1 de fev. de 2017

BIOCONVERSÃO DA PALMA FORRAGEIRA ALTERNATIVA ALIMENTAR PARA PEQUENOS RUMINANTES



Por: Lúcia de Fátima Araújo - Emepa / Evaneusa Alves de Brito - Emepa / Miguel Barreiro Neto - Embrapa/Emepa / Salvino de Oliveira Júnior - Emepa / Elson Soares dos Santos - Emepa

O crescimento e a modernização do agronegócio da ovinocultura de corte, com o uso de ovinos de raças especializadas e seus cruzamentos para produção de carne, exigem o
desenvolvimento de tecnologias alternativas para melhorar o valor nutricional de forragens que possam ser utilizadas na alimentação dos animais, visando à melhoria dos níveis produtivos dos rebanhos. Com o crescimento da ovinocultura no semi-árido paraibano, a Empresa Estadual de Pesquisa Agropecuária da Paraíba vem aprimorando o nível técnico-científico e agilizando as condições de desenvolvimento dessa atividade na região, uma vez que há uma distribuição irregular das chuvas, associada a um manejo de pastagens deficientes, resultando em uma baixa disponibilidade de forragem no período seco do ano. Nesta época, os criadores da região recorrem ao uso de concentrados comerciais para uma suplementação protéica para suprir as necessidades nutritivas do rebanho. No entanto, os freqüentes aumentos dos preços dos concentrados industriais utilizados na suplementação
proteica da dieta animal, vêm tornando a atividade antieconômica, estimulando o aproveitamento de alimentos não convencionais. Dentre os produtos que podem substituir os suplementos convencionais, destacam-se os microrganismos: algas, fungos filamentosos e leveduras, considerados uma fonte unicelular de elevado teor proteico, além de possuírem um rápido crescimento e possibilidade de cultivo em diversos substratos. Em confronto com os concentrados comerciais, a palma forrageira enriquecida com fungos adequados pode equiparar seu valor nutricional, pois será acrescida de proteína microbiana e de minerais como fosfato, potássio, além de vitaminas do complexo B. As características da agropecuária na região demonstram a necessidade tecnológica para propiciar aumentos dos índices de produtividade dos rebanhos, por meio da aplicação do processo de bioconversão da palma forrageira, obtendo um produto de alto valor agregado. A palma forrageira enriquecida com
levedura Saccharomyces cerevisiae pode ser produzida na propriedade rural, uma vez que o processo utilizado é prático e economicamente viável, tornando-se uma alternativa de fácil incorporação nos sistemas de produção animal na região. A tecnologia da bioconversão da palma forrageira contribuirá para minimizar a carência alimentar na época crítica do ano, fazendo parte na alimentação de pequenos ruminantes em crescimento, nas dietas de mantença e desempenho corporal, no semiárido paraibano.

LOCAL DE REALIZAÇÃO DA PESQUISA

A pesquisa foi realizada na Estação Experimental de Pendência, no semiárido paraibano, no período de janeiro a dezembro de 2006.

TÉCNICA PARA BIOCONVERSÃO DA PALMA FORRAGEIRA

A técnica para aumentar o valor nutricional da palma forrageira foi por meio do processo biotecnológico utilizando o crescimento da levedura Saccharomyces cerevisiae em fermentação semi-sólida (FSS). Na fermentação semi-sólida, o meio de cultura é composto de substratos sólidos, com um determinado teor de umidade. Assim, a água torna-se um fator limitante, uma das principais vantagens do processo. Quando comparada com a fermentação submersa (FSm), o processo em estado semi-sólido apresenta as seguintes vantagens operacionais: adição de pequeno volume de água, permitindo a recuperação do produto com baixos gastos de energia; baixa umidade requerida para obter-se um rendimento máximo do produto; o espaço requerido pelo reator ou fermentador é pequeno
em relação ao rendimento do produto; não é necessário tanque de germinação, uma vez que os microrganismos são inoculados diretamente no substrato - palma forrageira -; há necessidade de pouco controle do processo, a produção de enzimas, ácidos orgânicos e alimentos com fins lucrativos.

OBTENÇÃO DO PRODUTO DA BIOCONVERSÃO DA PALMA FORRAGEIRA

Selecionar os cladódios, retirando aqueles que não apresentarem bom aspecto fitossanitário. Como pré-tratamento físico, realizar a trituração da palma em máquina forrageira. O inóculo será efetuado a partir do fermento biológico (levedura) úmido mantido em refrigeração, tendo sua multiplicação obtida no próprio meio (substrato formado pela palma triturada). Realizar o cultivo em baldes plásticos - biorreatores sem aeração forçada e colocá-los em área coberta para evitar a penetração dos raios solares, chuvas e predadores. O substrato, após inoculado, ficará nos biorreatores por um período de 12
horas de fermentação para ser oferecido aos animais.

MICRORGANISMO UTILIZADO NO PROCESSO FERMENTATIVO

O microrganismo utilizado nas operações do processo foi a levedura Saccharomyces cerevisiae, prensada do tipo fermento biológico fresco, com umidade de 80% (b.u), com média de 45% de proteína bruta (PB). A eficiência da conversão proteica por leveduras depende de fatores como temperatura, suprimento de oxigênio e disponibilidade de nutrientes. O tempo médio para dobrar o teor proteico é de apenas 5 horas de fermentação. A escolha do microrganismo adequado é o resultado do sucesso da produção do bioproduto desejado. Portanto, a produção de leveduras pode ser resultante dos processos exclusivamente destinados a sua propagação, que são
denominados leveduras primárias, que é o caso do fermento biológico, enquanto as leveduras obtidas como subprodutos de outras indústrias
fermentativas são denominadas de leveduras secundárias, embora sejam da mesma espécie. O crescimento de microrganismos por fermentação em meio semi-sólido, buscando-se tecnologia adaptada às condições rurais, está se tornando atrativo, com chances reais de chegar a um processo economicamente viável, principalmente, para minimizar as graves distorções regionais que afetam o país. Além disto, poderá facilitar a fixação do homem do campo na região do semiárido do Nordeste.

