15 de jun. de 2016

MEDIDIDA PROVISÓRIA N 733, DE 14 DE JUNHO DE 2016 Autoriza a liquidação e a renegociação de dívidas de crédito rural e altera a Lei nº 10.177, de 12 de janeiro de 2001.


O VICE-PRESIDENTE DA REPÚBLICA , no exercício do cargo dePRESIDENTE DA REPÚBLICA , no uso da atribuição que lhe confere o art. 62 da Constituição, adota a seguinte Medida Provisória, com força de lei:
Art. 1º Fica autorizada a concessão de rebate para liquidação, até 29 de dezembro de 2017, das operações de crédito rural referentes a uma ou mais operações do mesmo mutuário, contratadas junto ao Banco do Nordeste de Brasil S.A. - BNB até 31 de dezembro de 2011, com recursos oriundos do Fundo Constitucional do Nordeste FNE e com recursos mistos do FNE com outras fontes, relativas a empreendimentos localizados na área de abrangência da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste - Sudene, observadas ainda as seguintes condições:
I - operações com valor originalmente contratado de até R$ 15.000,00 (quinze mil reais) em uma ou mais operações do mesmo mutuário:
a) quando contratadas até 31 de dezembro de 2006: rebate de 95% (noventa e cinco por cento) sobre o saldo devedor atualizado, para a liquidação das dívidas relativas aos empreendimentos localizados nas regiões do Semiárido e do Norte do Estado do Espírito Santo e nos Municípios do Norte do Estado de Minas Gerais, do Vale do Jequitinhonha e do Vale do Mucuri, compreendidos na área de atuação da Sudene, e rebate de 85% (oitenta e cinco por cento) para os demais Municípios; e
b) quando contratadas entre 1º de janeiro de 2007 e 31 de dezembro de 2011: rebate de 50% (cinquenta por cento) sobre o saldo devedor atualizado, para a liquidação das dívidas relativas aos empreendimentos localizados nas regiões do Semiárido e do Norte do Estado do Espírito Santo e nos Municípios do Norte do Estado de Minas Gerais, do Vale do Jequitinhonha e do Vale do Mucuri, compreendidos na área de atuação da Sudene, e rebate de 40% (quarenta por cento) para os demais Municípios;
II - operações com valor originalmente contratado acima de R$ 15.000,00 (quinze mil reais) e até R$ 35.000,00 (trinta e cinco mil reais) em uma ou mais operações do mesmo mutuário:
a) para a parcela do saldo devedor atualizado correspondente ao valor originalmente contratado de até R$ 15.000,00 (quinze mil reais), aplica-se o disposto no inciso I do caput ;e
b) para a parcela do saldo devedor atualizado correspondente ao valor originalmente contratado excedente a R$ 15.000,00 (quinze mil reais) e até o limite de R$ 35.000,00 (trinta e cinco mil reais):
1. quando contratadas até 31 de dezembro de 2006: rebate de 90% (noventa por cento) para a liquidação das dívidas relativas aos empreendimentos localizados nas regiões do Semiárido e do Norte do Estado do Espírito Santo e nos Municípios do Norte do Estado de Minas Gerais, do Vale do Jequitinhonha e do Vale do Mucuri, compreendidos na área de atuação da Sudene, e rebate de 80% (oitenta por cento) para os demais Municípios; e
2. quando contratadas entre 1º de janeiro de 2007 e 31 de dezembro de 2011: rebate de 40% (quarenta por cento) para a liquidação das dívidas relativas aos empreendimentos localizados nas regiões do Semiárido e do Norte do Estado do Espírito Santo e nos Municípios do Norte do Estado de Minas Gerais, do Vale do Jequitinhonha e do Vale do Mucuri, compreendidos na área de atuação da Sudene, e rebate de 30% (trinta por cento) para os demais Municípios;
III - operações com valor originalmente contratado acima de R$ 35.000,00 (trinta e cinco mil reais) e até R$ 100.000,00 (cem mil reais) em uma ou mais operações do mesmo mutuário:
a) para a parcela do saldo devedor atualizado correspondente ao valor originalmente contratado de até R$ 35.000,00 (trinta e cinco mil reais), aplica-se o disposto nos incisos I e II do caput ;e
b) para a parcela do saldo devedor atualizado correspondente ao valor originalmente contratado excedente a R$ 35.000,00 (trinta e cinco mil reais) e até o limite de R$ 100.000,00 (cem mil reais):
1. quando contratadas até 31 de dezembro de 2006: rebate de 85% (oitenta e cinco por cento) para a liquidação das dívidas relativas aos empreendimentos localizados nas regiões do Semiárido e do Norte do Estado do Espírito Santo e nos Municípios do Norte do Estado de Minas Gerais, do Vale do Jequitinhonha e do Vale do Mucuri, compreendidos na área de atuação da Sudene, e rebate de 75% (setenta e cinco por cento) para os demais Municípios; e
2. quando contratadas entre 1º de janeiro de 2007 e 31 de dezembro de 2011: rebate de 35% (trinta e cinco por cento) para a liquidação das dívidas relativas aos empreendimentos localizados nas regiões do Semiárido e do Norte do Estado do Espírito Santo e nos
Municípios do Norte do Estado de Minas Gerais, do Vale do Jequitinhonha e do Vale do Mucuri, compreendidos na área de atuação da Sudene, e rebate de 25% (vinte e cinco por cento) para os demais Municípios;
IV - operações com valor originalmente contratado acima de R$ 100.000,00 (cem mil reais) e até R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais) em uma ou mais operações do mesmo mutuário:
a) para a parcela do saldo devedor atualizado correspondente ao valor originalmente contratado de até R$ 100.000,00 (cem mil reais), aplica-se o disposto nos incisos I, II e III do caput ;e
b) para a parcela do saldo devedor atualizado correspondente ao valor originalmente contratado excedente a R$ 100.000,00 (cem mil reais) e até o limite de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais):
