12 de jun. de 2011

DIVERSIDADE FLORÍSTICA NAS PASTAGENS DA CAATINGA

Nas últimas décadas diversos capins trazidos principalmente da África e Austrália foram disseminados no semiárido brasileiro. Estas gramíneas exóticas adaptadas como o Urochloa, o Green Panic, o Birdwood e o Buffel, contribuíram sobremaneira para aumentar os índices de produção pecuária das regiões secas do nordeste. A estimativa de produção do Buffel-grass, por exemplo, embora varie muito, a depender das condições de solo, precipitação e manejo, é da ordem de cinco toneladas de matéria seca por hectare/ano, o que permite lotação - número de animais por área - e produtividade animal muito superior à alcançada pela caatinga como pasto nativo.


Intensificar a produção pecuária é uma necessidade imposta por um mercado cada vez mais competitivo e pela demanda mundial por alimentos. É também o único caminho para a preservação do ambiente natural, afinal, a produção eficiente e sustentável nas áreas comprometidas com o processo produtivo torna possível a proteção de áreas destinadas à preservação. Por isto as pastagens no semiárido precisam aproveitar as potencialidades das forragens exóticas disseminadas e outras que provavelmente haverão de surgir. Entretanto a monocultura de gramíneas, como acontece em outros ambientes, se mostra completamente prejudicial ao semiárido. As pastagens implantadas no bioma frágil das caatingas precisam manter a diversidade vegetal, com gramíneas, leguminosas, arbustos e árvores em equilíbrio dinâmico. No semiárido os pastos devem buscar a máxima semelhança possível com a vegetação nativa, tentando reproduzir os processos, sistemas e elementos que a natureza levou milhões de anos para desenvolver.

              Qualquer monocultura, como o pasto de apenas uma espécie forrageira, é um ecossistema modificado que faz decair a bioestrutura do solo. Suas raizes exploram uma única camada do solo e tendem a constituir algum adensamento em determinada profundidade. No semiárido o confinamento das raízes à camada superior, submetida a forte aquecimento e frequente ressecamento, prejudica a planta que irá sofrer escassez de água e nutrientes muito precocemente. Inicia-se assim um processo de decadência da vegetação com redução do acúmulo de matéria orgânica que provoca perda da estrutura do solo e redução de sua capacidade de armazenar água. Se a água das chuvas ocasionais não puder ser armazenada por falta de vegetação, por causa da impermeabilização do solo, ou porque este foi erodido, ela escoará rapidamente provocando enchentes e voltando ao oceano.

Produtores rurais do semiárido, algumas vezes até soborientação” de técnicos pouco afinados com as peculiaridades do nosso bioma, ou inspirados em modelos de produção pecuária de outras regiões tropicais, no intuito de manter suas pastagens livres de “ervas daninhas”, estão na verdade combatendo a diversidade florística que a sábia natureza insiste em nos presentear. Ao realizar a retirada indiscriminada da cobertura vegetal para manterpastos limpos”, principalmente se estes forem posteriormente superpastejados, estão provocando uma “regressão ecológica” do solo que volta às características de rocha sem capacidade de armazenar água. Sem água e incapaz de manter a vida, o solo será apenas uma superfície irradiadora de calor que contribui para a deflagração de processos de desertificação como se tem verificado em diversas regiões do país.



A compreensão de que muitas plantas que surgem expontâneamente nas pastagens em verdade não são “daninhas” e devem ser preservadas é fundamental para uma pecuária sustentável. No semiárido, quando uma espécie nativa não concorre com a forrageira e não oferece perigo de se tornar predominante, não deve de modo algum ser eliminada, pois esta ajudando a criar uma diversidade florística extremamente benéfica. Esta prestando um serviço ambiental diminuindo a ação desidratante dos ventos, retendo a força erosiva das águas, aportando matéria orgânica ao solo e seqüestrando carbono do ar. Podemos chama-la de “invasora selecionada”, que esta também impedindo que outra planta, verdadeiramente invasora e daninha, ocupe aquele espaço. Além do que, não raro, temos visto muitas desta plantas, tornarem-se o último recurso em secas mais prolongadas, como acontece com o Icó, a Palmatória, a Caatinga-de-Porco a Farinha-seca, o Mandacarú, o Juazeiro, o Licurizeiro, e tantas outras.

José Caetano Ricci de Araújo
Eng° Agrônomo e Produtor Rural
Ipirá – Bahia

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