Substrato

O substrato utilizado foi palma forrageira (Opuntia fícus-indica Mill) da variedade gigante, que tem se constituído em fonte potencial de água e forragem para os animais, nos prolongados períodos de estiagem da região semiárida. Nesta região está plantada grande área de palma forrageira, cerca de 550 mil
hectares. Embora possua características adaptáveis ás condições adversas da região, a palma forrageira apresenta limitações em relação ao teor de matéria seca, fibra, proteínas e vitaminas, mostrando-se inferior as outras culturas forrageiras como o sorgo, milho, capim e outros. Portanto, a palma forrageira é rica em carboidratos solúveis que são utilizados pelos microrganismos para síntese de proteína.

RESULTADOS

Pela Tabela 1, a dieta contendo 20% palma forrageira com 2% de inoculação da levedura, na terminação de cordeiros, proporcionou melhores resultados de ganho de peso diário (0,494 kg animal- 1), conversão alimentar (2,5) e consumo diário de matéria seca (1,2 kg
Entenda porque Bahia Red Sindhi
animal-1), obtidos no período de 14  dias de confinamento. A palma forrageira enriquecida com levedura resulta em um bioproduto de alto valor agregado para ser utilizado na alimentação de cordeiros em terminação. Obteve-se teor proteico de 9,7 a um custo de R$ 0,15 por quilo do bioproduto, inoculando a levedura a 2% do total de substrato (Tabela 2). Comparativamente, uma tonelada do bioproduto custa R$ 150,00 enquanto a mesma quantidade de milho e sorgo, em grãos, custa R$ 800,00 e R$ 520,00, respectivamente, demonstrando a viabilidade econômica do processo de bioconversão da palma forrageira por meio da levedura Saccharomyces cerevisiae.

CONCLUSÕES

·A bioconversão da palma forrageira em bioproduto de alto valor agregado, similar ou melhor do que alguns concentrados convencionais, é uma alternativa alimentar para os sistemas de produção animal no semiárido.

·O tratamento da palma forrageira com inoculação de 2% de levedura é economicamente viável e proporciona um enriquecimento cerca de 100% do teor de proteína bruta em relação ao valor encontrado na forma in natura.
Fonte: Tecnol. & Ciên. Agropec., João Pessoa, v.1, n.1, p.59-61, set. 2007

1 de jan. de 2017

RETROSPECTIVA E PERSPECTIVAS DE CRUZAMENTOS NO BRASIL



Kepler Euclides Filho - Embrapa Gado de Corte

Geraldo Ramos de Figueiredo - Embrapa Gado de Corte 
1. Introdução

Analisando-se a pecuária de corte de regiões tropicais percebe-se que a produção de bovinos com esse propósito vem sendo baseada, de modo geral, em genótipos de origem zebuína ou com grandes proporções de genes de animais Bos indicus. Além da relação direta com o clima, essa predominância pode ser creditada a várias razões, algumas das quais contaram ou ainda contam com a participação proposital do homem. Dentre elas, válida especialmente para o continente africano e Índia, podemos destacar a que diz respeito à presença de animais dessa espécie, quer sejam nativos por origem, ou mesmo introduzidos há centenas de anos, e portanto, totalmente adaptados; a segunda razão é resultante de introduções de animais dessa espécie seguida de cruzamentos absorventes. Nesse caso, grande parte do sucesso, pelo menos o inicial, fundamentou-se, muito
possivelmente, nos benefícios da heterose obtida com os primeiros cruzamentos e provavelmente, na combinação fortuita de efeitos genéticos aditivos importantes. Um dos maiores exemplos dessa situação pode, de modo geral, ser observado na América Latina Tropical e, particularmente, no Brasil onde a presença de bovinos de origem européia já era constatada nas primeiras décadas após seu descobrimento. Esses animais e seus descendentes, oriundos de cruzamentos ou não, tiveram e têm importância fundamental na ocupação, no desbravamento, na colonização, na alimentação, no trabalho, no transporte, enfim, no desenvolvimento do país. Mais recentemente, além de continuarem marcando presença, passaram a se constituir em importantes componentes de uma cadeia produtiva de fundamental importância social e econômica para diversos países localizados em regiões tropicais e subtropicais. Provavelmente, a definitiva introdução do Zebu indiano no Brasil tenha ocorrido por volta de 1903, a partir de observações e estudos realizados pelo


