se analisar as situações a luz de informações mais amplas e completas. Assim, na busca de uma resposta à pergunta colocada em epígrafe é necessário ter em mente que ela não será única por ser dependente de um contexto particular que, por sua vez, depende de vários fatores que influenciam a cadeia agroalimentar da carne bovina. Nesse caso, merecem destaque o sistema de produção e seus componentes como clima, solo, infraestrutura, pessoal, objetivos, metas e mercado a ser atendido.

      Com isso, a decisão não pode ser fundamentada somente em desejos ou tendências particulares. É preciso compreender que ela tem de ser tomada frente à consciência de que o objetivo do negócio deverá ser ditado pelo mercado e visar rentabilidade, mas que é, ao mesmo tempo, limitado pelo ambiente. Assim, o dilema apresentado não existe per se, pois a decisão não é, simplesmente, entre o animal puro e o cruzado. Ambos têm suas vantagens e desvantagens.


Meio sangue Sindi x Nelore (Mundo Novo - Ba)
     Os animais puros são a base para qualquer sistema de cruzamento que tenha como objetivo a produção eficiente. A seleção na população pura possibilita não só a melhoria das características sob seleção, mas também traz o reconhecimento a raça e contribui para a sua consolidação. Além disso, faz com que as vantagens de cada raça se constituam no padrão de escolha, isto é, no elemento decisivo para a escolha das raças a serem utilizadas em programas de cruzamentos. Vale ressaltar que para grande parte dos sistemas de produção de bovinos de corte no Brasil, as raças puras, especialmente as adaptadas, são mais interessantes se considerarmos que tais sistemas produtivos possuem deficiências gerenciais e administrativas, carecem de pessoal capacitado e qualificado, possuem baixa capacidade, ou mesmo incapacidade, para promover os investimentos necessários. Outro aspecto diz respeito às características particulares das várias regiões, onde as condições de clima e solo não permitem o incremento da qualidade ou quantidade das forrageiras.
     Por outro lado, ao se acasalar indivíduos de grupos genéticos diferentes, em programas de cruzamentos bem estruturados, têm-se animais que expressam, em geral, para muitas características de importância econômica, o

19 de dez. de 2011

CRUZAMENTO INDUSTRIAL NA PECUÁRIA DE CORTE BRASILEIRA


Já começaram a nascer os primeiros produtos Sindi X Nelore da Bahia Red Sindhi. Por oportuno, publicamos esta semana o artigo CRUZAMENTO INDUSTRIAL NA PECUÁRIA DE CORTE BRASILEIRA do zootecnista Rodolfo Almeida Bacci, anexando ao mesmo, fotos dos primeiros sindinelore nascidos em terras baianas (Mundo Novo-Ba), estes filhos de Calunga MU (Vutan E X Deusa MS).

CRUZAMENTO INDUSTRIAL NA PECUÁRIA DE CORTE BRASILEIRA

Por: Rodolfo Almeida Bacci - Zootecnia-UFLA
INTRODUÇÃO
Na última década o cruzamento industrial de bovinos tornou-se uma importante ferramenta estratégica para programar a produção de carne nos diferentes sistemas produtivos no Brasil. Isto em parte ocorreu em função, principalmente ao aumento da prática de inseminação artificial, e consequentemente pela possibilidade e acessibilidade a sêmen de touros de uma ampla variedade de raças.
A combinação ou o acasalamento de duas ou mais raças adaptadas para corte de diferentes tipos biológicos, que tem por objetivo melhorar eficiência na produção de carne, deve ser entendido como cruzamento industrial. O benefício gerado pela utilização do cruzamento industrial é poder explorar os efeitos da heterose ou vigor híbrido, que podem estar relacionados não só no aspecto produtivo (ganho de peso, peso de carcaça, fertilidade, precocidade, etc.), mas também no aspecto qualitativo da carcaça (como melhor acabamento, marmorização, e maciez). O cruzamento permite de forma mais rápida a obtenção de características desejáveis (carcaça, precocidade, etc.) em relação a seleção nas raças puras, efeito este também podendo ser chamado de complementaridade. Neste ponto deve ser esclarecido e enfatizado que o cruzamento de Zebuínos com raças adaptadas para leite, não são e, portanto não devem ser chamados de cruzamento industrial, por razões óbvias.
Na medida em que se ativa um programa de cruzamento industrial na propriedade, suas necessidades já exigem um sistema organizado de controle genético, de nutrição, de sanidade e de manejo. Os resultados obtidos no produto final compensam porque haverá maior produção, com mais qualidade, em menos tempo.
O cruzamento industrial é valido para todos os animais de corte (aves, suínos, ovinos e bovinos). Não existe mais raça, existe produção e produto. As raças são muitas com algumas delas ganhando destaque, mas nenhuma raça no mundo supera os resultados do cruzamento industrial.
Tipos de cruzamentos
1) Rotacionado: uso de apenas duas raças, segurando as fêmeas para reprodução, sendo estas acasaladas com animais da raça da mãe ou do pai (retrocruzamento);
2) Terminal: cruzamento entre duas raças, onde todos os produtos são destinados ao abate;
3) Rotacionado-terminal: usa-se duas raças para produzir o F1, e cruza-se as fêmeas F1 com uma terceira raça, onde os produtos, machos e fêmeas são destinados ao abate.
Podemos citar também