1. quando contratadas até 31 de dezembro de 2006: rebate de 80% (oitenta por cento) para a liquidação das dívidas relativas aos empreendimentos localizados nas regiões do Semiárido e do Norte do Estado do Espírito Santo e nos Municípios do Norte do Estado de Minas Gerais, do Vale do Jequitinhonha e do Vale do Mucuri, compreendidos na área de atuação da Sudene, e rebate de 70% (setenta por cento) para os demais Municípios; e
2. quando contratadas entre 1º de janeiro de 2007 e 31 de dezembro de 2011: rebate de 25% (vinte e cinco por cento) para a liquidação das dívidas relativas aos empreendimentos localizados nas regiões do Semiárido e do Norte do Estado do Espírito Santo e nos Municípios do Norte do Estado de Minas Gerais, do Vale do Jequitinhonha e do Vale do Mucuri, compreendidos na área de atuação da Sudene, e rebate de 20% (vinte por cento) para os demais Municípios; e
V - operações com valor originalmente contratado acima de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais) em uma ou mais operações do mesmo mutuário:
a) para a parcela do saldo devedor atualizado correspondente ao valor originalmente contratado de até R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais), aplica-se o disposto nos incisos I, II, III e IV do caput ;e
b) para a parcela do saldo devedor atualizado correspondente ao valor originalmente contratado excedente a R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais):
1. quando contratadas até 31 de dezembro de 2006: rebate de 60% (sessenta por cento) para a liquidação das dívidas relativas aos empreendimentos localizados nas regiões do Semiárido e do Norte do Estado do Espírito Santo e nos Municípios do Norte do Estado de Minas Gerais, do Vale do Jequitinhonha e do Vale do Mucuri, compreendidos na área de atuação da Sudene, e rebate de 50% (cinquenta por cento) para os demais Municípios; e
2. quando contratadas entre 1º de janeiro de 2007 e 31 de dezembro de 2011: rebate de 15% (quinze por cento) para a liquidação das dívidas relativas aos empreendimentos localizados nas regiões do Semiárido e do Norte do Estado do Espírito Santo e nos Municípios do Norte do Estado de Minas Gerais, do Vale do Jequitinhonha e do Vale do Mucuri, compreendidos na área de atuação da Sudene, e rebate de 10% (dez por cento) para os demais Municípios.
§ 1º Os saldos devedores das operações a serem liquidadas nos termos deste artigo serão apurados com base nos encargos contratuais de normalidade, excluídos os bônus, sem o cômputo de multa, mora ou quaisquer outros encargos por inadimplemento ou honorários advocatícios.
§ 2º Fica o FNE autorizado a assumir os ônus decorrentes das disposições deste artigo referentes às operações lastreadas em seus próprios recursos e às operações lastreadas em recursos mistos do FNE com outras fontes contratadas com o BNB.
§ 3º Fica suspenso o encaminhamento para cobrança judicial dos débitos referentes às operações enquadráveis neste artigo até 29 de dezembro de 2017.
§ 4º O prazo de prescrição das dívidas de que trata o caput fica suspenso a partir da data de publicação desta Medida Provisória até 29 de dezembro de 2017.
§ 5º Para fins de enquadramento nas disposições deste artigo, os saldos devedores das operações de crédito rural contratadas com cooperativas, associações e condomínios de produtores rurais, inclusive as operações efetuadas na modalidade grupal ou coletiva, serão apurados:
I - por cédula-filha ou instrumento de crédito individual firmado por beneficiário final do crédito;
II - pelo resultado da divisão do valor originalmente contratado pelo número de mutuários constantes da cédula de crédito, no caso de crédito rural grupal ou coletivo; e
III - pelo resultado da divisão dos saldos devedores pelo número total de cooperados ou associados ativos da entidade, no caso de operação que não tenha envolvido repasse de recursos a cooperados ou associados.
§ 6º As disposições deste artigo não se aplicam às operações:
I - contratadas ao amparo do inciso V do art.  da Lei nº 11.775, de 17 de setembro de 2008; ou
II - contratadas por mutuários que tenham comprovadamente cometido desvio de finalidade de crédito, exceto se a irregularidade tenha sido sanada previamente à liquidação ou à renegociação da dívida.
§ 7º Para os efeitos do disposto no caput , os honorários advocatícios e as despesas com custas processuais são de responsabilidade de cada parte e a falta de seu pagamento não obsta a liquidação da dívida.
§ 8º No caso de operações contratadas com recursos do FNE por meio de repasse da instituição financeira administradora, fica autorizada a adoção dos mesmos procedimentos para liquidação de que trata este artigo, devendo a instituição financeira administradora do FNE, na hipótese de haver recebido valores vencidos e não pagos pelo mutuário, restituir ao agente financeiro tais valores, atualizados pela mesma remuneração devida às disponibilidades do FNE.
§ 9º Os custos decorrentes do ajuste dos saldos devedores previstos no § 2º serão assumidos pelo FNE, nas operações lastreadas em seus recursos.
Art. 2º Fica autorizada, até 29 de dezembro de 2017, a repactuação das dívidas das operações de crédito rural contratadas junto ao BNB, com recursos oriundos do FNE e com recursos mistos do FNE com outras fontes, relativas a empreendimentos localizados na área de abrangência da Sudene, contratadas até 31 de dezembro de 2011, observadas as seguintes condições:

