29 de ago. de 2021

Recuperação de áreas Degradadas com Pastagem (RAD-P) em propriedades agropecuárias


A Recuperação de Áreas Degradadas com Pastagens (RAD-P) busca recuperar tanto áreas que já eram utilizadas para pastagens, quanto áreas que foram degradadas por outras atividades, em relação às suas características físicas, químicas e biológicas, a fim de melhorar sua capacidade produtiva de alimentos e/ou de matérias-primas, isto é, torná-las capazes de garantir alimento para os rebanhos (PRS-I, 2018; BORGHI et al. 2020). As pastagens sofrem um processo evolutivo de perda de vigor, produtividade e capacidade de recuperação natural para sustentar os níveis de produção e de qualidade exigidas para a criação dos animais, e assim, começam também a não conseguir superar os efeitos nocivos de pragas, doenças e espécies invasoras (MACEDO et al., 2012).
Dessa forma, segundo DIAS-FILHO (2006), a pastagem degradada pode ser definida como

uma área com acentuada diminuição da produtividade, podendo ou não ter perdido a capacidade de manter-se produtiva do ponto de vista biológico, isto é, conseguir acumular carbono. De forma complementar, RODRIGUES (2020) explica que o uso do termo pastagem degradada não significa necessariamente que o solo está descoberto, mas sim que já não é tão produtivo, independentemente de ter ou não espécies adaptadas. A Figura 10 apresenta possíveis origens da perda de qualidade e consequente degradação da pastagem, que levam também à perda da fertilidade do solo.


De acordo com BORGHI et al. (2020), há três tipos de técnicas de recuperação para as pastagens degradadas: i) recuperação (direta e indireta), ii) renovação e iii) reforma. Todas visam tornar a pastagem novamente produtiva e com vigor suficiente para garantir o sustento do rebanho. A escolha da técnica necessária depende do grau de degradação da pastagem, do objetivo do produtor, do sistema de produção pecuário adotado, das possibilidades de mercado na região e da disponibilidade de recursos financeiros e insumos. Nesse sentido, realizar um bom diagnóstico da área é fundamental para melhorar as chances de uma escolha adequada de qual procedimento adotar. Entre os benefícios da recuperação de pastagens e manutenção de sua produtividade estão: a redução na emissão de GEE, a redução do desmatamento para a criação de novos pastos, os ganhos de produtividade e o aumento na renda do beneficiário (PRS-I, 2018). De acordo com CERRI et al. (2012), pastagens bem manejadas atuam como drenos de carbono, enquanto as pastagens degradadas, ou de baixa produtividade, podem ter um balanço geral de emissões de GEE negativo. Uma questão fundamental dentro da recuperação com

pastagens é a continuidade do manejo da área, respeitando o crescimento das plantas, controlando pragas e doenças e otimizando a alimentação dos animais. O chamado “Manejo de Pastagem Ecológica” objetiva a utilização sustentável da forragem disponível na área para garantir o máximo de produtividade, sem prejudicar as plantas forrageiras e proporcionando um ambiente de bem-estar aos animais. Para atingir esse objetivo, consideram-se alguns requisitos (CALIXTO, 2019; SALMAN, 2007): Os quatro últimos requisitos compõem o chamado Método de Pastoreio Racional ou “Método Voisin”, que se baseia em quatro leis, que buscam respeitar a capacidade de rebrote das plantas e ainda o melhor aproveitamento do pasto (CALIXTO, 2019 e SALMAN, 2007). Busca por uma diversidade de forrageiras (gramíneas e leguminosas) adequadas ao solo e ao clima; 
- Arborização adequada das pastagens (com preferência por espécies nativas); 
- Exclusão do uso de adubações químicas altamente solúveis, herbicidas, roçadas sistemáticas e fogo; 
- Garantia do tempo de repouso necessário entre um corte (pastejo) e outro, permitindo a regeneração do pasto (armazenar reservas nas raízes para rebrota e produzir massa verde);
Garantia que o tempo de ocupação de um piquete (parcela do pasto) seja curto o suficiente para não permitir que uma planta cortada pelos animais no início da ocupação, seja novamente cortada antes que os animais deixem o piquete; 
- Auxílio aos animais com exigências alimentares mais elevadas, de modo que consumam mais pasto e de melhor qualidade; e 
- Permanência dos animais, um dia em cada piquete, para que tenham o máximo rendimento e se alimentem de uma vegetação de melhor qualidade. 
O cumprimento destes requisitos garante, entre outras questões, menor compactação do terreno,

24 de abr. de 2021

CASTRAÇÃO AO NASCIMENTO: DO BEZERRO AO BOI DE 17@ EM 13 MESES

Postado originalmente em  https://www.ruralbook.com.br/

A tecnologia, se assim podemos chamar, de realizar a castração dos animais ao nascimento, tem ganhado inúmeros adeptos pelo Brasil por trazer inúmeros benefícios: animais precoces, bonificação no frigorífico e consequentemente o aumento do lucro do sistema. A castração dos animais ao nascimento é realizada já no ato de cura do umbigo em que o animal passa após o nascimento. Essa técnica, aliada a uma gestão de qualidade com protocolos de nutrição e manejos adequados tem permitido aos
Com Ademir Ribeiro, veterinário e consultor
na Espora de Prata. Cochos cobertos nos piquetes 
de b. ruziziensis. Bezerros são desmamados e
levados diretamente ao pasto recebendo 
dieta concentrada de 2% do PV até o abate. 
Foto: Autor


