10 de fev. de 2020

INFILTRAÇÃO DA ÁGUA NOS SOLOS CULTIVADOS COM PALMA FORRAGEIRA E PASTAGEM NO IFCE CAMPUS CRATO

Aparecida Rodrigues Nery¹, Luis Nery Rodrigues², Antônia Geliane de Sousa3 , Francisca Fabiana Costa dos Santos3 , Douglas Emanuel Rodrigues Nere3 ¹ Prof. Dra. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará – campus Crato ² Prof. Dr. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará – campus Crateús 3 Discente. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará – campus Crato cydanery@gmail.com, luis.nery@ifce.edu.br, agsifce@gmail.com, fabiana.tec.agrimensura@gmail.com, emanuelnere@gmail.com
1. INTRODUÇÃO 
A infiltração é o nome dado ao processo pelo qual a água atravessa a superfície do solo. É um processo de grande importância prática, pois afeta diretamente o escoamento superficial, que é o componente do ciclo hidrológico responsável pelos processos de erosão e inundações. O conhecimento da taxa de infiltração da água no solo é de fundamental importância para definir técnicas de conservação do solo, planejar e delinear sistemas de irrigação e drenagem, bem como auxiliar na composição de uma imagem mais real da retenção da água e aeração no solo. A agricultura irrigada se desenvolve nas mais diferentes condições de meio físico, atendendo uma grande variedade de culturas e de interesses sociais e econômicos, de forma que é possível existir um sistema de irrigação ideal, capaz de atender da melhor maneira a todas as condições e objetivos envolvidos. Em consequência, deve-se selecionar o sistema de irrigação mais adequado a cada condição em particular, considerando-se os interesses envolvidos. O processo de seleção deve ser baseado em uma criteriosa análise das condições presentes, em função das exigências de cada sistema de irrigação (FRIZZONE, 2005). A taxa de infiltração da água no solo é alta no início do processo de infiltração, particularmente quando o solo está inicialmente muito seco, mas tende a decrescer com o tempo, aproximando-se assintoticamente de um valor constante, denominado taxa de infiltração estável, muito conhecida por velocidade de infiltração básica da água no solo – VIB. Inicialmente, seu valor é elevado, diminuindo com o tempo, até se tornar constante no momento em que o solo fica saturado. Assim sendo, sob chuva ou irrigação contínuas, a taxa de infiltração se aproxima, gradualmente, de um valor mínimo e constante, conhecido por VIB. Dados de infiltração são imprescindíveis nos modelos utilizados para a descrição
da infiltração de água no solo e dependem do selamento superficial provocado pelo impacto das gotas de chuva na superfície do solo (ALVES SOBRINHO et. al., 2003). A determinação da infiltração de água deve ser feita por métodos simples e capazes de representar, adequadamente, as condições em que se encontra o solo, e baseiase em condições àquelas observadas no processo ao qual o solo é submetido (PRUSKI et al., 1997). Segundo Bernardo, Soares & Mantovani (2008), a velocidade de infiltração depende diretamente da textura, estrutura, umidade, época de irrigação, temperatura e porosidade do solo, da existência de camada menos permeável ao longo do perfil e cobertura vegetal. Em solos intensamente cultivados, as camadas compactadas determinam a diminuição do volume de poros e o aumento na retenção de água. Em decorrência disto, diminuição da taxa de infiltração, aumento do escoamento superficial e de erosão. (BERTOL et al., 2001). O conhecimento do processo de infiltração da água no solo é de grande importância na hidrologia, nos projetos de irrigação, no manejo e conservação dos solos, bem como no cultivo adequado de plantas. Os prejuízos causados por alterações na infiltração de água no solo e subsolo, pelo gradativo processo da impermeabilização, seja por fatores naturais, quer seja por atividade antrópica, são incomensuráveis. É percebido déficit hídrico no solo em alguns meses do ano na região cariri cearense, logo para potencializar a produção dos sistemas agrícolas se faz necessário o uso da irrigação. Para se projetar sistema de irrigação é de fundamental importância conhecer os fatores que intervém na capacidade de infiltração dentre os quais destacam-se a velocidade de infiltração da água no solo, umidade inicial do solo, carga hidráulica, compactação do solo e tipo de solo. O objetivo deste trabalho foi verificar a influência de diferentes sistemas de manejo do solo em área cultivada com palma forrageira cv. miúda (Nopalea cochenillifera -Salm Dyck) e pastagem (Brachiaria decumbens cv. Basilisk) sob a infiltração de água no solo. 
2. REVISÃO TEÓRICA 
2.1. Infiltração de água no solo 
A infiltração de água no solo é o processo pelo qual a água atravessa a superfície do solo. É um processo dinâmico de penetração vertical da água através da superfície do solo (BRANDÃO et al., 2006). Para Brandão et al., (2006), o conhecimento da taxa de infiltração da água é importante para definir técnicas de conservação, planejar sistemas de irrigação e drenagem e auxiliar na composição de imagens mais reais da retenção hídrica e aeração no solo. A velocidade de infiltração de água em um solo (VI) é um fator importante na irrigação, já que ela determina o tempo em que se deve manter a água na superfície do solo ou a duração da aspersão (BERNARDO, SOARES & MANTOVANI, 2008). A velocidade de infiltração auxilia na determinação da capacidade de suporte para definir a intensidade de aplicação do tipo de emissor. Deve ser levada em conta na escolha do emissor, principalmente nas irrigações por aspersão (MANTOVANI, BERNARDO & PALARETTI, 2009). Segundo Reichardt (1990), o conhecimento desta variável é imprescindível para a elaboração de um projeto de irrigação com objetivo de obter maior rendimento das culturas. Segundo Fagundes et al., (2012) vários métodos de campo têm sido utilizados para determinar a VI de um solo, dentre eles pode-se destacar o método do infiltrômetro de anel, por ser simples e de fácil execução. É um método de baixo custo e prático, porém deve-se ter o cuidado de sincronizar a leitura de lâmina e o intervalo de tempo (fonte de erro). O processo de infiltração da água no solo pode ser descrito por diversas equações ou modelos, desenvolvidos a partir de informações físicas e empírica (ALVES SOBRINHO et al., 2003) 
2.2. Fatores que afetam a infiltração 
Segundo Carvalho & Silva (2006) a infiltração é um processo que depende, em maior ou menor grau, de diversos fatores, dentre os quais destacam-se: Condição da superfície: a natureza da superfície considerada é fator determinante no processo de infiltração. Áreas urbanizadas apresentam menores velocidades de infiltração que áreas agrícolas, principalmente quando estas têm cobertura vegetal. Tipo de solo: a textura e a estrutura são propriedades que influenciam expressivamente a infiltração. Condição do solo: em geral, o preparo do solo tende a aumentar a capacidade de infiltração. No entanto, se as condições de preparo e de manejo do solo forem inadequadas, a sua capacidade de infiltração poderá tornar-se inferior à de um solo sem preparo, principalmente se a cobertura vegetal presente sobre o solo for removida. Umidade inicial do solo: para um mesmo solo, a capacidade de infiltração será tanto maior quanto mais seco estiver o solo inicialmente. Carga hidráulica: quanto maior for a carga hidráulica, isto é a espessura da lâmina de água sobre a superfície do solo, maior deverá ser a taxa de infiltração. Temperatura: a velocidade de infiltração aumenta com a temperatura, devido à diminuição da viscosidade da água. Presença de fendas, rachaduras e canais biológicos originados por raízes decompostas ou pela fauna do solo: estas formações atuam como caminhos preferenciais por onde a água se movimenta com pouca resistência e, portanto, aumentam a capacidade de infiltração. Compactação do solo por máquinas e/ou por animais: o tráfego intensivo de máquinas sobre a superfície do solo, produz uma camada compactada que reduz a capacidade de infiltração do solo. Solos em áreas de pastagem também sofrem intensa compactação pelos cascos dos animais. Compactação do solo pela ação da chuva: as gotas da chuva, ou irrigação, ao atingirem a superfície do solo podem promover uma compactação desta, reduzindo a capacidade de infiltração. A intensidade dessa ação varia com a quantidade de cobertura vegetal, com a energia cinética da precipitação e com a estabilidade dos agregados do solo. Cobertura vegetal: o sistema radicular das plantas cria caminhos preferenciais para o movimento da água no solo o que, consequentemente, aumenta a taxa de infiltração. A presença de cobertura vegetal reduz ainda o impacto das gotas de chuva e promove o estabelecimento de uma camada de matéria orgânica em decomposição que favorece a atividade microbiana, de insetos e de animais o que contribui para formar caminhos preferenciais para o movimento da água no solo. A cobertura vegetal também age no sentido de reduzir a velocidade do escoamento superficial e, portanto, contribui para aumentar o volume de água infiltrada. Os resultados obtidos são ainda grandemente dependentes do método utilizado para sua determinação, apresentando todos eles problemas se utilizados para múltiplos fins (PRUSKI et al., 1997). Sendo assim, o conhecimento dessas condições é de fundamental importância para a interpretação dos resultados. 
3. MATERIAIS E MÉTODOS 
A pesquisa foi conduzida no IFCE Campus Crato, no período de janeiro a março de 2017, utilizando o método do Infiltrômetro de anel. Neste trabalho foram consideradas duas áreas de estudo, cada uma de 150m x 50 m (7500 m2 ). Os solos estudados possuem texturas franco- arenosas na área vegetada com palma forrageira cv. miúda (Nopalea cochenillifera -Salm Dyck) e francoareno-argilosa na área
cultivada com pastagem (Brachiaria decumbens cv. Basilisk), cultivos contínuos, irrigados e adubados. Na área com pastagem, ocorre pastoreio de animais bovinos. Foram coletadas três amostras (3 determinações da VIB), de cada três pontos estabelecidos dentro de cada área acima avaliada (3 repetições). Utilizou-se o infiltrômetro de anel para determinação da infiltração e velocidade de infiltração. O Infiltrômetro de anel é um equipamento composto por dois anéis (50 e 25 cm de diâmetro e 30 cm de altura), que foram instalados de forma concêntrica e enterrados 15 cm (Figuras 1 e 2). Após limpeza superficial do solo, cravaram-se no solo os cilindros externo e interno, ajustou-se um filme plástico para evitar a infiltração da água no