1 de jun. de 2016

INTERAÇÃO GENÓTIPO-AMBIENTE-MERCADO NA PRODUÇÃO DE CARNE BOVINA NOS TRÓPICOS


Kepler Euclides Filho Eng.-Agr., CREA No 12153/D, Visto 1466/MS EMBRAPA- Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Corte (CNPGC) Caixa Postal 154, 79002-970, Campo Grande - MS. E-mail: kepler@cnpgc.embrapa.br

INTRODUÇÃO

Por muitos anos, os criadores brasileiros se preocuparam em promover seleção dos bovinos com enfoque quase que exclusivo nas características relacionadas com o padrão racial e com a caracterização das diversas raças zebuínas. Tais características foram, por muito tempo, aquelas relacionadas com o aspecto do animal tais como, formato de cabeça, tamanho e forma de orelha, inserção de cauda, inserção e forma de chifres dentre outras. A evolução da pecuária de corte introduziu modificações de comportamento e interesse mas, principalmente, mudanças de conceito e, com isso, as característica salvo de seleção também se modificaram. A conformação, o aprumo, a linha de dorso, a caixa torácica, as características sexuais e outras, assumiram importância maior. Esse trabalho quase que obstinado dos produtores e técnicos foi um dos grandes responsáveis pelo estabelecimento, pelo fortalecimento e pelo nível de desempenho observado, atualmente, nas diversas raças zebuínas presentes no Brasil. Entretanto, a evolução natural do conhecimento científico e das demandas de mercado, introduziu novos conceitos e permitiu o engajamento maior de técnicos e produtores em torno de
propostas fundamentada no desempenho produtivo dos animais. Assim, o melhoramento genético animal iniciou uma nova fase que vem se solidificando e se aprimorando com o desenvolvimento das novas biotécnicas, e com a evolução das áreas da computação, da estatística e da bio-informática. Esse processo de transformação fez com que EUCLIDES FILHO (2000) afirmasse que "à semelhança do passado, a ciência deverá continuar sendo permeada pela arte, no sentido de ser capaz, não só de combinar a beleza da forma com a função, mas também de ser capaz, muitas vezes, de, pela forma, predizer a produção. Esta necessidade de visão global, do bom senso, do conhecimento científico e, principalmente, da capacidade de se combinar tudo isto, é que faz do melhoramento genético não só ciência, mas também uma arte". Nesse novo cenário, o animal e, em especial, sua constituição genética, tem assumido importância crescente na cadeia produtiva da carne bovina; Todavia, para que o setor seja rentável e, ao mesmo tempo, atenda às demais demandas como sustentabilidade da cadeia produtiva e satisfação do consumidor, o sistema de produção deve ser enfocado, analisado e implementado como um todo. 
SISTEMAS DE PRODUÇÃO DE GADO DE CORTE PREDOMINANTES NO BRASIL
Entende-se por sistema de produção de gado de corte o conjunto de tecnologias e práticas de manejo, bem como o tipo de animal, o propósito da criação, a raça ou o grupamento genético e a ecorregião onde a atividade é desenvolvida. Deve-se considerar ainda, ao se definir um sistema de produção, os aspectos sociais, econômicos e culturais, uma vez que esses têm influência decisiva, principalmente, nas modificações que poderão ser impostas por forças externas, e especialmente, na forma como tais mudanças deverão ocorrer para que o processo seja eficaz, e as transformações alcancem os benefícios esperados. Permeando todas essas considerações deve estar a definição do mercado, e consequentemente, a demanda a ser atendida, ou seja, quais são e como devem ser atendidos os clientes ou consumidores. Assim, torna-se evidente que o estabelecimento, e/ou a adequação de um determinado sistema de produção, não depende unicamente do desejo do produtor mas está intimamente relacionado com as condições sócioeconômicas e culturais da região e da sua possibilidade e/ou capacidade de promover investimentos. Outro aspecto decisivo é a necessidade de o sistema ser estruturado com base em objetivos bem definidos que, ao serem estabelecidos, devem levar em conta as demandas do mercado consumidor. Considerando-se que no Brasil há tremenda diversidade em todosestes aspectos, considerando-se ainda, a necessidade de a atividade ser, antes de mais nada, um empreendimento econômico, e como tal, deve gerar lucros como premissa básica para que se desenvolva e prospere, pode-se facilmente concluir que, no Brasil, dificilmente existirá um sistema de produção de gado de corte único. Assim, o uso isolado ou combinado das tecnologias disponíveis deve ser analisado dentro de cada contexto particular. Essa visão integrada é também de fundamental importância no próprio desenvolvimento de novas tecnologias. Entretanto, os cenários globais presente e previsível permitem se inferir que a pecuária de corte brasileira tem grandes possibilidades de se estabelecer como atividade competitiva nos mercados nacional e internacional, podendo ser, em muitas situações, conduzida em sistemas altamente intensivos, competitivos, sustentáveis e economicamente viáveis. No Brasil, os sistemas de produção de carne bovina caracterizam-se pela dependência quase que exclusiva de pastagens. À exceção da região Sul, ou seja, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e sul do Paraná, em
todas as demais, as forrageiras predominantemente utilizadas são tropicais. Dentre essas destacam-se as cultivares dos gêneros Brachiaria e Panicum. Enquanto o fato de se fundamentar em pastagens resulta, por um lado, em vantagem comparativa por viabilizar custos de produção relativamente baixos; por outro, a utilização exclusiva dessa fonte de alimentação tem, nesse momento em que as competitividades por preço e por qualidade de produto impõem mudanças no setor, se apresentado bioeconomicamente inviável em muitas situações. Isso é agravado, principalmente, pela forma como estas pastagens são, de modo geral, manejadas. É por demais conhecido o problema da sazonalidade da produção forrageira intensificado pelo fato de as forrageiras tropicais, mesmo no período das chuvas, não serem capazes de produzir, por muito tempo, alimento com qualidade que possibilite o atendimento das exigências para crescimento dos animais, principalmente daqueles de alto potencial genético. Assim, as gramíneas mais cultivadas, apesar de produzirem grande
quantidade de material forrageiro durante o período das águas, apresentam um período muito curto no qual a forragem por elas produzida possui qualidade capaz de possibilitar desempenhos compatíveis com a necessidade requerida para se manter sistemas competitivos.
A duração desse período varia com a região e com as condições de manejo geral do sistema de produção, mas em qualquer situação, esse período é inferior à duração da estação de chuvas (EUCLIDES e EUCLIDES FILHO, 1998). No restante da época chuvosa e, principalmente, durante o período seco, além da redução verificada na quantidade de matéria seca produzida, ou mais adequadamente segundo EUCLIDES et al. (1993a,b), redução na quantidade de Matéria Verde Seca (MVS), há decréscimo acentuado em sua qualidade. Tal situação pode ser amenizada, ou mesmo melhorada, com o uso de estratégias de manejo envolvendo alternativas diversas, as quais poderiam englobar uso diferenciado de sistemas de pastejo; fertilização, tanto direta quanto por meio de rotação de culturas; irrigação; uso de consorciação com leguminosas e uso de espécies de gramíneas mais adequadas. Em contraposição a essa situação existe uma demanda cada vez mais crescente que se traduz na necessidade de se produzir de forma econômica, eficaz, eficiente e competitiva. Tal exigência encerra em seu bojo, a tendência inexorável de intensificação. Isso não quer dizer, no entanto, que a intensificação será total, nem tampouco, no mesmo nível nas diversas regiões. Além disso, ela não será um processo a ser desenvolvido somente nos sistemas de produção, mas sim, uma necessidade que deverá permear os diversos segmentos componentes da cadeia produtiva. O atendimento dessa demanda ampla de melhoria de eficiência será alcançado pelos sistemas de
produção de gado de corte de diversas maneiras. Dentre as quais podem-se mencionar desde o desenvolvimento de sistemas especializados nas diferentes fases até produção de carne com marca, passando pelo uso de animais de alto potencial genético em sistemas envolvendo pastagens adubadas com pastejo rotacionado, suplementação alimentar em pasto e confinamento. 
Apesar de se poder prever, conforme mencionado por EUCLIDES FILHO (1996), que haverá especialização de sistemas para as diferentes fases da pecuária, quais sejam: cria, recria e engorda, e que em alguns casos a recria será eliminada, a grande maioria hoje envolve as três fases (Figura 1). Qualquer que seja a situação, no entanto, o uso de tecnologias será responsável por incrementos importantes nos índices zootécnicos do rebanho conforme pode ser observado na Tabela 1. Além disso,

1 de abr. de 2016

O SERTÃO FRUGAL E VERDADEIRO –CRÔNICA DE UMA CONVICÇÃO

A busca de elementos biológicos e conhecimentos apropriados
Artigo de Manoel Dantas Vilar Filho
 