pecuaristas alcançarem, em média, 17@ em apenas 13 meses de idade desse bezerro. Para explicar melhor sobre o tema, veja a pergunta que o especialista e CEO do CrossBreeding, Alexandre Zadra, respondeu em seu portal:
“Zadra, existe alguma fazenda no Centro norte do Brasil que castra seus animais no nascimento? E qual é a diferença esperada de ganho de peso em relação aos animais inteiros se forem abatidos bem jovens como super precoces? Qual é a raça adotada por eles?” Virgílio Ferreira Luz – Sapezal (MT). 
Resposta do especialista e consultor: Existe em Porto Velho um grupo de técnicos que implantam nas fazendas que assistem a castração ao nascimento, pois a grande maioria das fazendas que orientam trabalham com o ciclo completo da pecuária e bois inteiros nessas fazendas representam problema na
Creep Feeding coberto com silo de 3 toneladas. 
Suplementação com consumo à vontade com 
ração de qualidade a partir dos 30 dias de vida. 
Foto: Autor


juventude. Uma das fazendas que realiza esse trabalho é a Espora de Prata, localizada no pequeno município de Rio Crespo, sendo de propriedade da família do Ademir, o qual implantou há dois anos o programa “touro zero”. O próprio nome denota o sistema reprodutivo do rebanho, ou seja, 100% das fêmeas são inseminadas através da IATF (Inseminação Artificial por Tempo Fixo), sendo a totalidade das novilhas ressincronizadas até duas vezes com sêmen de touros Angus americanos provados. Explicamos o dilema dos frigoríficos: boi inteiro x boi castrado O sistema de cruzamento adotado pela Espora de Prata foi o terminal com três raças e tem como particularidade a reposição de fêmeas do rebanho. Buscando eficiência máxima, Ademir garante a reposição de matrizes comprando novilhas Nelore na região, inseminando-as com 320 kg de peso vivo. Sua decisão foi pautada pela alta disponibilidade de fêmeas Nelore no mercado rondoniense.
Fazenda Santa Nice

No campo nutricional, a Espora de Prata vem ministrando ração aos bezerros à vontade desde o primeiro mês de vida no sistema de creep feeding, além de adotar a castração dos machinhos já no momento do nascimento, procedimento raramente adotado pela classe pecuária, já que existem trabalhos que demonstram que animais castrados consomem mais ração para ganhar o mesmo peso que os animais inteiros.
Suplementação de pequenos silos para ração de uso diário no creep feeding, ou seja, cada creep possui seu próprio silo com capacidade de até 3 toneladas, o qual é usado para suprir a necessidade nutricional de cada lote de bezerros por alguns dias.
Vimos esses animais castrados desmamados com 7 para 8 meses, pesando mais de 300 kg, os quais entram em piquetões de braquiarinha (b.ruziziensis) permanecendo nos mesmos com suplementação de ração na quantidade de 2% do peso vivo em cochos cobertos, muito bem construídos com telha galvanizada e cochos com borrachão de usina. Dessa forma, os machos são abatidos com até 13 meses, pesando na media 17@.
Matrizes Nelore paridas de Angus e matrizes F1
 paridas de Brangus – Fazenda de Dorival –
Ariquemes. Foto: Autor

A prática da castração ao nascimento pode ser um manejo adequado para fazendas que adotam o ciclo pecuário completo (cria, recria e engorda), minimizando a chance de machos inteiros F1 cobrirem suas irmãs. Outrossim, sabemos que a diferença de peso entre irmãos e irmãs F1 Angus até a desmama por vezes deixa a desejar. Tal realidade pode ser causada pelo libido dos machos antes da desmama, os quais permanecem atrás de alguma vaca que esteja no cio durante boa parte do dia, diminuindo muito a ingestão de leite e forragem.

17 de mar. de 2021

O Cajueiro - Por Guimarães Duque

Primeiramente conhecido na América do Sul, o cajueiro foi, depois, introduzido pelos portugueses, na África e na Índia. A família dos Anacardiaceas, abrangendo cerca de 60 gêneros e mais de 400 espécies, inclui o cajueiro, a mangueira, o umbuzeiro, o cajá e outras fruteiras valiosas. Classificado como Anacardium occidentale, o cajueiro tem o seu habitat nativo no litoral brasileiro, do Pará até Salvador.  Prefere o ar marinho, iodado, brisa úmida, insolação e temperatura entre 16 a 36°C. Não tem exigência de solo fértil, como atestam os cajueiros nativos nas areias pobres, no meio da caatinga litorânea. Gosta das chuvas leves na floração e frutificação, desde setembro até novembro. É uma árvore sempre verde, que pode atingir até 12 metros de altura, polígama, com flôres estaminadas (unisexuada) e outras


bisexuais na mesma panícula. O fruto compõem-se do pedúnculo desenvolvido, carnoso e sucoso, e da semente ou castanha. O cajueiro é, atualmente, objeto de exploração importante na Índia, em Madagascar, no México e no Peru. No Nordeste, o aproveitamento dessa árvore valiosa ainda se limita aos arvoredos nativos. As plantações ainda são pequenas. A extensa faixa litorânea, própria para o cajueiro, a rusticidade deste permitindo grandes safras, sem irrigação, a possibilidade de selecionar as melhores variedades, a proteção que essa árvore dá ao solo e os numerosos produtos dela extraídos recomendam essa Anacardeacea como uma fruteira de elevado valor econômico. O engenheiro-agrônomo Esmerino Parente estima o número de cajueiros, no Ceará, em 3.700.000. Os produtos que podem ser obtidos do cajueiro são os seguintes: do tronco da árvore, resina, casca taninosa, e madeira; do fruto, bebidas, doces, óleo da amêndoa e óleo da casca. As resinas do cajueiro já são preparadas e classificadas por uma fábrica de Alagoas, para exportação. As cascas são empregadas nos curtumes. O engenheiro agrônomo  Renato Braga informa que 100g de suco de caju amarelo contém 210 miligramas de vitamina C em comparação com 45 miligramas da mesma vitamina em 100g. do suco da laranja comum. Conhecemos duas fábricas, no Ceará, que industrializam a polpa do caju para doces, que enlatam a castanha assada e que extraem óleo isolante da casca da castanha. A casca da castanha contém 35% de óleo e a amêndoa 41%.