23 de jan. de 2020

Mensagem do Núcleo Kankrej à ABCZ

Taperoá/PB, 23 de janeiro de 2020. 
Ao Sr. Rivaldo Machado Borges Júnior,   Presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), Uberaba/MG. 
Prezado Presidente, 
Saudações guzeratistas e feliz 2020! 
A Sociedade Nordestina do Guzerá Arcaico - Núcleo Kankrej – entidade civil em vias de regularização, constituído por criadores, técnicos e pesquisadores do gado guzerá de dupla aptidão - tomou conhecimento da presença recente no Brasil de uma missão técnica oficial da Índia, vinculada ao National Dairy Development Board (NDDB), com a finalidade de estudar a aquisição de material genético de zebuínos brasileiros melhorados para leite das raças gir e guzerá. Ademais, no momento em que finalizamos o texto da presente mensagem, recebemos notícia da presença do Sr. na Índia, acompanhando a comitiva da Ministra de Estado da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza
No alto, à esquerda Vinagre JM e à direita Alecrim JM,touros 
da linhagem baiana. Embaixo, no canto esquerdo, touro indiano 
da atualidade na região semiárida da Índia. No canto direito, 
vestígio arqueológico de Mohenjo-Daro datado de 
aproximadamente 5.000, retratando o guzerá/Kankrej
Cristina, em conversações oficiais com autoridades indianas. 
Para nós do Núcleo Kankrej (NK), essa possibilidade de intercâmbio com a pátria da raça que criamos reveste-se de alta relevância, pelos aspectos estratégicos envolvidos. Louvamos o ineditismo da situação, com todo seu rico simbolismo, inclusive, e parabenizamos os que vêm trabalhando nessa iniciativa. Sobretudo, para nós guzeratistas do Nordeste brasileiro e todo o Polígono das Secas, a perspectiva de cooperação com a Índia em torno da preservação e desenvolvimento da raça guzerá carrega grande entusiasmo. Esse vislumbre nos traz à memória o esforço árduo e pioneiro do técnico e criador nordestino José Maria Couto Sampaio, ainda nos anos 60, em ampliar e aprofundar o intercâmbio com o Sul da Ásia no campo da pecuária tropical. 
Infelizmente a região Nordeste não pode participar do modo destacado e efetivo, que se fazia necessário, da recente iniciativa de importação de material genético guzerá/kankrej da Índia, que, igualmente, deixou de contemplar detidamente a genética voltada à aptidão leiteira, componente essencial da reconhecida e propalada dupla aptidão da raça. Devemos lembrar as observações, tanto de José Maria Couto Sampaio como de Antônio Ernesto de Salvo (em seus conhecidos Relatórios de seleção), que citavam a agregação de leite constatada no efeito dos IMPs guzerá dos anos 60, como um dos principais argumentos na defesa de novas introduções de genética guzerá indiana no Brasil. 
Há mais de vinte anos somos sabedores também do vivo e crescente interesse indiano sobre o desenvolvimento leiteiro promovido no Brasil por criadores, ABCZ, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), dentre outras instituições. A adoção de novas abordagens na relação com a Índia, com ênfase em intercâmbio, de mão dupla, e não mais a tradicional relação de "importar", tem sido defendido por alguns de nós desde os anos 90.   
Sr. Presidente, causa-nos temor, face às notícias formais e informais que nos chegam, de que a recepção e tratamento à mencionada missão técnica oficial da Índia do NDDB - órgão federal encarregado das políticas de desenvolvimento da economia leiteira indiana - possam estar sobrepondo interesses comerciais restritos ao sentido maior de cooperação, que consideramos mais que oportuna; consideramos indispensável. Em se tratando de zebu, a Índia não pode ser tratada como um "mercado" qualquer. Trata-se da fonte primordial. Para a raça guzerá/kankrej, de modo muito especial, a Índia segue tendo incalculável importância estratégica, pelo notoriamente rico e diverso acervo genético que lá se preserva e se desenvolve. Talvez para outras raças zebuínas a situação não apresente o mesmo relevo, conforme tem sido relatado por visitas e informações colhidas naquele país. 
Inferimos que o interesse do NDDB por genética zebuína brasileira melhorada para leite vise, em boa medida, apresentar alternativas de acasalamento para a grande massa de matrizes mestiças euro-zebu em diferentes regiões indianas, em que o componente zebuíno da mestiçagem se lastreou em raças locais de fraco potencial leiteiro. Isso, no entanto, não altera o quadro que favorece a possibilidade da proposta cooperação de dupla via. Configura-se um trunfo, que vem de encontro à necessidade da raça guzerá de dupla função do Brasil de manter canais compartilhados de trabalho e desenvolvimento com a Índia. 
Brasil e Índia podem e devem unir esforços nas áreas técnica, científica e agrocultural em prol da bovinocultura (assim como da bubalinocultura, etc) tropical, de modo particularíssimo no segmento leiteiro. Estamos convictos de que tal configuração beneficia enormemente a perspectiva de consolidarmos a destacada posição brasileira no trabalho com a raça guzerá. 
Sr. Presidente, não fazemos quaisquer restrições às manifestações e às iniciativas de caráter comercial de criadores ou de instituições privadas, ligadas ou não à zebuinocultura nacional junto a qualquer país, inclusive a Índia. Reconhecemos o mérito de certas iniciativas louváveis. O que não nos parece apropriado é que interesses específicos e particulares possam vir a desfavorecer o estabelecimento dos desejados laços de cooperação de modo aberto, transparente e democrático entre Brasil e Índia na bovinocultura tropical, particularmente no que se refere à raça guzerá/kankrej. Preocupa-nos que tais interesses particularizados venham a monopolizar e ditar rumos subjetivos, inadequados e não-transparentes a um esquema que é oficial - ao menos da parte indiana - e envolve interesses que são amplos e públicos, já que dizem respeito à comunidade de criadores da raça guzerá em seu conjunto maior e sua expressão diversa e multirregional. 
O Nordeste Brasileiro é, sem dúvidas, Sr. Presidente, o ambiente brasileiro que mais se aproxima, em termos climáticos e socioeconômicos, às condições da pecuária do oeste semiárido e subúmido da Índia, justamente o berço da raça guzerá/kankrej. Some-se a isso o fato de que o Nordeste tem sido palco, há pelo menos seis décadas, da formação de alguns dos pilares mais importantes para o soerguimento ao estágio atual de desenvolvimento do melhoramento de dupla aptidão da raça no Brasil; fiel, portanto, à milenar tradição indiana do kankrej. Impossível imaginar o atual estágio do melhoramento leiteiro do guzerá brasileiro sem a contribuição dos plantéis formados e desenvolvidos no antigo Instituto de Pesquisa e Experimentação Agropecuária do Leste (IPEAL), em Cruz das Almas/BA, depois transferido para à então Empresa Estadual de Pesquisa Agropecuária da Paraíba (EMEPA), em Alagoinha/PB, assim como os rebanhos trabalhados por Manuel Dantas Vilar Filho, em Taperoá/PB, e pela Teotônio Agropecuária, no Ceará, além de outros criadores e instituições. 
 Visualizamos, portanto, Sr. Presidente, que o Nordeste não deva ser desconsiderado em quaisquer iniciativas de intercâmbio com a Índia que envolvam a raça guzerá. A ABCZ é uma só, tem abrangência nacional e assim compreendemos que ela tem compromisso com os guzeratistas
Daniel Pereira Dantas Vilar 
Presidente
autênticos do Nordeste Brasileiro. Na visão estratégica que nós todos compartilhamos, nordestinos, todos os brasileiros, indianos e demais criadores das faixas tropical e subtropical do planeta, a raça guzerá constitui um recurso genético fundamental, assumindo importância ainda maior nesse quadrante de crise climática global, antevendo possibilidades de aquecimento e expansão de zonas semiáridas. 
Entendemos que a ABCZ, em articulação com o setor público federal - notadamente o MAPA e a EMBRAPA - e dos Estados, deve atuar ativamente no resguardo do interesse nacional, no desenvolvimento presente e futuro de nossa pecuária. Assim, solicitamos esforços no sentido de que sejam franqueadas, transparente e participativamente, as informações envolvendo intercâmbios de caráter oficial com a Índia em pecuária, especialmente, no que nos diz respeito, os que envolvem a raça guzerá/kankrej. Onde e quando os temas se relacionarem a melhoramento leiteiro, os criadores dedicados a esse tipo de trabalho devem ser cientificados, sobretudo os que, em algum grau, tem contribuído com o PMNGuL. Da mesma forma, aos visitantes e pesquisadores indianos deve ser franqueadas, transparentemente, assim como o convite a eventuais inspeções in loco, sobre o universo dos trabalhos de melhoramento com a raça guzerá no Brasil. 
Gratos pela atenção e certos de sua sensibilidade e consideração às questões ora levantadas. Cordialmente,
Daniel Pereira Dantas Vilar 
PRESIDENTE 
E demais associados: 
Manoel Dantas Vilar Filho                               
Eduardo Aguiar de Almeida 
Joaquim Pereira Dantas Vilar                      
Fernando Augusto Trindade Navarro 
Alexandre de Medeiros Wanderley                      
José Bezerra de Almeida Neto 
Pablo de Menezes Seabra                                
Ricardo Nonato Silva de Sá 
João Tavares Flores Campos                             
Napoleão Silva Fulco Caldas 
Marcos Bispo dos Santos Andrade                             
Davi Pinheiro Teixeira 
Sérgio Lima Martins                          
Alexandre de Medeiros Wanderley Filho 