Zootecnista Joaquim Carlos Travassos, citado por Santhiago, A.A (1986). Utilizando-se, principalmente, do periódico Tropical Agriculturist surpreendeu-se com o fato de os ingleses, colonizadores do Ceilão, não tivessem introduzido ali um só exemplar das raças inglesas, povoando o país apenas com gado indiano. Posteriormente, concluiu que na Índia existia inúmeras raças de gado com boa conformação para peso e produção de leite, que, embora não pudessem rivalizar com as raças européias, melhoradas ha mais de séculos, tinha a vantagem incontestável da grande rusticidade e a resistência aos principais parasitos presentes em nossas condições de clima mais ou menos semelhantes às das regiões de origem. Pode-se concluir, a partir das observações dos estudiosos da época, que as raças zebuínas deixavam a desejar nos aspectos produtivos quando comparadas às européias que, entretanto, não se adaptavam às condições médias do clima tropical. Um século depois, e principalmente nas duas últimas décadas, as diferenças de desempenho
produtivo entre as raças continuam existindo, mas se estreitaram de forma significativa, como resultado dos trabalhos de criadores isolados, associações, instituições de ensino e pesquisa, de técnicos em geral e a mudança de filosofia em julgamento de animais que, além das características raciais, passaram a dar importância aos aspectos relacionados à produtividade. Estas ações têm contribuído efetivamente para a melhoria genética dessa espécie resultando em aumento da produtividade final do setor. A busca por genótipos adaptados às nossas condições médias de clima e com características produtivas semelhantes aos dos animais europeus, provenientes de processos de seleção seculares, é um anseio antigo e exacerbado nos dias de hoje em função das mudanças que vêm ocorrendo na economia mundial com reflexos em todos os setores da economia, particularmente no da pecuária de corte. Segundo Euclides Filho & Cezar (1995), as dificuldades de se incorporarem novas áreas ao processo produtivo; o fortalecimento do Mercosul a competitividade de outras carnes e a necessidade de estruturar sistemas de produção que sejam produtivos e sustentáveis, induziram profundas mudanças no perfil tecnológico da pecuária de corte. Neste novo cenário, todo e qualquer empresário da pecuária de corte, para se manter no negócio, deve tornar a atividade competitiva, eficiente e eficaz. Dentro desta nova perspectiva, o uso de cruzamentos entre Bos taurus e Bos
indicus deve ser analisado como forma de se aumentar a produção e a produtividade de carne de qualidade em nossas condições. Diversos trabalhos, dentre eles, os de Euclides Filho et al. (1994); Rosado et al. (1991a); Norte et al. (1993); Silva & Pereira (1986); Filten et al. (1988); Manzano et al. (1986); Ribeiro & Lobato (1988); Alencar et al. (1994); Barcellos & Lobato (1992), indicam melhores desempenhos de animais mestiços em relação aos puros. Apesar disto, o uso desta ferramenta como forma de se obter melhorias no segmento da pecuária de corte, tem sido motivo de controvérsias: no passado, provavelmente devido à não observância do adequado ajuste do binômio genótipo ambiente, uso de programas sem objetivos definidos, mão-de-obra e infra-estrutura inadequadas, o não atendimento das maiores exigências nutricionais de animais com maiores potenciais de desempenho, etc. fizeram que muitos produtos mestiços fossem, pejorativamente, denominados “tucuras”. Atualmente, ao lado destes entraves que, ainda não foram totalmente resolvidos pelos diversos segmentos da cadeia produtiva, surgiram outras ameaças aos mestiços; os criadores de animais puros zebuínos modernizaram seus critérios de seleção priorizando características de importância econômica, como fertilidade, qualidade de carne, ganho de peso, rendimento etc. e passaram a utilizar de programas de seleção modernos e eficientes. Como resultado, observamos o grande incremento em produtividade obtido pelos Zebu, constituindo, também, em alternativa segura para os produtores comerciais. Além disto, a colocação na indústria frigorífica de uma grande quantidade de animais mestiços provenientes de outra atividade, animais estes, sem as características desejáveis para corte, causaram certa retração no mercado de mestiços, desestimulando os criadores que utilizam de cruzamento industrial para produzir carne de qualidade de forma eficiente. Dentro deste cenário, a decisão de adoção desta ferramenta , mais do que nunca, deve ser
precedida de criteriosa análise do sistema de produção e dos diversos segmentos componentes da cadeia produtiva. A heterose é, e continuará sendo, uma importe forma de melhoria dos índices produtivos, porém, não pode ser indicada com solução eficiente para todos os sistemas de produção, principalmente para o Brasil, país de dimensões continentais e, consequentemente com grandes diferenças climáticas. As indicações do uso de cruzamentos devem ser reorientadas no sentido de demonstrar suas vantagens em ambientes propícios com o foco principal na produção de carne de qualidade, sem contudo, desmerecer as demais vantagens que esta ferramenta pode oferecer quando centrada em projetos bem elaborados.

2. Principais trabalhos de cruzamentos realizados no Brasil.

2.1. Cruzamento Absorvente

PRODUTOS BRS

Provavelmente, tenha sido a primeira experiência de aplicação desta tecnologia no Brasil. Os pecuaristas e os estudiosos de zootecnia, logo após as primeiras importações, se aperceberam do melhor desempenho dos animais provenientes da Índia e optaram pela substituição da genética predominante no país, por outra que proporcionasse melhores ganhos. Este tipo de cruzamento, também chamado de contínuo, consiste na utilização sistemática de touros da nova raça que se deseja estabelecer sobre fêmeas da raça que se deseja substituir, onde, os machos das gerações subsequentes são, sistematicamente encaminhados ao abate e as fêmeas são utilizadas na reprodução, aumentando progressivamente a percentagem de sangue melhorador. Segundo Santiago, A.A. (1975), este é o recurso mais simples e menos dispendioso para a gradual substituição de populações, evitando despesas de importações maciças de reprodutores e problemas de adaptação ao novo meio ambiente. De modo geral, os produtos da quinta geração são considerados puros por cruza(PC), ou seja, a raça que serviu de base ao cruzamento foi completamente absorvida pela raça melhoradora.