À GUISA DE INTRODUÇÃO:
A seca e a extravagância de seu destratamento
...não há graça nenhuma em se sentir num 
batalhão, com o passo desencontrado... 
Sei que mantenho, lá por dentro, a humildade 
dos apaixonados e que, enfim, devo ter os 
defeitos e as virtudes da Raça a que pertenço:
 a dos nordestinos temperados na teimosia 
contra a dificuldade...
É muito desgastante ter de fazer as coisas apesar de e não há graça nenhuma em se sentir num batalhão, com o passo desencontrado. Por isso, falando sobre esses assuntos da Seca, corro o risco de ficar enfático ou maçante. Se o for, me perdoem; é um exagero natural dos crentes, mesclando a impaciência de quem resiste ao desencanto. Sei que mantenho, lá por dentro, a humildade dos apaixonados e que, enfim, devo ter os defeitos e as virtudes da Raça a que pertenço: a dos nordestinos temperados na teimosia contra a dificuldade, escorados na fidelidade a si mesmos e ao seu mundo cheio de despojamentos. 
O que aprendi foi em alguns livros e através de continuada observação, na reflexão e na ação dedicadas exclusivamente ao Cariri das secas, onde a dimensão do real aniquila qualquer frivolidade, até por cima do sofrimento sem medida e sem consolo - além da fé - do seu povo.
Nessa contramão do roteiro clássico da 
migração dos nordestinos, desenvolvi com o 
semi-árido uma relação intensa, funda e 
inevitável, e, tanto melhore a nitidez dos 
caminhos, cresce uma forma de tristeza, 
ao digerir o contraste entre o viável 
de fazer e o que se faz, sendo
 a lógica, como é, a ética do intelecto.
Vou escrever como quem tenta contar de experiência vivida, pensando em acrescer alguma informação a outro que, como eu, até por lealdade às suas raízes, queira envolver o tempo da mente e da carcaça, com esse mundo áspero, bonito, possível e mal tratado da zona seca. Daí, talvez, o tom pessoal mais acentuado de algum trecho, sobretudo quando não consigo esconder travos de rigor e do pecado da ira, que, por mais que não quisesse, foram aderindo à minha expectativa. Coisa de convertido em monomaníaco, que procura se compensar dessa condição, se valendo da cortesia da clareza e da vantagem de não atropelar a mania de outros.
Devo chamar esse texto de sumário das veredas - longas e cheias de voltas, como o texto - por onde fui me aconselhando, nesses trinta e tantos anos, desde que larguei as atividades urbanas de Engenharia e Universidade e assumi, por morte desavisada do Pai, em tempo e empenho integrais, o cuidado da Fazenda, sem considerar isso uma condenação. Nessa contramão do roteiro clássico da migração dos nordestinos, desenvolvi com o semi-árido uma relação intensa, funda e inevitável, e, tanto melhore a nitidez dos caminhos, cresce uma forma de tristeza, ao digerir o contraste entre o viável de fazer e o que se faz, sendo a lógica, como é, a ética do intelecto.
Especialistas classificam as Secas em meteorológicas - periódicas e típicas de cada região, hidrológicas - baixas precipitações eventuais em qualquer clima e sócio-econômicas - resultantes da associação entre perda de bens de produção e qualquer das duas anteriores.
A Seca é uma característica normal e recorrente 
do Clima, diferindo de outros riscos naturais por 
sua lenta maturação, sem a ostensividade 
repentina das enchentes ou dos terremotos.
A Seca é uma característica normal e recorrente do Clima, diferindo de outros riscos naturais por sua lenta maturação, sem a ostensividade repentina das enchentes ou dos terremotos. É o mais complexo e o menos compreendido deles, afetando maior número de pessoas que qualquer outro. Difere da aridez, que é situação plena, e seus efeitos vão se acumulando progressivamente, perdurando anos após sua finalização. Não é mais assunto da Defesa Civil e da Caridade Pública, em boa parte do mundo onde ocorre.
Aqui, ainda lhe tratam como uma espécie de azar seu de um pedaço do Brasil, onde persistentes fatalistas teimam em morar e para quem, tecnocratas e políticos, seduzidos por uma posição intelectual mais fácil e de fazer mais simples, se limitam a masturbar-se na molhação artificial da terra para pensar em produção, indiferentes ao conflito entre o mundo real e esse comodismo do cérebro. Ainda não resolveram o problema de áqua para beber o uso primordial e sem sucedâneo que água tem e que é de solução sabida e accessível.
A intempestividade das chuvas do NE e seu regime distributivo, caracterizam uma região de clima singular, caprichoso, não compatível com equações de 1° grau na sua abordagem e, por conseqüência, com plantas e animais que sejam lineares nas suas condições para crescer e produzir. E nem com gente que tenha como baliza de pensamento, um cartesianismo derivado de climas regulares e coisas mansas.
.Um Ensaio estatístico desenvolvido no CTA (Carlos Girardi e Luís Teixeira) em 1978, evidenciou dois tipos básicos de Secas no NE, além dos oito ou nove meses sem chover, normais, de cada ano: um período radical, isolado (ciclo de 13 anos), inserido num tempo relativamente chuvoso (1866, 1915, 1942 e, depois, 1993),
A leitura política do par de curvas que desenham a análise 
e a projeção da série estatística do CTA, revela curiosas 
circunstâncias e constatações de muita valia para se entender
 o que já houve e porque continua sem haver providências 
sistemáticas... para acudir, efetivamente, o problema e o povo...
(Fonte desta imagem: http://livros01.livrosgratis.com.br/ut000004.pdf)
e outro, um encadeamento de anos brabos - as, até então, chamadas Grandes Secas - em intervalos aproximados de 26 anos, onde dois são particularmente ruins e o número do pior grava na lembrança regional a dureza do conjunto. Os ciclos foram: 1873/78, com secas máximas em 1877 e 1878; o segundo em 1900/07, com as maiores em 1900 e 1907; um outro 1927/33, com o pico em 1931 e 1932 e o seguinte, 1951/58, com o pior em 1953 e 1958. O último, o imediatamente previsto pelo CTA, foi de 1979 a 1983, com as maiores secas em 1981 e 1983. Há poucos dias, incluindo os dados de 1978 até 2000 e afinando o tratamento matemático da nova série, demarcaram um novo período mínimo a partir de 2003.
Em Taperoá, as medições desde 1911,
indicam: média anual de 584 mm,
mínimo de 97 e máximo de 2030 mm
.No Cariri Velho da Paraíba (1/3 do território estadual), quando há variação dessas probabilidades é, sempre, para pior, além dos que seriam anos atípicos da série, como 1898, 1919 e depois 1998, que foram de terríveis secas gerais. Em Taperoá, as medições desde 1911, indicam: média anual de 584 mm, mínimo de 97 e máximo de 2030 mm, distribuídos em 42 dias/ano com alguma chuva, sendo apenas 14 com chuvas maiores que 10 mm. Às vezes há somente 5 dias/ano com chuvas maiores que 10 e caem aguaceiros de 150/200 mm numa mesma noite. Além disso, o 1° dia do tempo molhado, oscila desde 9 de dezembro do ano anterior até 29 de abril e o final é, também, volúvel. Creio que essa é a realidade ambiental básica de todo o semi-árido, peculiarizando essa semi-aridez, o que, entre outras coisas, desvaloriza o decalcado conceito de altura anual de chuva como padrão para avaliar o bom, o ruim, e o que fazer. No centro-sul da França, por exemplo, os seus 600 mm anuais, caem em 183 dias.
Nenhum governante nordestino incluiu, até hoje, 
nos seus planos de mandato, se ocupar assiduamente
 com a Seca, apesar da assiduidade com que 
ela ocorre, sendo, a partir desse ensaio e da 
evolução posterior do conhecimento (El Nino, 
La Nina; oscilação de temperaturas do 
Atlântico, etc); até, previsíveis;