6 de jan. de 2020

Melhoramento genético de plantas forrageiras xerófilas: Revisão

Isaias Vitorino Batista de Almeida, 
José Thyago Aires Souza, 
Mateus Costa Batista
Resumo
A precipitação é a principal variável climática para o Semiárido brasileiro, sendo um fator limitante para produção de vegetais, principalmente em regiões com histórico de ocorrência de baixas pluviosidades. Por outro lado, a pecuária é a principal atividade econômica dessa região e a produção de alimento para os animais, infelizmente, ainda se constitui no maior gargalo. A presente revisão tem como objetivo principal descrever o melhoramento
genético das principais plantas forrageiras xerófilas cultivadas no Semiárido brasileiro e das espécies com potencial de cultivo para as áreas com registro histórico de baixas precipitações. As espécies discriminadas são: palma forrageira, capim buffel, algodão mocó, flor-de-seda, mandacarú, feijão-bravo e maniçoba. O programa de melhoramento genético dessas espécies se inicia com a formação de um banco ativo de germoplasma (BAG) e compreende a realização de diferentes estratégias, como a domesticação da espécie, que envolve o cultivo, avaliação, caracterização agronômica e bromatológica dos acessos, estudo de diversidade genética, seleção de plantas, hibridação, alteração cromossômica, uso de ferramentas de biotecnologia, entre outras estratégias. A execução de programas de melhoramento genético dessas culturas xerófilas torna-se uma ferramenta necessária para cultivo, domesticação de materiais silvestres e obtenção de novas variedades, com maior potencial de produção e com a função de elevar a renda das propriedades rurais do Semiárido brasileiro.
O termo "xerófita" foi introduzido por Warming em 1895 para caracterizar plantas que conseguem viver em ambientes áridos, ou seja, que completam seu ciclo vital em regiões carentes de água. A palavra "xerófita" é usada para designar "plantas resistentes à seca", sendo um o termo genérico que caracteriza os diferentes mecanismos encontrados nas plantas superiores que representam a resposta evolutiva do vegetal à pressão de seleção exercida pela seca. Existem, basicamente, três mecanismos: fuga à seca ou plantas efêmeras, tolerância à seca em altos níveis negativos de potencial hídrico e tolerância à seca em baixos níveis de potencial hídrico (Prisco, 1986). Para Duque (2004), as plantas xerófilas são aquelas que toleram a escassez d’água, que fogem aos efeitos da deficiência hídrica ou que resistem à seca.
O autor define que elas podem ser classificadas em três tipos, conforme o modo como conseguem sobreviver: efêmeras, suculentas e lenhosas. As efêmeras são as plantas que aproveitam a estação chuvosa para completar todos os estádios fenológicos, cujo ciclo não ultrapassa algumas semanas ou meses. As suculentas são as cactáceas perenes a exemplo da palma forrageira e do mandacarú. As xerófilas lenhosas são as árvores e os arbustos, as plantas perenes e caducifólias, incluindo as plantas nativas da Caatinga. A principal planta xerófila cultivada no Semiárido brasileiro é a palma forrageira, pois a pecuária é a principal atividade econômica dessa região. Segundo Andrade et al. (2006), a produção de alimento para os animais, infelizmente, ainda se constitui no maior problema da pecuária no Semiárido, principalmente em regiões com baixa precipitação. Para criar bovinos, caprinos ou ovinos, de forma lucrativa, os agricultores familiares não poderão utilizar apenas as caatingas ou os pastos nativos, como únicos recursos forrageiros para garantir a manutenção
https://www.bahiaredsindhi.com/
de seus rebanhos. É necessário o cultivo de plantas adaptadas como forma de aumentar o suporte forrageiro (Lima et al., 2010). Nesse sentido, com vistas a tentar solucionar o problema alimentar dos rebanhos, sobretudo no período seco do ano, pesquisadores recomendam o cultivo de plantas forrageiras xerófilas, como forma de reduzir os riscos de perda da produção decorrentes das flutuações sazonais da precipitação (Andrade et al., 2010; Andrade et al., 2006; Duque, 2004).