Composição da castanha do caju

Gorduras .............................................................................. 47,13%

Matéria azotada....................................................................  9,7%

Amido ..................................................................................  5,9%

Há muitas fábricas de cajuína, bebida preparada com suco de caju destaninado e pasteurizado, sem alcool. O mocororó é bebida caseira, tradicional do Nordeste. Além do doce em pasta e em calda, a polpa do caju presta-se muito bem para fazer o caju seco, cristalizado ou não. Esse aproveitamento industrial da polpa encerra as vantagens da fácil preparação no clima seco e ensolarado, na barateza da embalagem em caixas de papelão ou de madeira (não exigindo latas), na conservação por longo tempo e na diminuição do peso transportes distantes. Muitos remédios são extraídos do cajueiro. Entre ales, cumpre ressaltar os mencionados nos estudos do Prof. J. Juarez Furtado. Os historiadores como Guilherme Piso, Renato Braga, Gustavo Barroso e outros, nos contam que os indígenas do Ceará aproveitavam as safras de pequi, na Serra do Araripe e, depois, caminhando pelos leitos dos rios secos,


vinham desfrutar a temporada dos cajus, no litoral, balanceando suas rações com as proteínas e minerais dos mariscos pescados nas lagoas e nas praias. Uma grande fonte de divisas pode ser conseguida com os plantios racionais dos cajueiros e a exploração ordenada dos seus produtos. Esta racionalização terá de começar com a seleção dos melhores tipos de frutos; os mais doces, menos fibrosos, mais coloridos, menos rançosos originados de pés mais produtivos. A investigação dos melhores tipos permitiria marcar as árvores padrões de onde se tirariam as sementes e as borbulhas dos enxertos para os pomares de observação que mostrariam os indivíduos de valor econômico, as variações ou mutações, com vantagens comerciais, que seriam perpetuadas por meio da reprodução assexuada. O tipo ou variedade de cajueiro desejado seria plantado em pomares devidamente planejados, com terreno preparado, talhões divididos por estradas, covas grandes e adubadas, com as distâncias de 8 metros, com lavouras intercalares de mandioca ou feijão nos primeiros anos para cobrir as despesas da instalação dos pomares. As plantações seriam organizadas, tendo em vista o fornecimento das matérias-primas às fábricas existentes ou a outras que se estabelecerem. Pouca atenção tem sido dada à comercialização dos produtos agrícolas. Cultura - Sendo uma fruteira precoce, o cajueiro é, geralmente, reproduzido por sementes, apesar de que a enxertia e fácil. O terreno é preparado em talhões de 200m de largura, com faixas protetoras de “quebra-vento” com 20 a 30m deixadas com vegetação nativa, alta, por ocasião da roçada. Nos talhões, projetam-se estradas de acesso para atender aos serviços e ao transporte das safras. Cada talhão é destocado e gradeado: depois, por meio de bastões fortes, faz-se o alinhamento e marcam-se as covas distanciadas de 8m x8m, Abrem-se buracos grandes, não menores de 1m3, que são cheios com lixo curtido, trazido

das cidades mais próximas. Esse adubo é barato porém se deve tomar o cuidado para não conter a tiririca e outras ervas daninhas. Na sua falta, podem, tambem, servir o estrume de gado e o composto. Cada hectare comporta 154 mudas. As mudas são criadas com o plantio das melhores sementes em vasos ou “torrão paulista” e, quando têm um palmo de altura, são plantadas no pomar. A melhor lavoura, para combinar com o cajueiro, é a mandioca, durante três anos ou duas safras. Os tratos culturais, após o quarto ano, são os roços do mato rasteiro ou as gradagens de discos, 3 a 4 vezes no inverno. Colheita - A partir do terceiro ano, o cajueiro dá safras que vão aumentando em peso até alcançar o máximo entre 10 e 20 anos de idade. O tempo de colher é de setembro-outubro a dezembro e os apanhadores, empunhando varas, com sacolas de aro metálico nos bordos e garras para cima, vão, de manhã e de tarde, retirando, das árvores os frutos maduros, antes de caírem no chão. O transporte carece de ser feito em condições higiênicas e com rapidez para evitar a fermentação. Fruto mole, perecível, o caju tem de ser transformado em bebida ou doce no mesmo dia da colheita ou, então, preservado para futura industrialização. Os controles de produção indicam que um cajueiro, no litoral do Ceará, fornece, por ano, de 30 a 150 quilos de frutos inteiros, conforme a idade do cajual, o trato e as chuvas. O que se chama de fruto são pedúnculo entumescido e a semente. Mas a botânica ensina que o fruto verdadeiro é a castanha. O fruto maduro, parte carnosa e semente, varia de peso desde 30 gramas até mais de 100 gramas. O Dr. Rossini Carvalho já pesou caju com 500 gramas. É raro. Nas nossas experiências, com cajus de 50 gramas, obtivemos os seguintes resultados, de frutos maduros e frescos:

Castanhas ............................................................. 16% do peso total 

Bagaço ................................................................. 34% do peso total

Suco .....................................................................       50% do peso total

As castanhas, depois de assadas, perderam 40% a 50% do peso com a evaporação da água, a volatilização do óleo do tegumento externo e a retirada da casca seca.