3. Cruzamentos visando formação de novas raças.

3.1. O Indubrasil 
Com o aumento do efetivo zebuíno, obtido por importações ou através de cruzamentos absorventes e as dificuldades de novas importações de gado da índia impostas pela Peste bovina, os criadores da época, principalmente os do Triângulo Mineiro, passaram a buscar novas alternativas de melhoria dos planteis existentes. Observaram, então, que os produtos oriundos de acasalamentos entre raças, apresentavam melhores desempenhos de pesos, ganhos de peso e precocidade, uma conseqüência benéfica dos efeitos da heterose. Segundo Santiago, A.A.(1975), desses acasalamentos, a princípio desordenados, surgiu um novo tipo, de pelagem geralmente branca ou cinza, orelhas muito grandes, cupim e
barbela bem desenvolvidos. O desconhecimento dos padrões das raças zebuínas e as dificuldades de distinguir os Zebus puros de mestiços de alta cruza com gado europeu levaram a maioria dos criadores a darem maior importância a animais com as características deste novo grupamento, ou seja, com barbela e umbigos avantajados, cupim volumoso e orelhas grandes e pendulosas. Esta era a forma de se diferenciar Zebu de europeu. Os trabalhos de formação e seleção da nova raça ocorreram com mais intensidade na região de

1 de dez. de 2016

PALMA FORRAGEIRA NO NORDESTE DO BRASIL: ESTADO DA ARTE

Juliana Evangelista da Silva Rocha 
Pesquisadora, D. Sc., da Embrapa Caprinos e Ovinos 
Embrapa Caprinos e Ovinos Sobral, CE 2012
Apresentação 
A região semiárida é caracterizada pela instabilidade climática, limitando às atividades agropecuárias no Nordeste.  A concentração das chuvas em poucos meses do ano acarretam em estacionalidade de produção, com redução da disponibilidade de forragem no período seco e impactos negativos sobre a viabilidade técnica e econômica da produção animal. Neste cenário a palma forrageira se destaca como planta forrageira ideal para mitigar os efeitos do baixo rendimento da pecuária no semiárido. Se bem manejada, a palma é capaz de atingir altas produtividades, garantindo a suplementação dos animais. Pelas composições químicas não é recomendada em uso exclusivo, mas principalmente compondo o balanço nutricional da dieta e ofertando água aos animais. Por ser uma planta CAM, apresenta-se exigente em temperatura noturna amena e elevada umidade relativa do ar para o bom desenvolvimento, e estas características impedem que as atuais cultivares sejam plantadas em regiões de baixa altitude. Entretanto, existe variabilidade genética suficiente para ser explorada em programas de melhoramento, visando identificar materiais mais adaptados. Outro ponto focal nas pesquisas com palma forrageira é o desenvolvimento de cultivares resistentes à principal praga, a cochonilha. Mudanças climáticas, recuperação de áreas degradadas e múltiplos usos são perspectivas de aumento na área plantada e na procura por informações sobre a cultura. O Estado da Arte da Palma Forrageira no Nordeste do Brasil enfatiza a necessidade de incrementar as pesquisas com esta forrageira no semiárido. Evandro Vasconcelos Holanda Júnior - Chefe-Geral  da  Embrapa  Caprinos  e  Ovinos 
Introdução 
No Brasil sua introdução ocorreu no final do século XVIII (SIMÕES et al., 2005). A priori, era destinada à criação de uma cochonilha (Dactylopius cocus) capaz de produzir corante (LIRA et al., 2006). Logo em seguida, a planta passou a ser usada como ornamental. E somente no início do século XX, como planta forrageira. Esse último uso se intensificou na década de 90 quando ocorreram secas prolongadas no Nordeste (ALBUQUERQUE, 2000; SIMÕES et al., 2005).

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A área de cultivo no Brasil é superior a 500 mil hectares (MOURA et al., 2011), predominantemente no Nordeste. Adaptou-se bem ao semiárido por apresentar aspectos fisiológicos que permitem seu pleno desenvolvimento em condições adversas (TELES et al., 2002) e por se constituir alternativa energética de baixo custo (SILVA; SANTOS, 2006). Os aspectos fisiológicos que tornam a palma uma opção interessante para zonas áridas e semiáridas estão ligados à cutícula impermeável, ao menor número de estômatos e ao aparelho fotossintético. Classificada como planta CAM, tem a capacidade de captar a energia solar durante o dia e fixar o CO2 durante a noite, reduzindo a perda de água por evapotranspiração (RAMOS et al., 2011; SAMPAIO, 2005). Consequentemente, obtém maior eficiência no uso da água, sendo 10 vezes mais eficientes que numa planta C3 (LIRA et al., 2005). A cutícula impermeável garante a manutenção do equilíbrio hídrico, retendo água no interior da planta, protegendo contra o ataque de insetos e micro-organismos, refletindo a luz, reduzindo a temperatura interna e regulando a entrada e saída de oxigênio e gás carbônico. É considerada uma das melhores opções para a produção de forragem em sistema de sequeiro no semiárido, com capacidade de atingir altas produtividades de biomassa por área, sendo a cultura mais estável ao longo do tempo (MENEZES et al., 2005b). Sua estabilidade está associada à disponibilidade ao consumo dos animais, mesmo sob período de estiagem prolongada (SILVA; SANTOS, 2006), e pela capacidade de ser armazenada em campo.

A instabilidade climática é a grande limitação às atividades agropecuárias no Nordeste (CAVALCANTE; CÂNDIDO, 2003), gerando a estacionalidade na produção de forragem. Entretanto, a pecuária do semiárido possui outros entraves, como a falta de recursos do sertanejo, e a estrutura fundiária marcada pela predominância de propriedades de pequeno porte, possivelmente pela alta densidade demográfica (LIRA et al., 2005). Assim, custo e disponibilidade de forragem se tornam determinantes na composição da dieta dos animais. Por esses motivos, a palma integra o elenco de medidas comumente prescritas para mitigar os efeitos das secas através de esforços de programas federais desde a década de 1930 (SIMÕES  et al., 2005).