A precipitação é a principal variável climática para o Semiárido brasileiro, sendo um fator limitante para produção de vegetais, em virtude de ser altamente variável, imprevisível, onde comumente ocorre em eventos descontínuos, em forma de pulsos de relativa curta duração (Andrade et al., 2010). Historicamente é conhecida a existência das grandes secas no Nordeste, como também o insucesso no cultivo de culturas agrícolas. Nos últimos seis anos o Nordeste brasileiro passou por um dos maiores ciclos de seca da história, com precipitações anuais inferiores a 200 mm em alguns municípios; sendo o cultivo de plantas forrageiras xerófilas a principal estratégia de convivência com a seca, como forma de garantir produção de alimento volumoso nestes anos. O sucesso no cultivo de uma espécie xerófila depende, primariamente, do material genético utilizado, principalmente com espécies não domesticadas a exemplo da flor-de-seda (Calotropis procera (Ait.) W.T. Aiton), do mandacarú (Cereus jamacaru P. DC.), do feijão-bravo (Capparis flexuosa L.) e da maniçoba (Manihot ssp.), sendo, portanto, necessário a condução de um programa de melhoramento genético da espécie, para a seleção de genótipos com maior potencial forrageiro. Sendo assim, a presente revisão tem como objetivo principal descrever o melhoramento genético das principais plantas forrageiras xerófilas cultivadas no Semiárido brasileiro e das espécies com potencial de cultivo para as áreas com registro histórico de baixas precipitações. 
A presente revisão traz informações sobre as principais plantas forrageiras xerófilas cultivadas no Semiárido brasileiro e algumas etapas no programa de melhoramento genético de cada espécie, a exemplo da palma forrageira (Opuntia spp.) e do capim buffel (Cenchrus ciliaris L.), como também de espécies com potencial de serem cultivadas para produção de forragem, a exemplo do algodão mocó (Gossypium hirsutum L. r. marie galante Hutch), da flor-de-seda (Calotropis procera (Ait.) W.T. Aiton), do mandacarú (Cereus jamacaru P. DC.), feijão-bravo (Capparis flexuosa L.) e maniçoba (Manihot ssp.). O melhoramento genético vegetal é a arte e ciência de aperfeiçoar o padrão genético de plantas em relação ao seu uso econômico, tendo como objetivos: selecionar e desenvolver plantas com maior potencial produtivo, para novas áreas agrícolas, para áreas desfavoráveis, materiais com redução de constituintes tóxicos, com resistência à pragas e doenças ou mesmo para condições de estresses abióticos, por exemplo, hídrico, salino, entre outras finalidades (Fritsche-Neto & Borém, 2011). Para iniciar um programa de melhoramento genético de uma espécie de planta é necessário proceder a um planejamento do programa, ou seja, realizar, inicialmente, levantamento bibliográfico do que foi feito em programas semelhantes; levantamento do germoplasma existente no centro de origem da espécie; verificar o modo de reprodução da espécie; definir os objetivos e analisar os entraves para execução do programa (Fritsche-Neto & Borém, 2011). Para haver o estabelecimento do programa de melhoramento genético, inicialmente, deve existir um banco ativo de germoplasma (BAG), que é uma coleção viva do patrimônio genético de uma espécie vegetal, que detém um número expressivo de acessos, incluindo materiais silvestres, genótipos crioulos, linhagens e cultivares (Costa et al., 2012; Fritsche-Neto & Borém, 2011; Ramos et al., 2007). No caso de plantas não domesticadas, a exemplo da flor-de-seda, do mandacarú, feijão-bravo e maniçoba a formação do BAG consiste apenas de plantas silvestres. O objetivo central dos bancos de germoplasma é a conservação dos recursos genéticos vegetais visando preservar a variabilidade genética das espécies, podendo ser utilizados nos programas de melhoramento genético de plantas. Em geral, o programa de melhoramento possui etapas distintas, que envolve avaliação e caracterização agronômica dos acessos do BAG, estudo de diversidade genética, seleção de plantas, hibridação, alteração cromossômica, uso de ferramentas de biotecnologia, entre outras estratégias (Costa et al., 2012; Fritsche-Neto & Borém, 2011; Ramos et al., 2007). A execução do programa de melhoramento genético de plantas não é uma tarefa fácil, demanda tempo, possui custos elevados até atingir a função principal do programa que é proceder ao registro de cultivares. Dessa forma, recomenda-se o desenvolvimento de um programa de melhoramento genético com espécies xerófilas forrageiras domesticadas ou com potencial de domesticação a exemplo da flor-de-seda, visto ter características agronômicas favoráveis, como potencial fisiológico de sementes, crescimento e produção de fitomassa. 
A escolha da planta forrageira xerófila para cultivo no Semiárido brasileiro, principalmente para as áreas com registro histórico de baixas precipitações, deve ser com base na capacidade do vegetal em resistir à seca, na fenologia da espécie e por meio das características agronômicas e bromatológicas da espécie. Com relação à capacidade do vegetal em resistir à seca, esta é uma característica essencial para o sucesso na atividade pecuária em propriedades rurais do Semiárido, visto que, historicamente se sabe da ocorrência de secas no Nordeste. Cultivar plantas com resistência comprovada a esse fenômeno é

12 de dez. de 2019

Aspectos metereológicos do semiárido brasileiro

Magna Soelma Beserra de Moura
José Espínola Sobrinho
Thieres George Freire da Silva
1 INTRODUÇÃO
Conhecer a atmosfera do planeta Terra é uma das aspirações que vêm sendo perseguidas pela humanidade desde os tempos mais remotos. A partir do momento em que o homem tomou consciência da interdependência das condições climáticas e daquelas resultantes de sua deliberada intervenção no meio natural, como necessidade para o desenvolvimento social, ele passou a produzir e registrar o conhecimento sobre os componentes da natureza (MENDONÇA; DANNI-OLIVEIRA, 2007). A agricultura é uma das atividades econômicas mais dependentes das condições climáticas. Os elementos meteorológicos afetam não só os processos metabólicos das plantas, diretamente relacionados à produção vegetal, como também as mais diversas atividades no campo. Cerca de 80% da variabilidade da produção agrícola no mundo devem-se às oscilações das condições meteorológicas durante o ciclo de cultivo, especialmente, para as culturas de sequeiro, já que os agricultores não podem exercer controle sobre tais fenômenos naturais ( , 2009). A Agrometeorologia ou Meteorologia Agrícola é a área das Ciências Naturais que realiza o estudo das condições atmosféricas e suas interferências no meio rural, resultando em aplicação direta no planejamento e na tomada de decisões na agropecuária. De um modo geral, as variáveis meteorológicas que afetam o
Visite https://www.bahiaredsindhi.com/
crescimento, o desenvolvimento e a produtividade das espécies, principalmente das culturas agrícolas, são chuva, temperatura do ar, radiação solar, fotoperíodo, umidade do ar e do solo e velocidade e direção do vento (MONTEIRO, 2009). O Semiárido brasileiro é caracterizado por um conjunto de períodos com balanços hídricos negativos, resultantes da precipitação média anual inferior a 800 mm, insolação média de 2.800 horas por ano e umidade relativa anual média em torno de 50% (MOURA et al., 2007). Neste ambiente, onde o clima é uma das principais características, a ocorrência de secas e a precipitação concentrada em quatro meses do ano são determinantes para a sobrevivência das famílias, da produção agrícola e dos rebanhos. Dessa forma, este capítulo aborda os principais sistemas meteorológicos que ocasionam as precipitações no Semiárido brasileiro e traz um resumo dos mapas climáticos de chuva, evaporação, temperatura e umidade relativa do ar desse ambiente único no Brasil.
2 SISTEMAS METEOROLÓGICOS RESPONSÁVEIS PELAS CHUVAS NO NORDESTE BRASILEIRO
O clima de qualquer região é determinado em grande parte pela circulação geral da atmosfera. Essa circulação resulta do aquecimento diferencial do globo pela radiação solar, da distribuição assimétrica de oceanos e continente e também características topográficas sobre este último. Padrões de circulação gerados na atmosfera redistribuem calor, umidade e momentum (quantidade de movimento) por todo o globo. No entanto, essa redistribuição não é homogênea, agindo algumas vezes no sentido de diminuir as variações regionais dos elementos climáticos, tais como, temperatura e precipitação, as quais têm enorme influencia nas atividades humanas (FERREIRA; MELLO, 2005). Do ponto de vista climático, a maior porção da região Nordeste do Brasil (NEB) é considerada semiárida por apresentar substanciais variações temporais e espaciais da precipitação pluviométrica e elevadas temperaturas ao longo do ano (AZEVEDO, 1998). Apesar das elevadas temperaturas registradas, as amplitudes térmicas máximas oscilam em torno de 6°C. Devido à localização no extremo leste da América do Sul tropical, a NEB está submetido a influencia de fenômenos meteorológicos que lhe conferem características climáticas peculiares, que a diferencia das demais regiões semiáridas de todo o mundo (MOLION; BERNARDO, 2000). A grande variabilidade no regime pluviométrico do Nordeste do Brasil é, em parte explicada em função dos diversos fenômenos que influenciam a região. Segundo Uvo e Berndtsson (1996), quatro mecanismos governam o regime de chuva da região NEB: 

A Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) que atua sobre o oceano Atlântico é responsável pelas precipitações que ocorrem no centro norte da região no período de fevereiro a maio. Os Sistemas Frontais ou Frentes Frias (FF), que provocam chuva no centro sul do NEB, atuam nos meses de novembro a janeiro. Já os Vórtices Ciclônicos de Altos Níveis (VCAN) que ocorrem na primavera, verão e outono (de setembro a abril), normalmente são mais frequentes no mês de janeiro. Por sua vez, os eventos El Niño/La Niña/Oscilação Sul (ENOS), que são resultantes de alterações nos valores da Temperatura da Superfície do Mar (TSM) no oceano Atlântico (Dipolos), os Ventos Alísios e a Pressão ao Nível do Mar (PNM) exercem influência nos padrões re chuva no NEB com maior ou menor intensidade a depender da localização dos estados na região. Além desses mecanismos, podem-se destacar, também, as ondas de leste, que são responsáveis pelas chuvas no leste do NEB entre maio e agosto; a atuação das Linhas de Instabilidade (LI), dos Complexos Convectivos de Mesoescala (CCM) (FERREIRA; MELLO, 2005), e o efeito das brisas marítima e terrestre na precipitação. Em função destes fenômenos que influenciam a origem e a formação das precipitações pluviométricas na Região pode-se afirmar que o Nordeste Brasileiro possui pelo menos cinco regimes pluviométricos diferentes, conforme descritos abaixo e apresentados na Figura 2: 
Regime pluviométrico de Quixeramobim: onde as maiores precipitações ocorrem nos meses de março e abril e se originam, principalmente, pelo posicionamento da Zona de Convergência Intertropical; 
Regime pluviométrico de Salvador: as maiores precipitações se verificam em abril e maio r são originadas das Ondas de Leste; 
Regime pluviométrico de Olinda: as maiores precipitações ocorrem em maio e junho e, como no regime de Salvador, dependem das Ondas de Leste; 
Regime pluviométrico de Caetité: as maiores precipitações ocorrem em novembro e dezembro e são resultantes das Frentes Frias vindas dos Polos; 
Regime pluviométrico de Remanso: as maiores precipitações ocorrem em dezembro e janeiro e podem ser originadas por vários mecanismos como: as Frentes Frias vindas dos Polos e os Vórtices Ciclônicos de Altos Níveis (VCAN).
Os principais sistemas que originam e influenciam as chuvas no Nordeste brasileiro são descritos a seguir: 
- Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) 
É considerado o sistema gerador mais importante de precipitação sobre a região equatorial dos oceanos Atlântico, Pacifico e Índico, assim como sobre áreas continentais adjacentes. Esse sistema é visualizado em imagens de satélite como uma banda de nuvens convectivas que circunda a faixa equatorial do Globo Terrestre, formada principalmente pela confluência dos ventos alísios dos hemisférios Norte e Sul (CAVALCANTI et al., 2009). De maneira simplista, pode-se dizer que a convergência dos ventos faz com que o ar quente e úmido ascenda, carregando umidade do oceano para os altos níveis da atmosfera ocorrendo a formação das nuvens. A ZCIT é o sistema meteorológico mais importante na determinação de quanto serão abundantes ou deficientes as chuvas no setor norte do NEB. Normalmente, a ZCIT migra sazonalmente de sua posição mais ao norte, aproximadamente 14ºN em agosto-setembro para posições mais ao sul, aproximadamente 4°S em março-abril. A ZCIT é mais significativa sobre os oceanos e por isso, a Temperatura da Superfície do Mar (TSM) é um dos fatores determinante na sua posição e intensidade. Eventos significativos de chuvas no Nordeste brasileiro ocorrem com mais frequência em anos em que a ZCIT atinge posições extremas ao sul do Equador, por isso diz-se que a ZCIT é o principal mecanismo responsável pelas chuvas que ocorrem no norte do NEB, durante sua estação chuvosa principal, entre fevereiro e maio (FERREIRA; MELLO, 2005). 
- Sistemas Frontais ou Frentes Frias 
É outro importante mecanismo causador de chuvas no NEB que está ligado à penetração de Frentes Frias vindas do polo sul (FF) e que chegam a atingir até as latitudes tropicais entre os meses de novembro e janeiro. As frentes frias são bandas de nuvens organizadas que se formam na região de confluência entre uma massa de ar frio (mais densa) e uma massa de ar quente (menos densa). As FF são facilmente identificadas nas imagens de satélite e geralmente se deslocam de sudoeste para nordeste sobre o continente e oceano Atlântico adjacente. Algumas vezes, estas alcançam latitudes muito baixas sobre o oeste da Amazônia e também ao longo da costa NEB, interagindo com o ar quente e úmido tropical, produzindo chuvas fortes sobre o continente, no litoral NEB (CAVALCANTI et al., 2009). 
- Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN) 
Os VCAN que atingem a região NEB são sistemas meteorológicos caracterizados por centros de pressão relativamente baixa que se originam na alta troposfera e se estendem até os níveis médios, dependendo da instabilidade atmosférica (CAVALCANTI et al., 2009). Formam-se no oceano Atlântico, entre os meses de outubro e março, e sua trajetória normalmente é de leste para oeste, com maior frequência entre os

27 de nov. de 2019

SUPLEMENTAÇÃO NA SECA

O maior problema no período da seca é o baixo desempenho dos bovinos em pastejo, resultado de uma pastagem de baixo valor nutricional. As vacas de cria não recuperam a condição corporal necessária para manter o ciclo reprodutivo e as demais categorias animais apresentam baixas taxas de ganho de peso. 
O baixo teor de proteína é o fator limitante das pastagens nessa época do ano, e sua correção, normalmente, resulta em aumento no consumo e digestibilidade da pastagem (Cochran et al., 1998). Isto porque as bactérias celulolíticas, responsáveis pela digestão da fibra, necessitam para o seu crescimento, de amônia (que pode ser fornecida pela uréia), mas também de esqueletos carbônicos (fornecido pelo carboidratos e proteína verdadeira). 
A fração protéica utilizada no rúmen é denominada de Proteína Degradada no Rúmen (PDR) e sua exigência está relacionada diretamente com os microorganismos do rúmen e não com o animal. 
https://www.bahiaredsindhi.com/
Essa exigência aumenta proporcionalmente à oferta de energia (NDT) ao animal, e pode ser estimada usando-se a equação: PDR, g/animal/dia = NDT, kg/animal/dia x 0,13 (NRC, 1996) 12 Suplementação de bovinos em pastejo É aconselhável que no suplemento protéico, a proporção de PDR com origem na uréia, não ultrapasse 30% do PDR total. 

Suplementação na seca – vacas de cria 
Objetivo da suplementaçãomelhorar o desempenho animal, melhorando a utilização da pastagem disponível. 
Meta - aumentar a taxa de natalidade de vacas de cria e a taxa de reconcepção de primíparas. 
Estratégiafornecer uma pequena quantidade de nutrientes que favoreçam os microorganismos do rúmen, e conseqüente aumento no consumo e digestibilidade do pasto. 
Tipo de suplementoque contenha teores de proteína bruta acima de 40%. 
Além da fonte protéica e mineral, a adição de uma fonte energética pode contribuir para melhorar o consumo do suplemento e contribuir para aumentar a oferta no rúmen de esqueletos carbônicos. Nessa situação, o uso da uréia acima de 30% do PDR total é aceitável. 
Entretanto, suplementos protéicos apenas com uréia e mistura mineral não têm resultado em desempenhos consistentes. O esperado, em termos de desempenho animal, seria reduzir perdas do peso vivo (casos extremos em locais de longa estiagem) ou alcançar a mantença ou leve ganho de peso.
Nível de fornecimento - mistura mineral/uréia, com ou sem palatabilizante - à vontade; sal protéico - aproximadamente 1 g/kg de peso vivo/animal/dia. 
Mistura mineral/uréia – baixo consumo resulta em desempenhos aquém do desejado. Uso específico para regiões de seca bem caracterizada onde haja disponibilidade de macega de baixa qualidade. Pode reverter uma situação de perda de peso vivo acentuada para moderada ou até mantença, dependendo da oferta de pasto e taxa de lotação animal. 
Mistura mineral/uréia + palatabilizante – o consumo mais constante pode resultar em desempenhos mais consistentes, como citados na situação anterior. 