Se um cajueiro der uma safra de 50 quilos, significa um rendimento de:

Castanhas maduras ....................................................

  8kg

Bagaço .......................................................................

17kg

Suco .........................................................................

25kg

Total ...........................................................................

50kg


Um hectare, com 154 cajueiros, com a produção média, acima, daria por ano:

Castanhas ..............................................................

1.232kg

Bagaço .................................................................

2.618kg

Suco ......................................................................

3.850kg

Total ......................................................................

7.700kg


Praias e doenças - Os inimigos mais comuns são os cupins, as

16 de jan. de 2021

ÁRVORES DA CAATINGA DE INTERESSE PASTORIL

Por João Ambrósio de Araújo Filho

A vegetação lenhosa da caatinga, em sua maioria formada por espécies caducifólias no período seco, adiciona ao solo cerca de quatro toneladas de matéria seca de folhas e galhos, contribuindo, assim, com um papel fundamental na reciclagem de nutrientes. Além disso, cerca de 70% das espécies lenhosas de alguns sítios ecológicos participam da dieta de bovinos, caprinos e ovinos. A manipulação dessas espécies, seja para a melhoria da qualidade e para o aumento da produção de forragem, seja para uso de sua fitomassa foliar como adubo orgânico, requer um conhecimento adequado das características da produção e da composição química de sua fitomassa. Como esses fatores se relacionam com o ciclo fenológico das plantas, servem também como base para determinação da melhor época de sua utilização. As espécies lenhosas da caatinga apresentam diferenças estacionais em seus ciclos fenológicos, possivelmente associadas a flutuações da composição química de sua folhagem. Vale salientar que a riqueza florística forrageira da caatinga é pouco conhecida, dificultando a seleção de espécies com potencial para utilização em sistemas agroflorestais ou como forrageiras. Essa deficiência de conhecimento contribui para a prevalência de um manejo da vegetação puramente extrativista, carecendo de práticas e tecnologias adequadas ao aporte de uma base de sustentabilidade à atividade pastoril e agroflorestal nos ecossistemas da caatinga. As características anatômicas, morfológicas e fisiológicas estão associadas aos mecanismos de adaptação das espécies lenhosas às condições de seca das regiões semiáridas. Porém, em se tratando de árvores e arbustos, dois mecanismos se destacam: a resistência e a tolerância. As espécies lenhosas com mecanismo de resistência à seca são perenifólias e apresentam folhas pequenas ou folíolos, céreos ou rugosos, superfície foliar ondulada, com os estômatos localizados na parte côncava, espinhos ou acúleos, caules com vasos lenhosos curtos e de pequeno diâmetro, com paredes espessas, sistema radicular profundo e extenso. Nas regiões semiáridas tropicais essas espécies botânicas são predominantemente do tipo C3 ou crassuláceas. Por outro lado, as árvores e os arbustos, com mecanismo de tolerância, são caducifólios e possuem geralmente folhas grandes, tenras e lisas, podendo ter espinhos, caules com vasos lenhosos longos de grande diâmetro, sistema radicular lateral extenso e, nos trópicos semiáridos, são espécies botânicas geralmente do tipo C4. A combinação variável dos fatores supracitados resulta em diversidade de situações que caracterizam os diferentes graus de adaptação das espécies arbóreas e arbustivas da caatinga às condições do Semiárido nordestino. O mecanismo de tolerância apresenta-se como o mais comum entre as espécies lenhosas da caatinga, possivelmente por permitir uma melhor adaptação às características da variabilidade das precipitações pluviais da região. Algumas das espécies botânicas, de maior interesse serão descritas a seguir.

Aroeira (Myracrodruon Urundeuva)

Da família das Anacardiáceas, a aroeira (Figura 15) é uma árvore típica dos estágios finais da sucessão secundária da caatinga, encontrada nos sertões nordestinos de baixa a elevada altitude, na maioria dos solos da região, com predominância nos luvissolos crômicos órticos, latossolos e argissolos. Árvore que pode alcançar até 25 m de altura, de crescimento moderado, sistema radicular com raiz pivotante pouco pronunciada, caule inerme, lenho pesado, com densidade específica de 900 kg/m3. Caducifólia precoce, copa arredondada moderadamente densa e folhas compostas. Seu ciclo fenológico se verifica ao longo de todo o ano. Durante a época das chuvas, a planta inicia com a rebrotação, permanecendo em vegetação plena até o fim do período, quando perde sua folhagem. Ao meio da época seca entra em floração e frutificação, totalmente desprovida de folhas, completando, então, seu ciclo fenológico. Planta útil como forrageira, produtora de madeira para construção e lenha, medicinal e utilizada na coleta apícola de pólen e néctar. Análises laboratoriais da folhagem da aroeira, colhida nas fases de vegetação plena e dormência (Tabela 2), indicaram que o teor médio de matéria seca é de 38,5%, na fase de vegetação plena, alcançando, na dormência ou restolho, cerca de 89,6%. O teor de proteína bruta decresceu de 16,7%, na fase de vegetação plena, para 8,7%, na dormência. A fibra em detergente neutro e a fibra em detergente ácido apresentaram valores sempre baixos, flutuando a primeira de 20,5 a 36,5% e a segunda de 11,1 a 21,7%, respectivamente, para as fases de vegetação plena e de dormência. O teor de lignina alcançou 4,5%, na vegetação plena, aumentando para 6,7%, na dormência, um dos menores entre as espécies arbóreas da caatinga. Por outro lado, o percentual de taninos totais foi sempre o mais elevado, variando de 35,8, na fase de vegetação plena, a 10,5, no restolho lenhoso. Por fim, a digestibilidade in vitro da matéria seca (DIVMS) pode ser considerada elevada para uma arbórea nativa, variando de 65,6% na fase de vegetação plena para 30,5% na dormência.