No Nordeste, o primeiro Estado a introduzir e pesquisar palma foi Pernambuco (LIRA et al., 2006), e até os dias atuais se destaca como grande líder na produção de conhecimento da espécie. O sucesso dos trabalhos no Estado é devido à boa adaptação da planta ao clima do agreste.

Clima e Solo

A palma forrageira é uma planta rústica que tem um bom desenvolvimento em região com pouca chuva. Entretanto, informações sobre umidade do ar e do solo, temperatura média do dia e da noite são determinantes na produção. Para determinar as faixas de aptidão para o cultivo de palma, Souza et al. (2008) elaboraram um zoneamento agroclimático, usando como ferramentas essenciais, as informações da fenologia e das características da cultura, associados às condições climáticas das regiões de origem e à dispersão comercial da palma forrageira. O zoneamento é de fundamental
CAVOUCO D
importância para o planejamento, a tomada de decisões e a identificação de áreas com potencial produtivo para ao cultivo de palma (MOURA et al., 2011). De acordo com esse zoneamento, o potencial produtivo ocorre em regiões cuja temperatura média oscila entre 16,1 °C e 25,4 °C; com máximas entre 28,5 °C e 31,5 °C e mínimas variando de 8,6 °C a 20,4°C. A amplitude térmica está situada entre 10,0 °C e 17,2 °C. A faixa ideal de precipitação se concentra entre 368,4 mm e 812,4 mm, embora possa ser cultivada com 200 mm, e o índice de umidade anual varia entre -63,1 e -37,3.

O crescimento da palma é favorecido nas maiores altitudes, devido à redução da temperatura do ar e ao aumento da umidade relativa no período noturno (55%-60%) (FARIAS et al., 2005). As espécies do gênero Opuntia não se adaptam a regiões de baixa altitude, às elevadas temperaturas noturnas e à baixa amplitude térmica. Isso ocorre em algumas regiões do semiárido e são a causa da baixa produtividade e até mesmo da morte da palma (SANTOS et al., 2006), a exemplos do município de Sobral no Ceará (LIRA et al., 2006) e das áreas baixas do Seridó e do Sertão Central do Rio Grande do Norte (LIMA et al., 2006). Relativamente exigente quanto às características físico-químicas do solo, o cultivo de palma pode ser indicado em áreas de textura arenosa à argilosa, sendo, porém, mais frequentemente recomendados os solos argilo-arenosos. Além da fertilidade, é fundamental, também, que o solo seja de boa drenagem, uma vez que áreas sujeitas a encharcamento não se prestam ao cultivo da palma (SANTOS et al., 2006). O cultivo também é inviável em regiões cuja precipitação anual é superior a 1100 mm (SOUZA et al., 2008).

Plantio e Manejo

A palma responde positivamente à melhoria nas práticas de cultivo. Portanto, quanto mais adequado for o seu manejo, maior será a sua produção (FARIAS et al., 2005).Para o preparo do solo, é recomendado aração, subsolagem, gradagem e profundidade dos sulcos de aproximadamente 20 cm (SILVA et al., 2004). O espaçamento a ser usado é variável com a fertilidade do solo, a quantidade de chuva (TELES et al., 2002), o número de plantas que se deseja por hectare e do uso isolado ou consorciado do campo (RAMOS et al., 2011). Na Tabela 1 constam alguns exemplos de espaçamentos e o número de plantas por hectare, devendo o agricultor definir suas prioridades.


Plantios mais adensados vêm sendo difundidos no Nordeste (mais de 60.000 plantas/ha) por produzirem maior quantidade de MS por hectare (LIRA et al., 2006), em função do maior número de brotações por unidade de área (DUBEUX JUNIOR; SANTOS, 2005). Entretanto, têm maior dependência de insumos externos (adubos químicos e corretivos) (TELES et al., 2002) e devem ser evitados nas regiões onde existe incidência da cochonilha do Carmim, pois podem garantir a permanência da praga e facilitar a infestação da cultura (ALBUQUERQUE, 2000).

Em contrapartida, a maior distância entre as fileiras permite trânsito de máquinas, facilidades nos tratos culturais (capina e fitossanitários), monitoramento sanitário e ainda permitem o consórcio do palmal com culturas anuais (FARIAS et al., 2000). Ramos et al. (2011) acrescentam como vantagem o menor risco na incidência de pragas e doenças pela maior exposição das plantas ao sol e aeração. A desvantagem é que a menor densidade exigirá maior controle das plantas daninhas (LIRA et al., 2005). A Figura 1 mostra um plantio mais adensado, usando 50 cm entre linhas e outro mais espaçado, com 1 metro de distância entre uma linha de plantio e outra. A utilização de culturas anuais, como milho, sorgo (Figura 2), feijão (Figura 3), mandioca etc., intercaladas com a palma, tem sido adotada com objetivo de viabilizar o cultivo em termos econômicos (SANTOS et al., 2006). O consórcio também pode ser feito em palmais mais adensados nos anos de plantio e de colheita. É importante enfatizar que a situação ideal de espaçamento é aquela em que a maior parte da luminosidade atinja as raquetes, sem haver sombreamento das mesmas (SAMPAIO, 2005).