.A leitura política do par de curvas (desenhos e outros comentários anexos) que desenham a análise e a projeção da série estatística (1849-1978) do CTA, revela curiosas circunstâncias e constatações de muita valia para se entender o que já houve e porque continua sem haver providências sistemáticas - como a Seca é - para acudir, efetivamente, o problema e o povo:
.Cada estio maior é quem gerou, depois de acontecido, alguma iniciativa de Governo em relação às secas, sempre em tom peremptório e pretensão definitiva;
.Essa formulação espasmódica é deslembrada ou esvaziada, assim que volta a chover, até que nova seca venha emocionalizar as conversas, quando se improvisa outra, sob a mesma retórica, a mesma inconsistência e a mesma transitoriedade, ainda hoje;
.A visão hidraulicista (água como fator de produção faltante/excludente) da

1 de mar. de 2016

PALMA FORRAGEIRA E BAGAÇO DE CANA TRATADO COM UREIA E AMÔNIA NA DIETA DE RUMINANTES

Poliana Aguilar, Aureliano José Vieira Pires, Maxwelder Santos Soares, Leonardo Guimarães Silva, Joanderson Oliveira Guimarães, Leone Campos Rocha, Thaiane Costa Machado, Olivaneide da Silva Frazão
INTRODUÇÃO
A necessidade de suplementação alimentar de ruminantes durante o período de escassez de alimentos torna os métodos de conservação bastante recomendados e por isto, tem-se pesquisado alternativas que reflitam em diminuição dos custos e aumentem o valor nutritivo de alimentos considerados de baixa qualidade ou baixo valor nutritivo (Pinheiro et al., 2009).
A palma forrageira tem sido utilizada
como base da alimentação em rebanhos do Nordeste
 
por ser uma cultura adaptada às condições edafoclimáticas da região, apresentando altas produções de matéria seca por unidade de área, constituindo-se em excelente fonte de energia, rica em carboidratos não fibrosos e nutrientes digestíveis totais. Porém, apresenta teores reduzidos de fibra em detergente neutro e proteína bruta. É de caráter imperativo a sua associação a volumosos com teores consideráveis de fibra efetiva, priorizando o equilíbrio entre carboidratos fibrosos e não fibrosos na dieta, e fontes de nitrogênio (Pessoa et al., 2008). O bagaço de cana-de-açúcar é um alimento que apresenta como principais características elevado conteúdo em constituintes da parede celular, baixa digestibilidade e baixo teor de proteína bruta. Apesar de suas limitações nutricionais, trata-se de uma fonte de fibra importante para manter a saúde ruminal. Seu baixo teor em proteína leva à necessidade de correções nutricionais em dietas à base de bagaço de
O bagaço de cana-de-açúcar é um alimento que
apresenta como principais características elevado
conteúdo em constituintes da parede celular
cana-de-açúcar (Pinto et al., 2003). Diversos estudos demonstram a importância dos tratamentos químicos na melhoria do valor nutricional dos volumosos, dentre os quais, a amonização, com ureia ou amônia anidra, é a mais utilizada, tendo com principal vantagem a elevação dos conteúdos de nitrogênio aumentando a disponibilidade para os micro-organismos ruminais, e a redução da fibra em detergente neutro melhorando a digestibilidade. Quanto ao tratamento de volumosos de baixa qualidade por amonização se tem verificado elevação na degradação da celulose e hemicelulose, em razão da expansão de suas moléculas, com rompimento de pontes de hidrogênio e aumento da hidratação da fibra (Zanine et al., 2007). O teor de proteína bruta da palma forrageira é insuficiente para o adequado desempenho animal, quando fornecida como volumoso exclusivo (Ferreira, 2005), necessitando sua associação a suplementos nitrogenados. De forma análoga o bagaço cana-de-açúcar e a palma forrageira também podem ser associados à ureia ou a fontes de proteína verdadeira com o intuito de elevar seu teor proteico. A associação de uma única fonte suplementar à dieta, em oposição a um concentrado balanceado, facilitaria o manejo e possibilitaria a redução de custos (Pessoa et al., 2010). Portanto, objetivou-se avaliar a palma forrageira e bagaço de cana-de-açucar tratado com ureia e amônia na dieta de ruminantes.
PALMA FORRAGEIRA
A palma forrageira sem espinho não é nativa do Brasil, foi introduzida por volta de 1880, em Pernambuco, através de sementes importadas do Texas-Estados Unidos (Silva & Santos, 2007). Inicialmente, o valor forrageiro da palma no Nordeste não foi reconhecido, só despertando o interesse para este fim em Pernambuco e Alagoas em 1902 (Lira et al., 2006). A palma forrageira pertence à Divisão: Embryophyta, Sub-divisão: Angiospermea, Classe: Dicotyledoneae, Subclasse: Archiclamideae, Ordem: Opuntiales e Família:
A palma é uma forrageira totalmente adaptada às
condições edafoclimáticas da região, por pertencer
ao grupo das crassuláceas, que apresentam
metabolismo (CAM) com abertura dos
estômatos essencialmente à noite,
Cactaceae. Nessa família, existem 178 gêneros com cerca de 2.000 espécies conhecidas. Todavia nos gêneros Opuntia e Nopalea, estão presentes às espécies de palma mais utilizadas como forrageiras (Silva & Santos, 2007). A palma é uma forrageira totalmente adaptada às condições edafoclimáticas da região, por pertencer ao grupo das crassuláceas, que apresentam metabolismo (CAM) com abertura dos estômatos essencialmente à noite, quando a temperatura ambiente apresenta-se reduzida, diminuindo as perdas de água por evapotranspiração. A eficiência no uso da água, até 11 vezes superior à observada nas plantas demecanismo C3, faz com que a palma se adapte ao Semiárido de maneira inigualável a qualquer outra forrageira (Ferreira et al., 2008). Nos últimos anos, a palma forrageira voltou a ser cultivada em larga escala, principalmente no Nordeste que possui cerca de 600 mil hectares de área plantada, distribuídos nos estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Bahia, onde a palma deixou de ser uma forrageira estratégica para ter uso rotineiro durante o período da seca, na alimentação animal (Santos et al., 2006). Dentre as variedades mais cultivadas no Nordeste brasileiro, encontram-se a gigante (Opuntia fícus-indica Mill), a redonda (Opuntia sp.) e a miúda (Nopalea cochenillifera Salm-Dyck) que são as variedades sem espinhos. Segundo Marconato (2008), o Brasil possui a maior área plantada com
Opuntia fícus-indica Mill
palma do mundo, sendo a maioria cultivada com a espécie Opuntia fícus-indica, mais conhecida como “Palma Gigante”, porém, sua produtividade é baixa, próximo de 40 t ha-1 . No México, local de origem da espécie, os agricultores produzem até 400 t ha -1 . Essa diferença se deve provavelmente à falta de informações e/ou de acesso a recursos para investimentos; ainda são relativamente poucos os produtores que cultivam a palma forrageira nos moldes tecnológicos de forma a obter um melhor rendimento e qualidade. De composição química variável segundo a espécie, idade, época do ano e tratos culturais, a palma forrageira é um alimento rico em água, carboidratos, principalmente carboidratos não fibrosos e matéria mineral, no entanto, apresenta baixos teores de matéria seca, proteína bruta, fibra em detergente neutro e fibra em detergente ácido comparada a outros alimentos volumosos (Tabela 1). Estes aspectos deverão ser levados em consideração quando for utilizada na alimentação dos animais, pois estes nutrientes poderão interferir no trato digestível, através da taxa de passagem, digestibilidade, fermentação, produtos finais, absorção e consequentemente no desempenho e na saúde, mediante isto deve ser sempre fornecida associada a fontes de fibra e de proteínas (Lira et al., 2005).
A palma é uma forragem muito palatável, que em geral, propicia altas ingestões de matéria seca. Entretanto, devido a diferenças na composição química ou anatômicas, pode haver diferença entre espécies no efeito sobre a ingestão da ração (Batista et al., 2013). A estratégia alimentar de misturar a palma aos demais ingredientes da dieta melhora o consumo de fibra, aumentando o consumo efetivo dos nutrientes (Souza et al., 2010).
O consumo voluntário refere-se à quantidade máxima de matéria seca que o animal ingere espontaneamente. É considerada a variável mais importante a influir no desempenho animal, pois possibilita determinar a quantidade de nutrientes ingerida e obter estimativas da quantidade de produto animal elaborado (Torres et al., 2009). Aguiar (2013) avaliou a influência dos teores de 0, 200, 400 e 600 g/kg-1 da palma forrageira cv. Gigante (base da matéria seca) na dieta de novilhas mestiças 3/4 Holandês-Zebu utilizou-se silagem de sorgo como volumoso e, como concentrado, milho, farelo de soja, ureia, sal de recria, calcário, fosfato bicálcio, e relatou que os consumos de matéria seca (MS), proteína bruta (PB), carboidratos não fibrosos (CNF) e nutrientes digestivos totais (NDT) foram influenciados de forma linear decrescente pelos teores de palma forrageira na dieta, esse comportamento pode ser justificado pelo decréscimo do teor de MS nas dietas com o aumento do teor de palma forrageira. Quanto ao peso corporal final (PCF) e ao