Sal protéico ou proteinado – consumo controlado com o uso do sal branco, dentro de valores próximos a 1 g/kg de peso vivo (vaca de 400 kg deveria consumir 400 g de sal protéico/dia). O controle do consumo do suplemento com o sal branco não é absoluto, havendo necessidade de se fazerem avaliações frequentes do mesmo, na fase inicial de sua oferta. Alterações na quantidade do sal branco para mais ou para menos, compensando com a substituição do milho, talvez sejam necessárias. Uma vez estabilizado o consumo, o abastecimento do cocho com o sal protéico deveria ser por períodos intercalados de três a quatro dias. Respeitar um espaço linear de cocho de 20 cm/vaca. É uma forma econômica de suplementação, com o objetivo de reduzir taxas de perdas de peso vivo, manter peso vivo ou, até mesmo, alcançar ganhos moderados de cerca de 200 g por vaca/dia, dependendo do pasto. Animais recebendo suplementos com sal comum para controlar consumo precisam ter livre acesso à água. 



Suplementação na seca – animais em recria  
Objetivo da suplementaçãomelhorar o desempenho animal pelo fornecimento adicional de nutrientes. 
Metareduzir a idade de abate e/ou idade de primeira cria e/ou reduzir taxas de perda de peso vivo. 
Estratégiafornecer um suplemento para aumentar o consumo total de proteína (sal protéico) ou proteína/energia (concentrado). No último caso, dentro de limites capazes de minimizar seu efeito sobre o consumo da pastagem. 
Tipo de suplementoas características do sal protéico são idênticas às já discutidas. O concentrado deve apresentar um teor de proteína bruta acima de 20%, teores médios de energia (entre 70% a 76% de NDT), minerais e ionóforo (Rumensin, Taurotec e outros). A substituição do PDR total pela uréia não deveria ultrapassar 30%. 
Nível de fornecimentosal protéico – 1 g/kg de peso vivo/animal/dia; concentrado - entre 2,5 a 5 g/kg de peso vivo/animal/dia. 
Sal protéico – é uma forma econômica de manter o peso do rebanho ou ganhos moderados de até 200 g/animal/dia, dependendo do pasto. O consumo deveria ficar em, aproximadamente, 1 g/kg de peso vivo/animal/dia. Ajustar o percentual de sal branco no suplemento para alcançar o consumo programado. Animais recebendo suplementos com sal comum para controlar consumo precisam ter livre acesso à água. 
Concentrado – na situação em que o consumo do suplemento pode alcançar até 5 g/kg de peso vivo/animal/dia, é fundamental que o mesmo seja o mais uniforme possível, para se evitarem diferenças no ganho de peso. Para isso, é importante que se respeite espaço de cocho para todos os animais, ficando entre 40 a 50 cm lineares/animal. Uma boa distribuição dos cochos no pasto também
Precocidade e produção na escassez.
https://www.bahiaredsindhi.com/
vai contribuir para que haja uma separação natural dos diversos grupos sociais, reduzindo o estresse. A hora de abastecer os cochos não deve interferir no regime natural de pastejo do animal, e isto pode melhorar a eficiência alimentar.  
O fornecimento diário do suplemento entre 11h e 14h seria o mais aconselhado.  Os cálculos do concentrado, na Tabela 2, foram baseados supondo-se o consumo de 1 kg/animal/dia do suplemento, por um animal de 300 kg de peso vivo. 
Suplementação na seca – animais em engorda (semiconfinamento)  
Objetivo da suplementaçãomelhorar o desempenho animal pelo fornecimento adicional de nutrientes. 
Metagarantir peso de abate e acabamento até o final da seca. 
Estratégiafornecer um suplemento para aumentar o consumo total de energia, mesmo ocorrendo substituição parcial no consumo do pasto. 
Tipo de suplementoque contenha um teor médio de 20% de proteína bruta e alta densidade energética (valor médio de 80% de NDT). 
Nível de fornecimentode 8 a

9 de out. de 2019

Bom de leite e bom de carne é possível?


Vânia Maldini Penna e 
Maria Gabriela C. D. Peixoto
Alguns duvidam, talvez por pouca informação atualizada. De fato, nos ensinaram que não. E nós também já ensinamos que o mais eficiente era maximizar as produções em sistemas e raças especializados. Seguindo este paradigma, enormes avanços ocorreram na produção. Nos países desenvolvidos, a produção de leite aumentou em muitas raças num ritmo constante de 50 a 100kg/ano, por cerca de 50 anos.
Resultados indesejáveis das produções maximizadas
Entretanto, estes avanços na produção foram acompanhados por decréscimo na robustez e adaptabilidade dos animais. As vacas ficaram cada vez mais exigentes, menos férteis, “complicadas”, “difíceis de lidar”, segundo produtores. Nas fases iniciais, por volta dos anos 1980, os produtores e técnicos lidavam com o decréscimo na rusticidade adaptando o ambiente aos animais. Isto foi ficando cada vez mais difícil e caro. Vieram os estudos que mostraram