Para adubação, Albuquerque (2000) encontrou melhor resposta no

3 de nov. de 2016

Palma Forrageira (Opuntia Fícus- Indica Mill) como alternativa na alimentação de ruminantes

Cristina Cavalcante Félix da Silva1 e Luciana Carvalho Santos2
1Mestre em Zootecnia, UESB – Itapetinga, BA. cristina.zte@pop.com.br
2Mestranda em Zootecnia, UESB – Itapetinga, BA. llcarvalhos@yahoo.com.br
Fonte: Revista Electrónica de Veterinaria REDVET ISSN 1695-7504 http://www.veterinaria.org/revistas/redvet
Resumo
A exploração pecuária na região Nordeste é prejudicada pelas constantes secas e irregularidade das chuvas, causando assim, uma baixa produtividade de seu rebanho. Considerando essa má distribuição de chuvas, é necessária a busca de alimentos alternativos e mais baratos, como a palma forrageira. A palma forrageira sem espinho não é nativa do Brasil. No Nordeste do Brasil são encontrados três tipos distintos de palma: gigante, redonda e miúda. Essa forrageira apresenta alta produção de matéria seca por unidades de área, é uma excelente fonte de energia, rica em carboidratos não fibrosos e nutrientes digestíveis totais. Porém, a palma apresenta baixo teor de fibra em detergente neutro, necessitando sua associação a uma fonte de fibra que apresente alta efetividade. Assim, torna-se possível a associação da palma com alimentos de baixo custo, permitindo produção de leite e manutenção em níveis bastante próximos aos obtidos com alimentos de maior valor comercial. Com isso, esta revisão tem por objetivo demonstrar a eficiência da utilização da palma forrageira na alimentação de ruminantes.
Introdução
Devido à influência da irregularidade de distribuição das chuvas sobre a alimentação de ruminantes nas regiões semi-áridas é necessário buscar alternativas para a alimentação do rebanho. Segundo o IBGE (2001) a região nordeste do Brasil apresenta um rebanho bovino de 21.875.110 cabeças, 7.336.985 ovinos e 8.032.529 caprinos, representando, respectivamente, 13,2%, 51% e 93% do rebanho brasileiro.
A maioria dessa população tem como base alimentar a utilização de pastagens nativas ou cultivadas, no entanto, com a estacionalidade de produção das forrageiras é necessária a busca de alimentos alternativos. Na época das chuvas a disponibilidade de forragens é quantitativamente e qualitativamente satisfatória, todavia nas épocas críticas do ano, além da escassez de forragens o valor nutritivo se apresenta em níveis bastante baixos o que acarreta queda de produtividade e compromete a produção de leite e carne (Lima et al., 2004). Tradicionalmente, utiliza-se como concentrado energético o fubá de milho, numa relação de sete partes de milho e uma de uréia, substituindo a mesma quantidade de farelo de soja. Mas a utilização de fubá de milho como fonte energética, também pode comprometer custos de produção, por não ser produzido em larga escala no Semi-Árido Pernambucano. Assim, uma alternativa seria a utilização de uma fonte energética de menor custo e disponível na região (Melo et al., 2003). Neste caso, poderia ter como alternativa para as regiões semi-áridas do Brasil a utilização da palma forrageira. A palma forrageira sem espinho não é nativa do Brasil, foi introduzida por volta de 1880, em Pernambuco, através de sementes importadas do Texas-

Estados Unidos. No Nordeste do Brasil são encontrados três tipos distintos de palma: a) gigante - da espécie Opuntia fícus indica; b) redonda – (Opuntia sp); e miúda - (Nopalea cochenilifera). A palma forrageira, em regiões do semi-árido, é a base da alimentação dos ruminantes, pois é uma cultura adaptada às condições edafoclimáticas e além de apresentar altas produções de matéria seca por unidades de área. É uma excelente fonte de energia, rica em carboidratos não fibrosos, 61,79% (Wanderley et al., 2002) e nutrientes digestíveis totais, 62% (Melo et al., 2003). Porém a palma apresenta baixos teores de fibra em detergente neutro, em torno de 26% (FDN), necessitando sua associação a uma fonte de fibra que apresente alta efetividade (Mattos et al., 2000). Com isso, esta revisão tem por objetivo demonstrar a eficiência da utilização da palma forrageira na alimentação de ruminantes.

Revisão de Literatura
1. A palma forrageira A palma forrageira pertence à Divisão: Embryophyta, Sub-divisão: Angiospermea, Classe: Dicotyledoneae, Sub-classe: Archiclamideae, Ordem: Opuntiales e família das cactáceas. Nessa família, existem 178 gêneros com cerca de 2.000 espécies
conhecidas. Todavia nos gêneros Opuntia e Nopalea, estão presentes às espécies de palma mais utilizadas como forrageiras. Existem três espécies de palma encontradas no Nordeste do Brasil, a palma gigante, palma redonda e palma miúda. a) Palma gigante- chamada também de graúda, azeda ou santa. Pertence à espécie Opuntia fícus indica; são plantas de porte bem desenvolvido e caule menos ramificado, o que lhes transmite um aspecto mais ereto e crescimento vertical pouco frondoso. Sua raquete pesa cerca de 1 kg, apresentando até 50 cm de comprimento, forma oval-elíptica ou sub-ovalada, coloração verde-fosco. As flores são hermafroditas, de tamanho médio, coloração amarelobrilhante e cuja corola fica aberta na antese. O fruto é uma baga ovóide, grande, de cor amarela, passando à roxa quando madura. Essa palma é considerada a mais produtiva e mais resistente às regiões secas, no entanto é menos palatável e de menor valor nutricional. b) Palma redonda (Opuntia sp.)- é originada da palma gigante, são plantas de porte médio e caule muito ramificado lateralmente, prejudicando assim o crescimento vertical. Sua