1 de fev. de 2016

PECUÁRIA MAIS EFICIENTE POUPARIA ATMOSFERA DE 30 MILHÕES DE TONELADAS DE CO2 POR ANO

Carlos Dias, Embrapa Solos
Pastos melhores significam mais vegetação e animais engordando em menos tempo sobre eles o que se traduz em menos emissões de gás carbônico equivalente. Por isso, a recuperação das pastagens tem potencial para reduzir em um ano a idade de abate dos animais. Um bovino adulto é responsável pela emissão de aproximadamente 1,5 tonelada de equivalente CO2 por ano. No Brasil são abatidos em torno de 40 milhões de cabeças por ano. Se metade desse rebanho for criado em sistemas mais eficientes, pode-se estimar a redução da emissão de 30 milhões de toneladas de equivalente CO2 por ano, vale lembrar que o Brasil emite 460 milhões de toneladas por ano apenas com a redução da idade de abate, sem considerar, por exemplo, a fixação de carbono no solo pelo sistema.
Dados da Embrapa apontam que se 12,5 milhões a 18,4 milhões de áreas de pastagens forem recuperadas será possível aumentar a produção de carne bovina entre 2,4 milhões a 3,6 milhões de toneladas por ano, o que equivale a um aumento de aproximadamente 33%.
Atualmente, a produtividade média brasileira é em torno de 45 quilos de carne por hectare. Com sistemas recuperados e melhorados, essa produtividade salta facilmente para 120 kg por hectare, em sistemas de cria-recria e engorda (ciclo completo), gerando mais renda para o produtor rural.
A maior parte das terras utilizadas na agropecuária no País está ocupada com pastagens, cerca de 180 milhões de hectares, dos quais estima-se que mais da metade encontra-se em algum estágio de degradação. Apenas 10% das pastagens brasileiras (18 milhões de hectares) adotam sistemas pastoris menos impactantes, como pousio, rotações e Integração Lavoura Pecuária (ILP). Só no Cerrado são 32 milhões de hectares em que a qualidade do pasto está abaixo do esperado.
Redução da perda de solo
Presentes em todo Brasil, essas pastagens degradadas apresentam baixa capacidade de produção de carne e leite. Geralmente sofrem também com erosão laminar, em sulcos e até voçorocas, que podem levar a perdas de mais de 100 toneladas de solo/ha/ano, comprometendo a sustentabilidade do sistema de produção. Em muitas situações, apenas mudando algumas técnicas de manejo podemos reduzir essas perdas para menos de dez
t/ha/ano, podendo chegar a menos de uma t/ha/ano em áreas bem manejadas, aproximando-se do que ocorre normalmente em solos sob vegetação preservada.
Mas não é apenas o mau uso o responsável pelo estado de parte de nossas terras. "A maior parte dos solos brasileiros é ácida, e com baixa disponibilidade de nutrientes", conta Wadson da Rocha, pesquisador da Embrapa Gado de Leite (MG). "Caso esses poucos nutrientes retirados pelas culturas não sejam repostos no solo, as pastagens entram em processo de degradação. Dessa forma, a falta de um correto manejo do solo para a implantação e a manutenção da pastagem é que pode definir a maior velocidade de degradação", conclui Wadson.
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O que a Embrapa Solos (RJ) propõe é a reinserção dessas terras com pastagens degradadas ao sistema produtivo agropecuário sustentável, uma grande oportunidade para aumentar a produção agropecuária, sem necessidade de ampliação da fronteira agrícola. "Para isso precisamos identificar e eliminar os fatores responsáveis pela degradação, fazer uma avaliação do estado de degradação do sistema solo-planta", diz o cientista da Embrapa Solos Aluísio Granato de Andrade. "Nesse sentido, a análise integrada de indicadores de qualidade do solo com indicadores de qualidade da forragem e com a quantidade de biomassa produzida podem possibilitar maior eficiência na seleção, no desenvolvimento e na adoção de tecnologias adequadas aos diferentes níveis de degradação", completa.
A origem da degradação das terras
A transformação de terras produtivas em terras degradadas começou há muito tempo no Brasil e remonta aos ciclos do monocultivo da cana-de-açúcar (séculos XVI e XVII) e do café (XVIII e XIX).
Com o advento da revolução verde na década de 1970 e a consequente expansão da agricultura, com o preparo excessivo do solo, o monocultivo e a aplicação inadequada de agroquímicos, os problemas causados pela degradação se agravaram.
Grandes áreas foram transformadas em pasto por uma opção de ocupação do território e não como resultado da introdução da atividade agropecuária com o propósito de obtenção de retorno econômico. "Na região Amazônica, por exemplo, o desmatamento seguido da introdução de grandes áreas de pastos nos anos setenta foi resultado de uma politica de ocupação baseada em uma visão defensivo-desenvolvimentista do governo militar", revela o consultor independente e doutor em planejamento de uso das terras Antonio Ramalho Filho.
Atualmente, as principais causas da degradação das pastagens são o excesso de lotação e manejo inadequado; a falta de correção e adubação na formação, aliada à falta de reposição dos nutrientes pela adubação de manutenção e a utilização de espécie ou cultivar inadequada, não adaptada ao clima, solo e objetivo da produção.
Vale lembrar que as pastagens, quando são formadas e manejadas com técnicas adequadas, não acarretam perdas significativas por erosão (0,5 ton/ha/ano), já que cobrem o solo de maneira eficiente.
A recuperação de pastagens
A recuperação dessas áreas inclui o diagnóstico da degradação das terras, possível com a divisão das áreas degradadas em glebas homogêneas de acordo com algumas características (relevo, topografia, cobertura vegetal, solos, uso atual, produtividade das culturas e histórico de exploração, adoção de práticas conservacionistas e tipo e frequência dos processos erosivos). Ramalho chama atenção para outro aspecto "devemos também observar a diferença entre degradação e esgotamento do solo ou do pasto", relata.
O diagnóstico detalhado do estado de conservação e/ou degradação do solo em cada uma das zonas de manejo também é fator importante, visando caracterizar os processos erosivos e a presença de resíduos. Nesta etapa recomenda-se também avaliar a taxa de infiltração de água no solo e a ocorrência de camadas compactadas, coletar amostras de solo para avaliação da granulometria e da fertilidade e descrever a cobertura vegetal natural e/ou o uso atual e as práticas de manejo existentes.
O também pesquisador da Embrapa Gado de Leite Carlos Eugênio Martins lembra outro importante passo na recuperação de pastagens: o processo de restabelecimento da capacidade produtiva de uma espécie forrageira previamente estabelecida. "A renovação seria a substituição da espécie forrageira, anteriormente instalada, por meio de práticas agronômicas de manejo de solo e