haver antagonismo genético entre nível de produção e aspectos funcionais (fertilidade, saúde, longevidade, etc.). Assim, os programas de melhoramento em todo o mundo passaram a dar especial atenção às chamadas características funcionais. Estas, usualmente apresentam alta variabilidade genética e são facilmente deterioráveis. Em geral são difíceis de serem selecionadas pelos métodos convencionais devido às baixas herdabilidades. Assim, apesar dos esforços, a situação foi piorando cada vez mais nas últimas décadas. Os avanços na produção absoluta não eram acompanhados de avanços na “produção real”, ou seja, nem sempre correspondiam a aumentos de produção na vida útil, muito menos na lucratividade. Mais referências em “Versatilidade e sustentabilidade no melhoramento do Guzerá” (Revista Guzerá, 2009) e “Problemas dos rebanhos leiteiros com genética de alta produção”, no site www.fernandomadalena.com/ indice_23.html. Vários problemas passaram a ocorrer com elevada frequência. Alta mortalidade, baixa fertilidade, problemas de cascos, mamites, susceptibilidade a parasitos e outras doenças. Exigência de altos níveis de concentrados, gastos muito elevados com insumos e medicamentos. Aumentos na quantidade de leite que não correspondiam a aumentos na qualidade remunerada pelo mercado (% de proteína, gordura, sólidos totais, contagem de células somáticas, etc.). Baixos valores de bezerros e vacas de descarte devido às “perdas na musculatura” decorrentes do foco exclusivo na seleção leiteira. E, ainda, o uso muito intenso de alguns reprodutores muito famosos reduziu a variabilidade genética, conduzindo a perigosos aumentos na consanguinidade, com efeitos drásticos na reprodução, no vigor e comprometendo o melhoramento em longo prazo. Hoje existe um sério problema de “endogamia globalizada”. Tudo isto precisava ser revertido. Atualmente, o objetivo primordial da maioria dos rebanhos e raças é a redução de custos, particularmente os decorrentes de baixa fertilidade e baixa rusticidade, fontes de descartes involuntários (por mortes, doenças, falhas reprodutivas, etc.) e custos extras. Nos EUA e na Europa muitos produtores se voltaram para a utilização de cruzamentos ou mesmo para utilização de outras raças para fazer face às perdas em saúde e rusticidade (Ducrocq, 2010). Tais perdas não ocorreram apenas no gado leiteiro, mas também no de corte e em outras espécies. Em geral, como consequência da seleção para maximização da produção com objetivos de lucro de curto prazo, sem considerar as restrições biológicas e os ganhos de longo prazo. Com os novos conhecimentos adquiridos pela ciência e com as mudanças do cenário mundial, os antigos paradigmas foram reavaliados. Muitos mudaram e até se inverteram. Muito do que aprendemos e ensinamos como “certo” agora temos que ensinar que “hoje é errado” e vice-versa. Coisas da ciência que está em constante reavaliação. E necessitamos evoluir com ela. Como estas mudanças são razoavelmente recentes, é natural que o conhecimento de muitos esteja defasado e que continuem a acreditar em conceitos já ultrapassados. Compreensível, mas não justificável, particularmente no meio científico e técnico. Cabe a estes acompanhar e divulgar as mudanças de conceitos e de “verdades”.
Novos paradigmas
https://www.youtube.com/user/bahiaredindhi
As abordagens atuais são principalmente econômicas. O foco não está mais em “produzir muito”, mas em “produzir bem”, com lucro, qualidade e respeito ao meio ambiente e aos animais. Não apenas resultados imediatos são considerados, mas também os de médio e longo prazo. A “boa” vaca leiteira não precisa ter produções absolutas altíssimas, e sim eficientes e condizentes com o ambiente econômico de produção. Rusticidade, fertilidade, versatilidade e sustentabilidade são as novas palavras de ordem. A seleção visa hoje a obtenção de animais aptos a produzir economicamente nos sistemas em que irão lidar. Atualmente, a produção não se baseia em um único modelo. Existe uma gama muito maior de sistemas de produção do que no passado. Desde os especializados e intensivos aos não especializados, “naturais”, “orgânicos”, etc. Todos eles devidamente analisados pela pesquisa. Para se ter uma ideia, nas últimas reuniões da European Association for Animal Production, têm sido apresentados trabalhos sobre sistemas altamente tecnológicos, inimagináveis alguns anos atrás, mas também alternativas eficientes e econômicas bem mais simples. Entre estes, trabalhos sobre aspectos que em passado recente seriam considerados “atrasados e ineficientes”, como uso de apenas uma ordenha/dia em certos sistemas, produção com base em pastagens e redução de uso de concentrados, etc. Funcionalidade e lucro Nas condições mais atuais de mercado a lucratividade de uma empresa rural é altamente relacionada com redução de custos, versatilidade do sistema e qualidade dos produtos. Uma forma de reduzir os custos é melhorar características funcionais de importância econômica. Estas são principalmente relacionadas com adaptabilidade, sobrevivência e aspectos que reduzem a carga metabólica das vacas (Solkner et al 2000). Além das vantagens econômicas, a adaptabilidade ao ambiente e a rusticidade são importantes para aspectos cada vez mais demandados pelo consumidor, como segurança e qualidade alimentar (livre de pesticidas, antibióticos, hormônios, aditivos, etc.). Produtos para alimentação saudável, natural ou orgânica, que atendam aos requisitos de bem-estar animal, etc., são cada vez mais exigidos ou contam com sobre preços. Muitos países já têm várias exigências neste sentido, para importação de produtos de origem animal, as atualmente importantes “barreiras não sanitárias”. Salienta-se que o Brasil tem melhores condições de atendê-las do que muitos outros países (p.ex.: animais a pasto, ordenha na presença do bezerro, etc.), sendo importante considerá-las em nossos programas de seleção e cuidar de não perder estas vantagens já existentes. Versatilidade e lucro, “a carne do leite” A importância do aproveitamento da carne dos animais oriundos de rebanhos leiteiros tem ficado cada vez mais evidente para a sustentabilidade econômica destes sistemas e para o meio ambiente. A chamada “carne leiteira” (dairy beef) passou a ser “aproveitada” em todo o mundo. Tem sido recomendada como uma oportunidade de diversificar operações e aumentar a renda, principalmente quando a produção é com base em pastagens. Demonstrou-se que o “lucro secundário” da carne nos sistemas leiteiros costumava ser subestimado e que ele representa considerável aumento nos rendimentos e desempenha importante papel na cadeia alimentar. Por exemplo, 50% da carne consumida no Reino Unido é “leiteira” e a tendência é de aumento desta porcentagem. Nos EUA, Schaefer (2005) estimou que 2,35 milhões de bezerros Holstein são comercializados anualmente para carne. Estudos mais recentes indicam que 20% da carne consumida no país provêm de rebanhos leiteiros, cada vez com melhor qualidade, já que os produtores têm se preocupado mais com a qualidade da carne, da carcaça e do rendimento. Tanto na Europa quanto nos EUA existem hoje vários “programas de qualidade de carne oriunda de gado de leite” sendo conduzidos por universidades, associações e órgãos governamentais que contam com incentivos econômicos. Existe aumento no interesse de identificação de linhagens mais eficientes em velocidade de crescimento, conversão alimentar e que produzam melhor rendimento. Vale repetir para os que ainda insistem na “angulosidade” dos animais leiteiros, que ela hoje não é mais desejável; ao contrário, é punida com pesos negativos na maioria dos índices de seleção, inclusive no da Holstein Friesian Association, nos EUA. Esta mudança ocorreu após demonstração do antagonismo genético de fertilidade e saúde com a tão preconizada “forma leiteira” e com as altíssimas produções. Animais “descarnados” produziam muito em uma lactação, mas não em sua vida produtiva nem de forma mais lucrativa. Verificou-se que a seleção para animais “angulosos” diminuiu a fertilidade e o desempenho funcional e deveria ser revertida. Conforme Lee et al. (2010), particularmente em sistemas onde existem flutuações na qualidade da alimentação, a seleção para capacidade de acumular gordura nas novilhas pode ser usada para contrapor aos efeitos indesejáveis da seleção para maior produção nas reservas de energia das vacas. Estas reservas são fundamentais para manter a produtividade e fertilidade em períodos subótimos de alimentação, que ocorrem na produção a pasto devido às variações da qualidade do mesmo, no decorrer do ano. Ou seja, atualmente a vaca leiteira não precisa (nem deve!) ser descarnada. Os animais com mais músculos e capazes de armazenar gordura são capazes de compensar, com suas reservas corporais, os períodos de nutrição desbalanceada, apresentando melhor persistência, fertilidade e saúde. Estes aspectos são favoráveis à produção simultânea de carne e leite. Infelizmente, muitos não tomaram conhecimento disto e ainda se ouve por aí que a vaca leiteira deve ter “as três cunhas”! Hoje isto é mito. Dupla aptidão e lucro Neste novo cenário, as raças e sistemas de dupla aptidão que “andavam esquecidos” da ciência e da mídia, readquiriram importância e passaram a ser mais estudados, em particular na Europa. Diversos trabalhos demonstraram haver importante espaço a ser ocupado por eles na pecuária mundial. Popularmente é dito que permitem “aproveitar a vaca inteira”. Os altos preços dos bezerros de raças de dupla aptidão em relação aos das leiteiras são incentivo a produzir bons bezerros e menos leite (com menores custos de alimentação e manejo) por vaca, favorecendo-as (Graser e Averdunk, 1990). Enfim, hoje está bastante comprovado que não apenas é possível, mas, em muitos casos, desejável econômica e ecologicamente, produzir leite e carne de qualidade em um único sistema de produção. E que, junto da produção especializada de carne ou de leite (sempre haverá situações em que serão as mais adequadas), existe importante e crescente espaço para a dupla aptidão. Este pode ser preenchido pelo melhoramento da capacidade de produção de carne nas raças leiteiras, pelo de cruzamento destas com raças de corte ou de dupla aptidão ou pelo uso de raças melhoradas para dupla aptidão.
No Brasil e em outros países tropicais
Para os países tropicais, as vantagens da dupla aptidão podem ser mais acentuadas. Sua utilização é antiga e atualmente crescente. Estudos econômicos indicaram que a rentabilidade da pecuária leiteira