As folhas da aroeira são consumidas, verdes ou secas, por bovinos, caprinos e ovinos. É uma arbórea que não deve ser rebaixada, mas devido a sua utilidade como produtora de madeira e de produtos medicinais, é preferível preservá-la. Seu aproveitamento pela pecuária deverá ser pelo uso de suas folhas naturalmente fenadas. Sua contribuição para a circulação de nutrientes em um sistema agroflorestal é muito importante, considerando-se o elevado teor de nitrogênio em suas folhas e a rapidez com que se degradam, após sua queda ao solo.


Catingueira (Poincianera pyramidalis)

Da família das Cesalpináceas, a catingueira (Figura 16) é uma árvore típica dos estágios intermediários da sucessão secundária da caatinga, encontrada nos sertões nordestinos de baixa a elevada altitude, na maioria dos solos da região, com predominância nos luvissolos crômicos órticos e argissolos. Árvore que pode alcançar até 10 m de altura, de crescimento lento, sistema radicular com raiz pivotante pouco


pronunciada, caule inerme, lenho pesado, com densidade específica de 920 kg/m3. Copa arredondada moderadamente densa e folhas compostas. Caducifólia tardia, seu ciclo fenológico se verifica durante a época das chuvas, com o início da dormência em plena estação seca. Alcança a vegetação plena no começo da estação das chuvas, flora ao meio da estação e frutifica ao final do período úmido. Planta útil como forrageira e produtora de néctar e pólen e de lenha.

Análises laboratoriais da folhagem da catingueira, colhida em diferentes fases de seu ciclo fenológico (Tabela 3), apontaram um teor de matéria seca que se mantém sempre elevado, acima de 40%, alcançando, na fase de dormência (restolho), cerca de 87,1%. O teor de proteína bruta, por seu turno, decresceu de 16,9% na fase de vegetação plena para 14,4% na frutificação e para 11,2% na dormência. A fibra em detergente neutro e a fibra em detergente ácido apresentaram valores sempre baixos, flutuando a primeira de 31,9 a 49,8% e a segunda de 19,8 a 33,4%, respectivamente, para as fases de vegetação plena e de dormência. O teor de lignina alcançou 6,6% na vegetação plena, aumentando para 12,7% na frutificação e decaindo para 11,7% na dormência, um dos menores entre as espécies arbóreas da caatinga. Por outro lado, o percentual de taninos totais foi sempre muito elevado, variando de 20,6 na fase de vegetação plena a 9,5 na dormência. Por fim, a


digestibilidade in vitro da matéria seca pode ser considerada elevada para uma arbórea nativa, variando de 58,4%, na fase de vegetação plena, para 50,4%, na frutificação, atingindo 30,9% na dormência. As folhas da catingueira têm consumo insignificante quando verdes, devido, provavelmente, ao odor desagradável que possuem. Porém, quando secas, são consumidas por ovinos, caprinos e bovinos, participando em até 35% de suas dietas no período seco. A catingueira é uma arbórea que não deve ser rebaixada, podendo, no

17 de out. de 2020

A VIDA NAS FAZENDAS

Extraído do livro: 
A Moderna Agropecuária - O drama da sua evolução
2ª edição – 1993 Gilberto Moraes
(Prefácio de Gilberto Freyre)

Houve, em todas as épocas, uma atávica idealização super valorativa da vida dos campos a alimentar a nostalgia que dela sente uma boa parte de citadinos. Se os prazeres e o conforto crescente dos centros urbanos concorrem para o abandono e depreciação da vida campestre, por outro lado os inconvenientes e as amarguras da concorrência, o congestionamento das ruas, das praias, do comércio, do transporte, a massificação, a saturação de uma promiscuidade sufocante num clima de competição dolorosa, tudo isso faz pensar na largueza dos horizontes rurais como o doce refúgio do indivíduo da tirania do coletivizante ambiente das cidades. 
Não creio que seja muito elevado o número daqueles que se deixem seduzir totalmente pelas atrações urbanas a ponto de não se lembrarem com saudade ou inveja, em nenhum momento, de uma paisagem campestre. Sei que existe e conheço muita gente incapaz de dormir uma só noite numa
...verdadeira fobia à solidão, ao silêncio...

fazenda, possuída de uma verdadeira fobia à solidão, ao silêncio, e que só se sente em segurança e à vontade em meio ou próximo à multidão, ouvindo os ruídos familiares do organismo comunitário. 
Há também os que têm horror à poeira das estradas e os demasiados comodistas para os quais o campo lembra um esforço físico maior que o cos­tumeiro, uma caminhada mais longa, o exercício mais violento de montar a cavalo, um cotejo inglório com o vaqueiro ou com a camponesa. A mecanização e o automatismo da vida das cidades disfarçam e até estimulam as deficiências físicas, a preguiça mental e muscular, a volúpia das escadas rolantes e dos televisores. 
Posso imaginar que o homem da rua se sinta mais que desprotegido no campo. Inibe-se, paralisa-se. E que ele se acha condicionado pelo hábito da propaganda e do policiamento, dos quais já é um robô. Em casa, o citadino é instruído pelo rádio e TV, sobre as compras de que precisa (em nossa sociedade de consumo ele precisa cada vez mais de coisas) e na rua as regras do trânsito o levam com uma presença que se acentua progressivamente. 
Nada revela melhor a contraste que o sofrimento do homem do campo quando vai à cidade. Mesmo apreciando as maravilhas, ele se sente molestado; dorme mal, sufoca na prisão e acaba regressando antes do tempo, com verdadeira sensação de alívio.  
Acredito que no futuro se inverta o rumo do êxodo que se observa hoje do campo para a cidade. A descentralização rural acaba se impondo à centralização urbana. Imperativos de saúde pública forçarão o aperfeiçoamento das técnicas dos serviços coletivos, prescindindo-se da concentração de usuários, como ainda da construção de moradias que deverá sofrer uma revolução completa. A residência do futuro parecerá mais uma casa de campo que um apartamento. 
Pré-lances e transmissão https://www.mfleiloes.com.br/