raquete pesa cerca de 1,8 kg, possuindo quase 40 cm de comprimento, de forma arredondada e ovóide. Apresenta grandes rendimentos de um material mais tenro e palatável que a palma gigante. c) Palma doce ou miúda- da espécie Nopalea cochenilifera, são plantas de porte pequeno e caule bastante ramificado. Sua raquete pesa cerca de 350 g, possuem quase 25 cm de comprimento, forma acentuadamente obovada (ápice mais largo que a base) e coloração verde intenso brilhante. As flores são vermelhas e sua corola permanece meio fechada durante o ciclo. O fruto é uma baga de coloração roxa. Comparando com as duas anteriores esta é a mais nutritiva e apreciada pelo gado (palatável), porém apresenta uma menor resistência à seca. Nos três tipos, as raquetes são cobertas por uma cutícula que controla a evaporação, permitindo o armazenamento de água (90-93% de água). As três espécies mencionadas não possuem espinhos (são inermes) e foram obtidas pelo geneticista Burbanks, a partir de espécies com espinhos. Foram introduzidas no Brasil por volta de 1880, em Pernambuco, através de sementes vindas do Texas, nos Estados Unidos, onde demonstraram grande utilidade. Não toleram umidade excessiva e em solos profundos apresentam extraordinária capacidade de


extração de água do solo, a ponto de possuir cerca de 90-93% de umidade, o que torna importantíssima para a região do polígono das secas. (Pupo, 1979). Atualmente, estima-se que, pela ocorrência de severas estiagens nos últimos anos, área superior a 400.000 ha esteja sendo utilizada com o cultivo das palmas forrageiras, constituindo-se em uma das principais fontes de alimento para o gado leiteiro na época seca do ano (Mattos et al., 2000). A palma apresenta-se como uma alternativa para as regiões áridas e semi-áridas do nordeste brasileiro, visto que é uma cultura que apresenta aspecto fisiológico especial quanto à absorção, aproveitamento e perda de água, sendo bem adaptada às condições adversas do semi-árido, suportando prolongados períodos de estiagem. A presença da palma da dieta dos ruminantes nesse período de seca ajuda aos animais a suprir grande parte da água necessária do corpo. Segundo Silva et al. (1997) um fator importante da palma, é que diferentemente de outras forragens, apresenta alta taxa de digestão ruminal, sendo a matéria seca degradada extensa e rapidamente, favorecendo maior taxa de passagem e,
PRODUTOS BRS
consequentemente, consumo semelhante ao dos concentrados. A palma frequentemente representa a maior parte do alimento fornecido aos animais durante o período de estiagem nas regiões dos semi-árido nordestino, o que é justificado pelas seguintes qualidades: a) bastante rica em água, mucilagem e resíduo mineral; b) apresentam alto coeficiente de digestibilidade da matéria seca e c) tem alta produtividade. Como qualquer outra planta, a palma necessita de

26 de set. de 2016

O SISTEMA DE PRODUÇÃO AGRÍCOLA SOLO-PLANTA-CLIMA


Por: Joelito de Oliveira Rezende 
Engenheiro Agrônomo, diplomado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA); Doutor em Solos e Nutrição de Plantas, diplomado pela USP – ESALQ; pós-doutorado na Universidade de Valência, Espanha; Professor Titular Aposentado do CCAAB/UFRB;Membro da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Citricultura do Estado da Bahia. 
Luciano da Silva Souza 
Engenheiro Agrônomo, diplomado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA);Doutor em Ciência do Solo, diplomado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Pesquisador Aposentado da Embrapa Mandioca e Fruticultura; Professor Adjunto do Centro de Ciências Agrárias, Ambientais e Bológicas, da UFRB. 
Roberto Toyohiro Shibata
Engenheiro Agrônomo, diplomado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA); Empresário-citricultor, proprietário da Fazenda Lagoa do Coco, Município de Rio Real, Bahia. 

Sistema pode ser definido como um conjunto de partes que, coordenadas entre si, contribuem para certo fim. A produção agrícola - alimento, fibras e material para abrigo – é obtida pelo homem de um sistema naturalmente montado formado por três partes principais: o solo, a planta e o clima (Figura 1).
   
A explotação desse sistema pelo homem, para que seja permanente e garanta sua sobrevivência, requer que suas partes sejam compreendidas no que concerne às suas respectivas constituições (natureza) e comportamentos (reações a estímulos externos). É necessário, ainda, que se conheçam e se compreendam as interações entre tais partes, especialmente as que afetam a produção agrícola (MARCOS, 1983). 
O clima 
Clima é o nome que se dá à capacidade do ambiente externo de fornecer oxigênio, gás carbônico, calor, luz e água ao vegetal e ao solo; tem efeitos diretos sobre o vegetal e, também, efeitos indiretos por meio do solo (MARCOS, 1983). Como condicionante dos cultivos interfere em todas as fases de desenvolvimento das plantas, ou seja, na adaptação da variedade, no comportamento fenológico, na abertura floral, na curva de maturação, na taxa de crescimento, nas características físicas e químicas do fruto e no potencial de produção (SILVA et al., 2004).
A planta 
A Planta tem um potencial genético que lhe é intrínseco e particular; tal potencial significa capacidade intrínseca do organismo vegetal em utilizar elementos substâncias e energia, captados do solo e do clima, e transformá-los em material que é colhido pelo homem, em geral, na forma de algum dos órgãos ou partes do vegetal e, mais raramente, como todo o vegetal. Não há combinação de solo e clima que possa resultar em produção que ultrapasse o potencial genético do vegetal – a produção máxima é limitada por esse potencial (MARCOS, 1983).
O solo
 