18 de set. de 2019

Ferramentas e Estratégias para o Melhoramento Genético de Bovinos de Corte

Por Fernando Flores Cardoso
Introdução
O melhoramento genético é um instrumento de grande importância para a pecuária de corte, através do qual os criadores podem aumentar a eficiência de produção e a lucratividade de seus rebanhos, por meio de princípios genéticos. A criação de animais geneticamente superiores permite utilizar de maneira mais eficiente os recursos disponíveis. A produção ou desempenho de um animal depende basicamente de dois fatores: da genética, ou seja, dos genes que o animal possui, e do ambiente de criação, incluindo alimentação, sanidade, manejo, etc. Assim temos que: 
P = G + A + G*A 
(P = produção; G = genética; A = ambiente, G*A = interação entre genética e ambiente). Considerando estes dois principais fatores que afetam o desempenho dos animais, podemos aumentar a produtividade melhorando a qualidade genética (G) e melhorando o ambiente (A) de criação. Ambos os fatores são igualmente importantes e devem ser trabalhados em conjunto. Por outro lado, a presença de interação G*A indica que os animais geneticamente superiores não serão necessariamente os mesmos em diferentes condições ambientais. Por exemplo, a melhor genética em ambientes adversos de criação está associada a fatores de adaptação e rusticidade, entretanto, animais com tais características não deverão ser os de melhor resposta nos ambientes mais favoráveis, que demandam genética altamente especializada e com grande potencial produtivo. Deve-se salientar que não adianta possuir animais geneticamente superiores se a alimentação é pobre ou ter bons recursos alimentares se os animais são inferiores, pois em nenhum dos casos o resultado será satisfatório. O melhoramento das condições ambientais pode produzir resultados mais expressivos em curto prazo, como, por exemplo, quando o produtor raciona um grupo de animais, mas, em geral, possui um custo mais elevado e não é permanente. Já o melhoramento genético, embora não tenha um ganho tão expressivo em um curto espaço de tempo, apresenta ganhos constantes, cumulativos e que não se perdem. Quando o criador melhora geneticamente seus animais o aumento de produtividade é
permanente. Um rebanho de desempenho e qualidade superiores é um patrimônio para o criador e pode ser formado pelo melhoramento genético sem custos elevados e em qualquer nível de alimentação. De forma geral, a estratégia mais sustentável é buscar animais com características genéticas compatíveis com o ambiente de criação que o criador possui, em vez de alterar o ambiente para atender as necessidades de animais não adaptados às condições locais. Para o melhoramento genético, os dois princípios mais importantes são a seleção e os sistemas de acasalamento. A seleção tem por objetivo que os melhores animais sejam aqueles que deixam um maior número de filhos na próxima geração. Por outro lado, através dos sistemas de acasalamento é possível determinar como serão combinadas as características dos animais selecionados e planejar cruzamentos para explorar a heterose ou “vigor híbrido” e a complementaridade entre raças com características diferentes. O objetivo deste texto é orientar os criadores de bovinos de corte para que, através da seleção e do acasalamento de seus animais, promovam o melhoramento genético de seus rebanhos e aumentem a produtividade de suas empresas rurais.
1 – Alguns conceitos básicos de genética
O objetivo desta seção é apresentar resumidamente alguns conceitos básicos de genética para facilitar o entendimento do texto subsequente. O leitor interessado em mais detalhes nesses conceitos poderá encontrá-los em livros de genética e melhoramento animal, como p. ex. Bourdon (2000), Falconer e Mackay (1996) e Lynch e Walsh (1998). 1.1. Gene, alelo, lócus, cromossomo e marcador genético: Os genes são as unidades fundamentais da hereditariedade, pois através destes são transmitidas as características de pais para filhos. Cada gene é formado por uma sequência específica de nucleotídeos do DNA (ácido desoxirribonucléico) que contém a informação para produzir uma determinada proteína ou controlar uma característica. Por alelo entende-se as várias formas alternativas do mesmo gene, enquanto que lócus é o local fixo (posição) em um cromossomo onde está localizado determinado gene. Os cromossomos consistem de uma longa sequência de DNA, que contém vários genes, e outras sequências de nucleotídeos com funções específicas nas células dos seres vivos. Os cromossomos, assim como os genes, existem aos pares nos bovinos. Finalmente, marcador genético é uma porção de DNA que tem sequência e posição dentro do genoma conhecidas, possuindo ao menos dois alelos distintos (polimorfismo). Os marcadores genéticos são frequentemente usados para caracterizar a predisposição a doenças e os atributos produtivos e de qualidade dos animais. 1.2. Fenótipo e Genótipo: O fenótipo é a produção ou aparência de um animal. É a expressão observada ou aquilo que medimos nas várias características dos animais. O fenótipo ou produção de um animal é influenciado pelo ambiente e pelas informações genéticas que ele possui. Como exemplo, podemos dizer que o fenótipo de um touro para peso ao sobreano é de 300 kg aos 550 dias de idade. A palavra genótipo pode ser empregada de diferentes formas - veja Bourdon (2000). Quando se refere ao genótipo de um animal, representa o conjunto de todos os seus genes – o seu potencial ou mérito genético – do qual seus descendentes receberão uma amostra aleatória. De forma mais geral, genótipo pode ser usado para referir grupos de animais de composição genética semelhante ou do mesmo tipo biológico. Um exemplo é designar de "genótipos adaptados aos trópicos", aqueles grupos ou raças de animais que possuem combinações de genes favoráveis à tolerância ao calor, aos parasitas e à radiação solar. Finalmente, de forma muito mais específica, podemos referir como genótipo o par de alelos que o animal possui para um determinado gene, como veremos nos itens 1.3 e 1.4 a seguir. O genótipo é fixado no momento em que o animal é gerado e não se altera durante toda a sua vida. Do ponto de vista do melhoramento genético, o foco é no genótipo em vez do fenótipo, pois sua progênie será exatamente a mesma, independente de quão bem ou mal o animal for alimentado. Veja que um touro que pese 300 kg aos 550 dias pode possuir e passar aos descendentes genes que lhes permitam pesar 550 kg na mesma idade, se a alimentação destes não for restrita. 1.3. Dominância e recessividade Os alelos de um gene podem ser dominantes ou recessivos. Alelos dominantes se sobrepõem e mascaram os efeitos de alelos recessivos. Um exemplo de dominância ocorre na presença de chifres, e se acasalarmos um touro mocho da raça Angus com vacas aspadas, a progênie
será toda mocha. Neste caso, o caráter mocho é dominante e a presença de chifres é recessiva. Também em bovinos a pelagem preta é dominante sobre a pelagem vermelha. Em alguns casos não existe dominância entre os alelos e seus efeitos se somam, produzindo progênies intermediárias. Na raça Shorthorn, se acasalarmos um animal de pelagem vermelha com um de pelagem branca, a progênie será rosilha e, portanto, uma mescla das duas anteriores. Também a maior parte da variação genética em características quantitativas (pesos, ganhos de peso, perímetro escrotal, intervalo entre partos, etc.) é devida a efeitos aditivos de um grande número de genes. Um exemplo de dominância é apresentado na Figura 1, onde (B) e (b) são usados, respectivamente, para representar o alelo dominante preto e o alelo recessivo vermelho. Um macho homozigoto preto (BB) é acasalado com uma fêmea vermelha homozigota (bb) para produzir progênie heterozigota (Bb) que será fenotipicamente preta. O acasalamento entre estes heterozigotos produzirá progênies pretas e vermelhas na proporção de 3:1. 1.4. Homozigotos e heterozigotos Os animais podem ser homozigotos ou heterozigotos em relação ao par de alelos de um determinado gene. No exemplo da Figura 1, o macho preto (BB) e a fêmea vermelha (bb) são homozigotos em relação à pelagem, pois os alelos neste par são iguais. Por sua vez, a progênieé heterozigota (Bb), pois os alelos do par são diferentes. O acasalamento entre homozigotos produz progênie uniforme, já o acasalamento entre heterozigotos produz uma gama de genótipos e fenótipos. Usando o exemplo anterior, quando acasalamos entre homozigotos pretos (BB) ou vermelhos (bb) a progênie será toda uniforme, idêntica aos pais. Contudo, se homozigotos BB e bb são acasalados a progênie será toda heterozigota (Bb). O acasalamento entre heterozigotos pretos (Bb) produzirá animais pretos (BB - homozigotos e Bb - heterozigotos) e vermelhos (bb).

2 – Ferramentas para o melhoramento genético

2.1. Seleção A seleção é o processo de decidir quais animais serão os pais da próxima geração. Se os animais mantidos ou adquiridos para a reprodução possuírem um “valor genético” superior ao dos eliminados,

Pensamento do mês