Na era planetária, em que o mundo se transforma, segundo Mc Luhan, numa aldeia global, a diferença entre cidade e campo, que era de espaço-tempo, se reduz consideravelmente. A Europa, que não embarcou na aventura do arranha-céu, talvez se ajuste sem maiores dificuldades ao conceito de moradia do porvir, que implicará de certo numa desverticalização.
A meu ver as cidades se tornarão menos densas, se espichando até se encontrarem, constituindo uma superfície povoada contínua. Numa sociedade de consumo em massa, assistiremos ao dimensionamento mundial da indústria, dos serviços, com uma interligação orgânica dos seus sistemas e uma distribuição e circulação econômica que não permitirão espaços geográficos vazios. 
Até lá, e para ajudar a chegar, o homem do campo terá de treinar bastante para desempenhar tarefas muito importantes e que exigirão uma diversificação de qualidades superior à do citadino Até aqui foi possível desenvolver uma região e abandonar outras. Agora, só há um conceito de crescimento: o harmônico. Nunca a cidade dependeu tanto do campo quanto nos dias de hoje. Todo o país precisa despender um esforço enorme para integrar o campo no mesmo ritmo do progreso urbano.
A primeira dificuldade  é levar o homem da rua a conhecer a realidade dos sertões, fazendo-o perder as ilusões quanto à abundância de tudo e as facilidades da vida naquelas paragens. E se convencer de que, quando uma garrafa de leite está custando menos que uma de água mineral, quem está empobrecendo é o país e o pecuarista é quem está sofrendo a injustiça. 
Uma revista norte-americana enumerou as vantagens de se morar no campo. Estar fora do alcance das poeiras industriais, do excesso de ruído, das restrições dos eventuais racionamentos de gêneros, dos bombardeios em caso de guerra, dos rigores de uma ocupação militar. Além disso, não se precisa de propaganda para vender o que se produz tendo-se preço e mercado garantido. Esta última vantagem é muito relativa em nosso país, pois o tabelamento e as ameaças de importação aviltam os preços, espoliando os produtores. 
Mas, ainda assim, a vida nas fazendas oferece aspectos fascinantes. Vive-se um pouco daquilo de que, em geral, todos gostam. Faz-se pioneirismo e, mesmo quando não se experimenta algo inédito, se descobre coisa nova ou se ocupa terra virgem, a rotina sempre oferece um sabor de aventura.
De uma doença generalizada em nosso tempo é
certo que o campo é um refúgio: às neuroses.

A intimidade com
a natureza favorece muito a emoção criadora do homem, renovando-o em cada trabalho campestre, como se todos os dias fossem diferentes. 
A construção de uma casa, de um simples galpão, de uma ponte, a fundação de uma lavoura dão ao camponês uma alegria mais intensa e mais consistente que ao citadino qualquer obra mesmo mais importante. O homem massa das concentrações urbanas jamais conhecerá a alegria e a liberdade do centauro dos pampas nem do rei das montanhas. Um arranha-céu poderá ser um palácio em saudáveis alturas, mas não perderá nunca o caráter de lar coletivo e, de certo modo, de uma prisão. 
Em vez da multidão, um belo rebanho de ovelhas brancas ou um rodeio de pampas ou uma tropilha de tordilhos. Caminhar alcançando o horizonte sem fim em vez das congestionadas calçadas com filas, faixas de segurança e a ameaça constante do tráfego. Sõ no mar e no campo se tem necessidade de binóculos. 
Na planície ou na serra, o homem está mais perto de si mesmo, mais consciente da sua dignidade. Na rua ele é fragmento da alma coletiva, molécula da onda humana que se agita. Conheci vários doentes à espera da morte que exigiram quartos de hospital dos quais se ouvisse bastante barulho de gente. Homens da cidade com terror à solidão e que se avizinharam da pior de todas porque desconhecida. 
Uma grande fazenda bem organizada ostenta um pouco do fascínio de um quartel posto avançado da civilização, em meio do deserto e de uma fábrica. A televisão num lugar assim é uma festa. O homem do campo está sendo o maior beneficiário da tecnologia que, entretanto, resultou da aglomeração urbana.
Mas, essa paz bucólica, tal clima de estímulo para uma personalidade criadora, para unia imaginação fecunda, precisa ser aproveitada para um trabalho mais nobre ainda, de alto rendimento cientifico e técnico. O apogeu da antiga da antiga agroindústria açucareira nordestina, a dos engenhos e banguês, criou um clima de cultura estimulante, do qual resultou uma elite que dominou uma quadra da nossa história
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política. Ainda hoje em alguns engenhos remanescentes, se encontram bibliotecas riquíssimas, denotando o bom gosto e o elevado grau de conhecimento da época. Atualmente, com a evolução da pesquisa e da ciência agrícola, os fazendeiros deveriam enriquecer suas bibliotecas, criando um ambiente e uma tradição de cultura para os filhos e empregados de mais categoria. A tecnificação dos campos assim o exige.
Há em São Paulo, Minas Gerais, no Rio Grande do Sul e outros Estados fazendas com magníficas bibliotecas e que são realmente usadas pelos donos.
A influência que exercem é