1 de jan. de 2016

Economia Criativa é saída para desenvolvimento do Nordeste, diz economista



Por Paulo Dantas
Discípulo de Celso Furtado, economista Marcos Formiga analisa economia do nordeste, aponta equívocos no desenvolvimento, pede atenção ao capital humano e foco na economia criativa da região. Matéria da edição número 108



O professor Manuel Marcos Maciel Formiga é um pensador. Amigo e discípulo de Celso Furtado em suas teorias econômicas, Formiga tem uma longa história a frente do pensamento sobre educação e economia e um currículo extenso na área. Graduado e pós-graduado em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Política de Ciência e Tecnologia pela Universidade de Londres. Atua há décadas em áreas de Economia Regional e Educação Internacional, C&T, e Educação Aberta e à Distância. Dirigiu o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira
Manuel Marcos Maciel Formiga
(INEP),onde participou da concepção e implementação da “Escola do Futuro”, hoje referência internacional como laboratório de educação científica pelo uso de Tecnologias da Informação e da Comunicação. Além de atividades acadêmicas em Recife e Brasília, o estudioso também exerceu funções de direção nos Ministérios da Educação (CAPES e Secretaria Geral); Ciência e Tecnologia (CNPq e FINEP); e no Ministério da Integração Nacional, quando foi superintendente da Sudene e Secretário Nacional da SUDECO. Ainda foi Superintendente da Fundação Roberto entre 1994 e 1997, responsável pela equipe de elaboração do Telecurso 2000. De 1995 a 2011 foi vice-presidente da Associação Brasileira
Celso Furtado
de Educação a Distância (ABED) e, de março de 2003 a junho de 2011, assessor especial da Presidência da CNI, vinculado ao SENAI-DN, onde coordenou a iniciativa iNOVA Engenharia. Formiga é também um dos diretores do Centro Internacional Celso Furtado e se encontrou com a Revista NORDESTE para uma entrevista exclusiva sobre a região, perspectivas, vocações e desafios.
Revista NORDESTE: O ex-ministro Mangabeira Unger falou que o Nordeste deveria sair de uma ideia de desenvolvimento com grandes indústrias e grandes obras e pensar em um outro tipo de crescimento. O senhor concorda com essa visão?
Marcos Formiga: A visão de Mangabeira Unger é muito interessante porque ele tem repensado o Nordeste a partir das ideias de Celso Furtado. Ele é muito fiel ao pensamento do nosso Mestre maior. Agora, acho que essa é uma das alternativas, mas não é a única. Certamente, o modelo tradicional de desenvolvimento está esgotado. O Brasil adotou o modelo estruturalista de substituição de importação. O Nordeste replicou esse modelo, e, diga-se de passagem, com relativo sucesso. Estou me referindo ao período áureo da SUDENE, entre o final da década de cinquenta e a primeira metade da década seguinte,
Mangabeira Unger
quando o Nordeste teve um projeto de desenvolvimento. Depois se perdeu no tempo. Hoje, nós temos de conciliar algumas alternativas. Não sou adepto do modelo único. Ainda há espaço para grandes investimentos e há espaço para médios e pequenos investimentos. Sem duvida, as micro e as pequenas empresas, o empreendedorismo atomizado é fundamental em qualquer modelo de desenvolvimento.
NORDESTE: Qual seria o modelo?
Formiga: Prefiro um modelo blended, trabalhar com alternativas, sem exclusividade. E qual é o embasamento para esse pensamento? É que com o processo continuado e a desindustrialização do Brasil, certamente ou já chegou ou vai chegar, ao Nordeste. Nós temos que ter aí algumas alternativas e a que parece mais viável é a da Economia do Conhecimento, o imperativo do capital humano. Porque essa foi, e é, continua a ser, a nossa maior falha. Falha do Brasil e aqui no Nordeste mais do que duplicada. Descuidamos historicamente da formação, da educação e agora temos de refazer aquilo que não foi feito em bases mais difíceis do que anteriormente. A mudança estrutural aconteceu no Brasil e no Nordeste na medida em que deixamos de ser uma sociedade tipicamente rural para uma sociedade industrial. Esse modelo está esgotado ou em crise. Não temos de voltar a esse modelo antigo, mas sim buscar novas alternativas. 
NORDESTE: O que o senhor chama de capital humano?
Formiga: Chamaria de capital humano o ativo principal da Nação, conceito ligado diretamente a Sociedade do Conhecimento. Dentro da Sociedade do Conhecimento a ideia de economia criativa, onde se vão buscar indicadores muito mais focados em uma visão socioeconômica do que econômica-social, quando se dá ênfase no PIB, e na quantificação dos indicadores econômicos. Na minha observação, temos de reverter essa métrica.
Existem esforços internacionais nessa linha. Doutor Partha Dasgupta, professor emérito de Economia da Universidade de Cambridge, trabalhou para a Unesco um novo indicador. Saiu-se do ultrapassado conceito de renda per-capita criado a partir da II Grande Guerra, para o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) que leva em conta escolaridade, trabalho e esperança de vida. Do IDH avançamos para o novo conceito de riqueza inclusiva. Este leva em conta os ativos, ao invés de quantificar a renda, mensura-se a riqueza sob a forma de Capital Humana (nível educacional e cultural das pessoas), Capital Físico ou Construído (Maquinas, edificações, infraestrutura e etc.) e Capital Natural (recursos minerais, hídricos, fauna e flora). 