O solo é um corpo natural independente na paisagem, com morfologia própria, resultado da combinação do clima, organismos, relevo, material de origem e tempo. A morfologia de cada solo, representada pelo seu perfil, reflete o efeito combinado desse conjunto particular de fatores genéticos responsáveis pelo seu desenvolvimento (Figura 2).
“Trata-se de um componente da biosfera terrestre fundamental não apenas para a produção de alimentos e fibras, mas também para a manutenção da qualidade ambiental e da própria vida. Sua qualidade - definida como a capacidade de sustentar a produtividade biológica, manter a qualidade ambiental e promover a saúde do homem, das plantas e dos animais - define sua potencialidade para determinada função (DORAN & PARKIN, 1994)”. Para Brady & Weil (2008), as muitas funções do solo podem ser agrupadas em seis papéis ecológicos vitais: meio para o crescimento das plantas; ambiente para reciclagem de nutrientes e resíduos em geral; modificador da atmosfera; habitat para organismos vivos; meio para obras de engenharia; suprimento e purificação de água na natureza (Figura 3).
O solo visto como meio para o crescimento de plantas 
O solo é ancoradouro para o crescimento de plantas; proporciona o ambiente onde as raízes podem crescer, fornecendo-lhes, quando contém, substâncias essenciais para a planta como um todo; atua como regulador de temperatura para o crescimento radicular e protege as plantas contra toxinas. A figura 4 mostra um perfil de solo visto como meio para o crescimento de plantas.
“O horizonte do topo do perfil do solo, usualmente denominado camada arável, é a zona principal do desenvolvimento do raizame: armazena a maioria dos nutrientes disponíveis para os vegetais e supre grande porção de água usada pelas culturas; está sujeita à manipulação e orientação; mediante cultivo apropriado (uso de matéria orgânica, fertilizantes químicos, calagem etc.), sua condição física, química e biológica poderá ser facilmente modificada; em curto prazo, sua fertilidade poderá ser elevada, reduzida ou satisfatoriamente estabilizada em níveis consentâneos com a produção econômica dos cultivos. Isso explica porque grande esforço com investigação e pesquisa de solos tem sido despendido no horizonte superficial”(BRADY, 1998).
Quanto aos horizontes subsuperficiais, “embora não possam ser vistos da superfície, há poucos usos da terra que não são influenciados pelos seus atributos: a produção agrícola é influenciada pela penetração do raizame nesses horizontes e pelo armazenamento de água, ar, elementos tóxicos e nutrientes neles contidos; de igual forma, a seleção de locais para construção e a locação de rodovias são influenciadas pelas características dos horizontes subsuperficiais. Essas considerações assumem importância prática, pois esses horizontes estão sujeitos apenas a pequenas modificações humanas, exceto a drenagem. Por conseguinte, decisões quanto ao uso da terra dependem mais da natureza dos horizontes subsuperficiais do que das características da camada arável” (BRADY, 1998).
O solo visto como um reservatório de íons 
Dos 92 elementos químicos que ocorrem na natureza, 17 já foram comprovados como essenciais para a vida das plantas, o que significa dizer que elas não poderão crescer e completar seu ciclo de vida sem eles. Os elementos essenciais utilizados pelas plantas em quantidades relativamente significativas são chamados de macronutrientes; aqueles utilizados em quantidades menores são conhecidos como micronutrientes. “Além dos nutrientes minerais essenciais mencionados, as plantas também podem absorver pequenas quantidades de compostos orgânicos do solo; no entanto, a absorção dessas substâncias não é necessária para o seu crescimento normal. Os metabólitos orgânicos, enzimas e componentes estruturais que compõem a matéria seca das plantas consistem principalmente de carbono, oxigênio e hidrogênio, que a planta obtém do ar e da água (por meio da fotossíntese) e não do solo” (BRADY & WEIL, 2008). A figura 5 mostra o solo como um reservatório de íons, destacando-se, à esquerda, o papel do hidrogênio e alumínio no pH do meio e, à direita, o símbolo e as formas absorvíveis dos nutrientes essenciais para as plantas.
O conceito de fertilidade do solo 
Para Marcos (1983), “o solo tem contato direto apenas com o sistema radicular do vegetal. É por meio das interações entre o solo e o sistema radicular que porções do solo ou que nele se encontram - água, oxigênio, energia na forma de calor e nutrientes na forma de íons e de substâncias - são incorporadas pela planta. Há um comportamento do solo relacionado com a liberação de qualquer um desses elementos, substâncias ou calor; da mesma forma, há um comportamento da planta relacionado a cada parte, porção ou componentes do solo que não são absorvidos pela planta, mas que fazendo parte do solo respondem pelo seu comportamento. O conjunto dos materiais que são absorvidos do solo e dos seus comportamentos que controlam a sua liberação para as plantas constitui a capacidade do solo em possibilitar que o potencial genético do vegetal se manifeste. O grau de manifestação do potencial genético dependerá do que é absorvido e do quanto é absorvido. Em outras palavras: o solo é fértil para o crescimento do vegetal em grau diretamente proporcional ao conteúdo de materiais e energia, e de sua capacidade de liberá-los para o vegetal. Portanto, deve-se entender por fertilidade do solo sua capacidade de fornecer água, oxigênio, calor e elementos químicos essenciais aos vegetais. É correto dizer que um solo é fértil ou não, ou em que grau apresenta fertilidade - desde que se incluam nesse conceito todas as condições que são de competência do solo fornecer ás plantas. Não é correto dizer produtividade de qualquer das outras duas partes do sistema, pois nenhuma das três, isoladamente, produz coisa alguma. É correto dizer produtividade do sistema [solo-planta-clima], pois a produtividade agrícola é relativa ao sistema, e é usualmente expressa em unidade do órgão colhido por unidade de área”.
Estrutura – a chave da fertilidade do solo 
De acordo com

Pensamento do mês