1 de set. de 2020

Unidades Animal Tropicais (UAT)

conceito de Unidade Animal Tropical (UAT) constitui um método conveniente para quantificar uma grande variedade de tipos e tamanhos de animais domésticos de uma forma padronizada
O que são as UATs ?
Para um certo número de utilizações há a necessidade de usar uma unidade comum para descrever os efetivo de diferentes espécies com um único número que expresse a quantidade total de gado presente - independentemente da composição em espécies.
Para fazer isto, desenvolveu-se o conceito de "Quociente de Troca", com o qual diferentes espécies de diferentes tamanhos médios podem ser comparadas e descritas em relação a uma unidade comum. Esta unidade é 1 Unidade Animal Tropical (UAT).
Têm sido usados vários métodos para obter os quocientes de troca entre espécies, mas nenhum satisfaz completamente.
Diferentes
fórmulas para calcular UATs têm sido usadas em diferentes partes do mundo, dependendo das variedades de gado mais comuns (p.ex. 1 UAT = 1,0 camelos; Bovinos 0,7; Ovinos/Caprinos 0,1). Contudo uma fórmula para calcular UATs desta maneira é incapaz de servir para diferentes variedades de gado - que podem variar consideravelmente em tamanho - e é, portanto necessária uma abordagem diferente.
Se o alimento consumido é razoavelmente semelhante para as duas espécies que estamos a comparar, o quociente de pesos metabólicos proporciona o melhor meio de comparação. Esta relação expressa o fato de que as espécies menores produzem mais calor e consomem mais alimento por unidade de tamanho corporal do que os animais maiores (Heady, 1975).
A taxa metabólica basal (consumo de energia por unidade de peso corporal por unidade de tempo; i.e., kcal calor/peso/dia) varia como uma função de uma potência de expoente fraccionário do peso corporal, que se determina habitualmente como o peso corporal elevado a 0,75. A perda de proteína pelo corpo varia também de acordo com uma potência fraccional semelhante do peso corporal e presume-se que está relacionado pela mesma exponencial do peso corporal.
Sistema digestivo
Em condições de pastoreio dependentes dos recursos, o consumo voluntário médio de alimento entre as espécies é notoriamente semelhante, cerca de 1,25 vezes as necessidades de manutenção (1 para manutenção, 0,25 para produção = crescimento, reprodução, leite, etc.). O peso metabólico é portanto considerado como a melhor unidade para agregação de animais de diferentes espécies, quer seja para calcular o alimento total consumido, o estrume produzido, ou a produção de produtos finais.
UATs e Quocientes de Troca
O padrão utilizado para uma Unidade Animal Tropical é um bovino com 250 kg de peso corporal.
As caixas 1 a 3 apresentam os quocientes de troca para animais com diferentes pesos corporais em Unidades Animal Tropicais com base no peso metabólico. Mostram que 5 ovinos ou caprinos de 30 kg consumirão tanto como 1 vaca de 250 kg. Da mesma maneira, dois búfalos com cerca de 425 kg consumirão tanto como 3 bovino de 250 kg. No entanto, falando de forma estrita, estes podem ser comparados quando as diferentes espécies consomem o mesmo alimento, o que não se verifica com frequência.
Quocientes de Troca para espécies pecuárias em Unidades Animal Tropicais com base no Peso Metabólico Corporal
Utilização
das Unidades Animal Tropicais
Alguns pontos devem ser tidos em atenção quando usamos as UATs:
No que respeita à pressão de pastoreio existem diferenças entre as espécies quanto ao seu comportamento pastar/tosar e na forma de preensão dos alimentos que irão alterar os quocientes de troca. O número óptimo de animais de cada espécie numa pastagem depende da quantidade de erva e de material para tosa disponíveis, não do número total de UATs e da biomassa total
Por exemplo, existe pouca competição entre os que pastam e os que tosam e existe portanto pouca base para trocas. Em consequência, 0,4 por ha referentes a bovinos apenas pode constituir sobrepastoreio enquanto que 0,5 UAT por ha de bovinos, ovinos e caprinos pode ser sustentável.
As espécies diferem em comportamento de pastoreio e forma de preensão do pasto - produzindo diferentes oportunidades de aproveitamento da vegetação (ver também espécies). Por exemplo, quando a densidade de alimento é baixa (início da estação das chuvas, pouca vegetação nos pousios, início da renovação das gramíneas perenes, etc.) os ovinos podem encontrar alimento suficiente para crescimento. Para bovinos a densidade equivalente será ainda demasiado baixa mesmo para a manutenção. Os camelos podem tosar em níveis mais elevados do que as cabras, enquanto que as cabras podem tosar entre as rochas e nos declives acentuados, sendo os camelos incapazes de alcançar
alimento nestes locais.
O impacto do pastoreio e tosa na composição da vegetação é diferente. O pastoreio repetido dá origem a mais tosa e a tosa repetida dá origem a mais pastagem (Staples e col., 1942). O pastoreio precoce pelos ovinos pode reduzir a produção de erva - principalmente quando a época de crescimento é curta. Isto pode reduzir a disponibilidade de alimento para os bovinos, mais do