5 de dez. de 2011

O SINDI É O REI

Geraldo Caboclo
REVISTA DO SINDI 2004.

Entrevista com Geraldo Caboclo
Publicada na REVISTA DO SINDI 2004.
.


Empolgado com o sucesso do Sindi nos sertões e na Primeira Exposição Nacional, o juiz e diretor de Registro Genealógico, de total vivência no semi-árido, diz que o Sindi é a última conquista da História da Zootecnia brasileira, tendo um grande futuro à frente, principalmente quanto à chance de ser exportado para muitos países.

1) No julgamento, o Sr. disse que o Sindi é o rei do sertão. Como explicar isso?
Geraldo Caboclo - Pela experiência que tenho nos sertões do Nordeste e observando o comportamento do Sindi nos períodos de seca é fácil observar que ele é imbatível diante das condições do semi-árido. No momento crítico, o Sindi mostra rusticidade, longevidade, produtividade, tudo isso com a pouca alimentação existente. Isso indica uma alta taxa de conversão de alimentos típicos de região seca e pobre em carne e leite. É um patrimônio valioso para as regiões pobres do mundo inteiro.


2) Esse não é o papel reservado para os mestiços chamados de “Pé-Duros” que têm 500 anos de seleção natural no semi-árido?
Geraldo Caboclo - Ninguém nega o papel do gado Pé-Duro, pois todos crescemos ao lado dele, mas eu nunca vi nada igual ao Sindi que, além de tudo, é raça pura. Antes, eu tinha fé numa seleção preservacionista e até regeneradora do Pé-Duro, mas vi que o Sindi é muito mais resistente, produtivo e lucrativo - e já está pronto. O Sindi veio decretar o ponto-final da longa história do heróico Pé-Duro.

3) O que significa “rusticidade” no caso do Sindi?
Geraldo Caboclo - É fácil de notar, por dois motivos: primeiro, na fazenda do Dr. Manelito, na seca de 92-93, morreram mais ovinos e caprinos do que gado Sindi - isso é rusticidade pra ninguém botar defeito. Um bovino melhor que caprinos e ovinos! Segundo, basta ver a quantidade de gente vendendo o gado antigo e comprando Sindi. Isso é sinal de que essas
pessoas já viram a rusticidade e adequação do Sindi ao sertão, já aprovaram e estão se adequando a uma realidade mais promissora. Por isso, eu me arrisco a dizer tudo de bom sobre o gado Sindi. Não há hipótese de errar, pois a Ciência e a voz do povo estão com ele.
 
4) Quer dizer que o Sindi dá mais rendimento que caprinos e ovinos? 
Geraldo Caboclo - Dá, sim! É preciso respeitar cada coisa em seu lugar, pois ninguém irá desbancar o