NORDESTE: Como assim?
Formiga: Os ativos são três, na concepção do Prof. Dasgupta, que a ONU ira adotar. Para se ter uma ideia do conceito de riqueza inclusiva, o PIB dos EUA quando eles fizeram o cálculo inicial em 1908, era de cerca de 10 trilhões de dólares. Com o conceito da riqueza inclusiva iria para 118 trilhões de dólares. O Japão, que é uma pequena ilha, aproximadamente do tamanho do estado de São Paulo, teria uma riqueza inclusiva muito maior que a dos EUA. E comparado com a China, atual segunda maior economia pelo velho indicador, utilizando o novo conceito, no entanto, o Japão chegaria a ultrapassar a China em 2,6 vezes. Isto significa uma revolução na qualificação e quantificação dos indicadores. Ficaríamos mais libertos da ditadura dos tradicionais indicadores econômicos, tais como taxa de inflação, taxa de desemprego e juros, porque tem vida mais inteligente em outros indicadores que estão vindo por aí e valorização de algo mais substantivo, como grau de escolaridade, longevidade de população, desenvolvimento tecnológico, prontidão para o futuro, etc.
NORDESTE: O senhor pode dar exemplos de economia do conhecimento já aplicadas no Nordeste?
Formiga: Sem dúvida. O Porto Digital em Pernambuco. Os serviços especializados
Porto Digital em Pernambuco
advindos do complexo petroquímico da Bahia. O esforço que o Ceará, o estado, e o município de Sobral estão fazendo na área de educação. Idem na capacitação profissional na região do porto de Itaqui em São Luís, MA. O projeto inicial em São Luís era qualificar 100 mil técnicos para atender as necessidades de demanda de capital e talento humano naquela região. Com a crise certamente esse volume de investimento teve alguma interrupção ou não está sendo totalmente implantado. Mas o efeito multiplicador já gerou uma correlação direta entre os investimentos e a necessidade de capital humano. O professor Mangabeira cita outro exemplo muito interessante da economia criativa da extração do mel da abelha no Piauí. Visitamos aquele projeto in loco. Aquelas caravanas constataram como funciona o Brasil profundo, a vida interior dessas regiões e o esforço das pessoas para sobreviver nas florestas e na caatinga do semiárido.
NORDESTE: O Nordeste é muito diverso...
Nordeste composto de vários nordestes.
Formiga: Um Nordeste composto de vários nordestes. Uns com forte sentimento de solidariedade regional e outros nordestes com pouco sentimento de regionalidade, o que é uma pena. Um Nordeste forte exige compromisso inalienável com todo território dessa região. Embora, dentre todas as regiões brasileiras, o Nordeste ainda salvaguarda o mais forte sentimento de regionalização.
NORDESTE: Quais são essas regiões dentro do Nordeste (com pouco sentimento de solidariedade regional)?
Formiga: O que mais caracteriza o Nordeste é o polígono que delimita o semiárido. Mas a Bahia pelo velho indicador tem o maior PIB do Nordeste, e também tem maior semiárido, mas apresenta baixo índice de nordestinidade, neste patamar encontra-se o Maranhão. Os dois extremos regionais se afastam um pouco do Nordeste core, o Nordeste mais profundo vai do Piauí até Sergipe. Um esforço de ação conjunta requer um realinhamento deste dois estados mais afastados.
NORDESTE: Quais seriam as soluções para o Nordeste?
Formiga: A primeira providência seria sair daquela velha fórmula da solução hídrica sempre tentada com bastante insucesso. Acumula-se água, mas não sabe ou não soube o que fazer com ela. Mas isso não significa que seja uma região pobre, muito pelo contrário. A proposito, lembro de um técnico israelense que serviu a Sudene que dizia o seguinte: “o nosso maior rio é o Jordão, que não passa de um ribeirão. Se nós tivéssemos o Rio São Francisco, seríamos uma potencia mundial”. Mesmo sem água, mesmo com um rio pequeno, como o Jordão, eles não são uma grande potência mundial do ponto de vista dos parâmetros tradicionais, mas pela Economia Criativa e do Conhecimento é uma das nações mais desenvolvidas do mundo, e isso se deve a duas coisas: educação de qualidade e altos investimentos em ciência e tecnologia. Israel é um dos países hoje com a mais alta taxa de investimento em ciência e tecnologia: 4,3% do PIB, enquanto o Brasil não consegue sair de 1,2%. Já estamos estagnados há algum tempo com esse percentual baixíssimo, incapaz de retirar o Brasil de uma situação critica em C&TI, fenômeno que se repete com mais gravidade na educação. 
NORDESTE: Falando em vocação, é possível elencar algumas vocações?
Formiga: Sim. O que é vocação regional? Juntar capacitação humana – mais uma vez a importância, o imperativo do capital humano, ponto critico ainda no Nordeste – e juntá-lo com a disponibilidade de capital natural, e serviços especializados. Obviamente, somando a tudo isso uma capacidade criadora, empreendedora e

Pensamento do mês