1 de ago. de 2020

Fazenda Carnaúba - PB

SINDI - Gado Vermelho para o Semiárido por Paulo Roberto Miranda Leite e Alberto Alves Santiago

Desde 1943, Manoel Dantas Vilar Filho vem trabalhando e selecionando raças zebuínas para produção de leite, no semiárido dos Cariris Velhos da Paraíba, em sua Fazenda Carnaúba, no município de Taperoá. Inicialmente, o criador havia experimentado o Indubrasil, mas verificou que "*as novilhas tinham parição tardia, davam menos leite e a mortalidade era mais alta. Com o Nelore, acabou o leite e a mansidão e na geração seguinte acelerou o processo de encabritamento do gado, que pouco resistia à seca. Como Gir, obteve o menor porte e o mais lento ganho de peso entre as raças estudadas". Convenceu-se que somente uma pecuária de dupla função (carne e leite), com rusticidade superlativa, pode constituir a solução do problema rural nordestino. Voltou-se, então para o gado Guzerá de Cantagalo, de que se tornou um dos continuadores do trabalho do pioneiro Cel. João de Abreu Júnior, formando um excelente rebanho, de alta produtividade. A região em que vive apresenta os inconvenientes e dificuldades do semiárido, onde chove em média 149 mm/ano. Por isso, o selecionador teve de organizar sua fazenda racionalmente, dotando-a de todas as instalações necessárias e mais adequadas ao sistema de trabalho. Construiu um grande armazém para estoque de feno e introduziu no campo, gramíneas australianas, principalmente, o capim Buffel biloela (Cenchrus ciliares) e o Urochloa (Uruchloa mosambiensis (Hack) Dandy cv. Nixon. Graças à sua providencia, o gado venceu os cinco anos de intensa seca, de 1979 a 1983, recorrendo ao feno, palhas, sabugo, restos de
Adega D

cultura e ureia. Tomando conhecimento do gado Sindi introduzido no Brasil, Manoel Dantas Vilar procurou, em 1979, conhecer a raça vermelha, dada a sua aptidão leiteira. Passada a seca, em dezembro de 1983, adquiriu nove fêmeas de um criador de Pernambuco e para servi-las, dois reprodutores da EMEPA-PB, do lote trazido do Instituto de Zootecnia de São Paulo, todos de origem de Camargo. Em 1985, com a consultoria técnica de Geraldo Oliveira, médico veterinário, conhecido como Geraldo Caboclo, escolheram e adquiriram diretamente de José Cezário de Castilho, 52 fêmeas e, em maio de 1985, mais 51, perfazendo um total de 103 matrizes, escolhidas na cabeceira do gado, além de dois touros. Para servi-las conseguiu da EMEPA-PB mais dois machos oriundos do gado puro de origem do
Manoel Dantas Vilar Filho (março 2010)

Pará. Agora Manoel Dantas Vilar chegou à situação de só poder usar reprodutores de seu próprio rebanho, com base no controle leiteiro e na eficiência reprodutiva. Disse-nos Dantas Vilar: "o gado importado em 1952 é da maior importância, porquanto foi possível através dele obter maior homogeneização, maior rusticidade e maior produção leiteira no gado Sindi antigo". Referia-se aqui ao rebanho de Novo Horizonte, descendente dos importados em 1930. O plantel é objeto de observações cuidadosas e permanentes, quanto à aptidão leiteira, fertilidade, habilidade maternal, peso ao nascer, desenvolvimento ponderal e características raciais. Quanto a este ponto notou-se a perfeita uniformidade do numeroso rebanho, que examinamos em companhia de José Cezário de Castilho. Verificou-se que a idade ao primeiro parto tem variado de 28 a 32 meses, em função das secas. Em 1990, choveu 124 mm; em 1992 choveu 202 e 120 mm,
respectivamente. Os anos de 1990 e 1995 foram os mais secos, desde 1915, quando choveu apenas 15 dias, conforme registro antigo da Fazenda. O intervalo entre partos tem variado de 13,2 a 15,4 meses nesses anos todos. Toda a vacada é submetida ao controle leiteiro, inicialmente pela ABCZ e depois pelo Departamento de Zootecnia da Universidade Federal da Paraíba. As fêmeas que não alcançaram os limites estabelecidos são apartadas para a venda, dando origem a novas criações. O controle leiteiro foi iniciado em maio de 1987 e prosseguiu com regularidade até o presente, abrangendo 310 lactações, conforme verificado pelas cópias de todas as folhas do livro de registro. Foi observado que 43 lactações superaram 3.000 kg de leite; 33 ultrapassaram 3.255 kg e 13 vacas produziram acima de 3.500 kg. Houve 17 produções acima de 16 kg dia de leite; o leite de 174 vacas apresentou mais de 5% de matéria graxa, nos 310 controles, confirmando a qualidade de leite gordo das raças zebuínas, sempre superior aos das raças taurinas. As maiores produções de leite foram da reprodutora Galeria, com 4.339 kg em 330 dias, com média diária de 13,14 kg; enquanto Fantasia produziu 3.951 kg, em 294 dias, com média diária de 13,43 kg, revelando a elevação constante da produtividade do rebanho, em uma década de trabalho seletivo.
Manoel Dantas Vilar Filho (março de 2010)
O rebanho atual da Fazenda Carnaúba é constituído de 626 cabeças, entre adultos e novos, todos inscritos no Registro Genealógico. Ë o maior e melhor rebanho leiteiro Sindi do país, apesar da venda de 229 fêmeas parideiras a vários criadores, originando novos plantéis. Surpreendente prolificidade.

 


Pensamento do mês