27 de nov. de 2011

PLANTAS FORRAGEIRAS PARA O SEMIÁRIDO


Por: Francisco Beni de Sousa
Pesquisador da Embrapa Caprinos
 
Búfel, Urochloa, Icó e árvores nativas
A Pecuária do Nordeste depende, basicamente, da pastagem nativa que teve a capacidade de suporte reduzida em decorrência do manejo inadequado da vegetação apresentando consequentemente baixo desempenho. Contudo, o potencial para elevar a produção animal é amplo, principalmente através da manipulação da vegetação e/ou através do uso de pastagens cultivadas ou de pastagens com propósitos específicos (legumineiras, capineiras, cactáceas, etc.).
Búfel e Urochloa
Resultados obtidos por vários pesquisadores, mostraram que o uso racional de plantas forrageiras adaptadas e selecionadas é viável e que essas forrageiras combinadas com a pastagem nativa permitem aumentar a eficiência da produção animal no Nordeste brasileiro..
Existem várias forrageiras que são recomendadas e devem ser usadas na formação de pastagens cultivadas e com propósitos específicos para a alimentação animal, especialmente na região semi-árida.
Leucena
Para formação de pastagens cultivadas podem ser usadas as gramíneas dos gêneros Cenchrus, Cynodon, Andropogon e Urochloa. O capim-búfel (Cenchrus ciliaris) possui várias cultivares desenvolvidas na Austrália (Biloela, Gayndah, Molopo), e no Brasil (Áridus e CPATASA 7754) além de ecotipos existentes na Bahia e Norte de Minas Gerais.
Guandu
O capim-gramão (Cynodon dactylon) apresenta excelentes características agronômicas, sendo uma boa opção para a formação de pastagens
cultivadas, para o enriquecimento de pastagens nativas, e para a produção de feno. O capim-Andropogon (Andropogon gayanus) cv. Planaltina e o capim-Corrente (Urochloa mosambicensis) também se constituem como opções para a formação de pastagens cultivadas.
Milheto
Na formação de banco de proteína ou legumineira, a leucena é uma das forrageiras mais promissoras para a região semi-árida, principalmente pela capacidade de rebrota durante a época seca, pela adaptação as condições edafoclimáticas do Nordeste e pela excelente aceitação por caprinos, ovinos e bovinos.
Cunhã
O uso da leucena em banco de proteína  para pastejo direto ou para produção de forragem verde, para produção de feno e de silagem,  para o enriquecimento da pastagem nativa e da silagem  de  gramíneas,  e para a produção de sementes, mostra-se como uma alternativa viável para a agropecuária. Outras leguminosas, tais como o guandu (cultivar Taipeiro) e a cunhã também podem ser usadas na

20 de nov. de 2011

O TAMANHO DA VACA DE CORTE E A PRODUÇÃO DE BEZERROS


A utilização de fêmeas F1 para produção de bezerros tem se tornado prática cada vez mais comum nos sistemas de produção do país. As principais razões dessa tendência são as possibilidades de exploração da maior precocidade sexual e da heterose materna (bezerros mais pesados à desmama) que essas fêmeas podem apresentar.

Existem inúmeras raças para cruzamento industrial, e todas com características muito boas, porém muitas destas produzem animais de grande porte, conseqüentemente aumentando o peso adulto das fêmeas. Além do mais, por muitos anos, e ainda em algumas propriedades, têm sido selecionados animais de grande porte.

Porém, o aumento do peso adulto, segundo revisão feita por Olson (1994), levará a uma redução da eficiência reprodutiva. Neste contexto, Olson (1994) descreve dois trabalhos nos quais os objetivos foram avaliar diferentes pesos adultos (pequeno, médio e grande) no desempenho reprodutivo do rebanho.


Em um primeiro estudo, analisou o desempenho de raças compostas (Bos taurus) de diferentes raças, porém com peso adulto diferente, por três estações de monta, em 2 propriedades. Todas as novilhas foram inseminadas para primeira parição com cerca de 2 anos de idade, descartando as novilhas ou vacas que não concebiam. Os resultados são apresentados na tabela 1. Para os dois parâmetros reprodutivos estudados, percentagem de fêmeas ciclando e taxas de nascimentos, observou-se maiores valores para fêmeas de menor tamanho (P<0,05), tanto na 1a estação de monta (EM) / parição (novilhas), como nas demais (2a e 3a).
Tabela 1: crescimento e desempenho reprodutivo de fêmeas de diferentes tamanhos adultos

O autor relata que as diferenças foram mais pronunciadas no sistema onde a estação de nascimento era no outono, ou seja, em período de menor disponibilidade de alimentos. Neste caso, as vacas de maior tamanho adulto apresentaram taxas de nascimento e de ciclicidade 20% menor que os animais com tamanho adulto pequeno. Em situações adversas de alimentação, vacas de menor tamanho adulto teriam melhor desempenho, principalmente pelas menores exigências de mantença destes animais. Após três anos de observações, as relações entre as vacas que permaneceram no rebanho em relação

14 de nov. de 2011

O BOM CALOR TROPICAL

 Por: Manoel Dantas Vilar Filho (Dr Manelito)
Não temos um terço do tempo sob friagens radicais e neves espessas. O zootecnista inglês T. R. Preston (1977) num ensaio designado "Estratégia para produção de bovinos nos Trópicos", garantia que "... os trópicos oferecem possibilidade de rendimento por unidade de área e de viabilidade econômica, que superam em muito as perspectivas atuais e mesmo futuras dos países de clima temperado". Adiante, criticando: ".... as crenças ensinadas nos compêndios de Zootecnia sobre a especialização de bovinos para produzir leite ou carne", propõe que se confie"... sobretudo na função do rúmen" e não se ponham os animais a competir com o Homem pelo consumo de cereais e, por fim, afirma que "... já que necessitamos tanto de carne como de leite, a base de toda a estratégia pecuária racional é considerar as duas produções conjuntamente", fundamentando a genética de dupla aptidão.
A não ser para a pequena parte irrigável artificialmente, onde produzimos qualificadas frutas, existe um triste contraste entre as realidades - boas e más - da zona seca e os mecanismos institucionais de lidar com elas, desde o Ensino/Pesquisa até a política de produção e Assistência.
A chamada Civilização do Couro foi a fase mais próspera da economia nordestina. Técnicos argentinos, falando sobre o Chaco Seco de lá (1980) - que tem a mesma extensão que o nosso Polígono das Secas, afirmam: "... de acordo com nossa experiência, quanto mais seca a região, sempre que se disponha de pasto e água, tanto maior é a produção pecuária. E mais: "... estamos em condições de afirmar que todo plano puramente agrícola nestas regiões está, de antemão, condenado ao fracasso. O risco das colheitas é demasiado grande para ser a base da exploração". 
O Brasil, com o Nordeste seco bem incluído tem a vocação e o destino de ser, também, a grande nação agropecuária, sobretudo pecuária, do mundo. Basta neutralizar mentes coloniais e ter a dignidade de estabelecer uma política decente de financiamentos rurais, calcada em parâmetros tecnicamente corretos e ajustados para cada região fisiográfica. Tomando o Brasil como referência para pensar o Brasil e a peculiar semiaridez do Nordeste para o Nordeste.
O Nordeste é seco. O inverno é um pequeno intervalo de tempo entre dois estios que, às vezes, se emendam. A grande vocação das terras secas é pecuária de ruminantes e isso já começa a ser considerado, graças a Deus. Por mais óbvia que seja, quase sempre é preciso repetir uma mesma idéia até cansar! Há uma dramática não-decisão em relação à semi-aridez do Nordeste. Os moradores do semi-árido são credores do Brasil.
À medida que se está ideologicamente revogando a "filosofia da água", do "combate à seca" - a água passando a ser buscada para resolver o problema da sede, o uso primordial e sem alternativa que água tem e não o da fome, como "fator de produção" excludente, e vai clareando o caminho técnico-cultural-político de viver em sintonia com a Natureza desse mundo áspero, bonito, possível e mal tratado do sertão das águas desarrumadas, a pecuária de múltipla função, sobre vegetais perenes, integrada por bovinos, caprinos e ovinos, bem adaptados ao ambiente, recriará a civilização do couro em novas bases e o semi-árido poderá se transformar, também do ponto de vista da produção e da prosperidade, num belo pedaço do Brasil. A raça das plantas, como a raça dos animais, para cada latitude é um fator fundamental.
O semi-árido - Por uma perniciosa deformação cultural, em larga medida, brasileiros ainda se mantêm com o umbigo e a mente, presas do estrangeiro, como que cultiva um complexo de inferioridade, colonial, negativo, menor. Um estadista paraibano - João Suassuna - já escreveu num documento de Governo (1926): "somos um povo sugestionado pela política inferior do decalque". No trabalho na terra, essa anomalia se

Pensamento do mês