1 de abr. de 2016

O SERTÃO FRUGAL E VERDADEIRO –CRÔNICA DE UMA CONVICÇÃO

A busca de elementos biológicos e conhecimentos apropriados
Artigo de Manoel Dantas Vilar Filho
 
À GUISA DE INTRODUÇÃO:
A seca e a extravagância de seu destratamento
...não há graça nenhuma em se sentir num 
batalhão, com o passo desencontrado... 
Sei que mantenho, lá por dentro, a humildade 
dos apaixonados e que, enfim, devo ter os 
defeitos e as virtudes da Raça a que pertenço:
 a dos nordestinos temperados na teimosia 
contra a dificuldade...
É muito desgastante ter de fazer as coisas apesar de e não há graça nenhuma em se sentir num batalhão, com o passo desencontrado. Por isso, falando sobre esses assuntos da Seca, corro o risco de ficar enfático ou maçante. Se o for, me perdoem; é um exagero natural dos crentes, mesclando a impaciência de quem resiste ao desencanto. Sei que mantenho, lá por dentro, a humildade dos apaixonados e que, enfim, devo ter os defeitos e as virtudes da Raça a que pertenço: a dos nordestinos temperados na teimosia contra a dificuldade, escorados na fidelidade a si mesmos e ao seu mundo cheio de despojamentos. 
O que aprendi foi em alguns livros e através de continuada observação, na reflexão e na ação dedicadas exclusivamente ao Cariri das secas, onde a dimensão do real aniquila qualquer frivolidade, até por cima do sofrimento sem medida e sem consolo - além da fé - do seu povo.
Nessa contramão do roteiro clássico da 
migração dos nordestinos, desenvolvi com o 
semi-árido uma relação intensa, funda e 
inevitável, e, tanto melhore a nitidez dos 
caminhos, cresce uma forma de tristeza, 
ao digerir o contraste entre o viável 
de fazer e o que se faz, sendo
 a lógica, como é, a ética do intelecto.
Vou escrever como quem tenta contar de experiência vivida, pensando em acrescer alguma informação a outro que, como eu, até por lealdade às suas raízes, queira envolver o tempo da mente e da carcaça, com esse mundo áspero, bonito, possível e mal tratado da zona seca. Daí, talvez, o tom pessoal mais acentuado de algum trecho, sobretudo quando não consigo esconder travos de rigor e do pecado da ira, que, por mais que não quisesse, foram aderindo à minha expectativa. Coisa de convertido em monomaníaco, que procura se compensar dessa condição, se valendo da cortesia da clareza e da vantagem de não atropelar a mania de outros.
Devo chamar esse texto de sumário das veredas - longas e cheias de voltas, como o texto - por onde fui me aconselhando, nesses trinta e tantos anos, desde que larguei as atividades urbanas de Engenharia e Universidade e assumi, por morte desavisada do Pai, em tempo e empenho integrais, o cuidado da Fazenda, sem considerar isso uma condenação. Nessa contramão do roteiro clássico da migração dos nordestinos, desenvolvi com o semi-árido uma relação intensa, funda e inevitável, e, tanto melhore a nitidez dos caminhos, cresce uma forma de tristeza, ao digerir o contraste entre o viável de fazer e o que se faz, sendo a lógica, como é, a ética do intelecto.
Especialistas classificam as Secas em meteorológicas - periódicas e típicas de cada região, hidrológicas - baixas precipitações eventuais em qualquer clima e sócio-econômicas - resultantes da associação entre perda de bens de produção e qualquer das duas anteriores.
A Seca é uma característica normal e recorrente 
do Clima, diferindo de outros riscos naturais por 
sua lenta maturação, sem a ostensividade 
repentina das enchentes ou dos terremotos.
A Seca é uma característica normal e recorrente do Clima, diferindo de outros riscos naturais por sua lenta maturação, sem a ostensividade repentina das enchentes ou dos terremotos. É o mais complexo e o menos compreendido deles, afetando maior número de pessoas que qualquer outro. Difere da aridez, que é situação plena, e seus efeitos vão se acumulando progressivamente, perdurando anos após sua finalização. Não é mais assunto da Defesa Civil e da Caridade Pública, em boa parte do mundo onde ocorre.
Aqui, ainda lhe tratam como uma espécie de azar seu de um pedaço do Brasil, onde persistentes fatalistas teimam em morar e para quem, tecnocratas e políticos, seduzidos por uma posição intelectual mais fácil e de fazer mais simples, se limitam a masturbar-se na molhação artificial da terra para pensar em produção, indiferentes ao conflito entre o mundo real e esse comodismo do cérebro. Ainda não resolveram o problema de áqua para beber o uso primordial e sem sucedâneo que água tem e que é de solução sabida e accessível.
A intempestividade das chuvas do NE e seu regime distributivo, caracterizam uma região de clima singular, caprichoso, não compatível com equações de 1° grau na sua abordagem e, por conseqüência, com plantas e animais que sejam lineares nas suas condições para crescer e produzir. E nem com gente que tenha como baliza de pensamento, um cartesianismo derivado de climas regulares e coisas mansas.
.Um Ensaio estatístico desenvolvido no CTA (Carlos Girardi e Luís Teixeira) em 1978, evidenciou dois tipos básicos de Secas no NE, além dos oito ou nove meses sem chover, normais, de cada ano: um período radical, isolado (ciclo de 13 anos), inserido num tempo relativamente chuvoso (1866, 1915, 1942 e, depois, 1993),
A leitura política do par de curvas que desenham a análise 
e a projeção da série estatística do CTA, revela curiosas 
circunstâncias e constatações de muita valia para se entender
 o que já houve e porque continua sem haver providências 
sistemáticas... para acudir, efetivamente, o problema e o povo...
(Fonte desta imagem: http://livros01.livrosgratis.com.br/ut000004.pdf)
e outro, um encadeamento de anos brabos - as, até então, chamadas Grandes Secas - em intervalos aproximados de 26 anos, onde dois são particularmente ruins e o número do pior grava na lembrança regional a dureza do conjunto. Os ciclos foram: 1873/78, com secas máximas em 1877 e 1878; o segundo em 1900/07, com as maiores em 1900 e 1907; um outro 1927/33, com o pico em 1931 e 1932 e o seguinte, 1951/58, com o pior em 1953 e 1958. O último, o imediatamente previsto pelo CTA, foi de 1979 a 1983, com as maiores secas em 1981 e 1983. Há poucos dias, incluindo os dados de 1978 até 2000 e afinando o tratamento matemático da nova série, demarcaram um novo período mínimo a partir de 2003.
Em Taperoá, as medições desde 1911,
indicam: média anual de 584 mm,
mínimo de 97 e máximo de 2030 mm
.No Cariri Velho da Paraíba (1/3 do território estadual), quando há variação dessas probabilidades é, sempre, para pior, além dos que seriam anos atípicos da série, como 1898, 1919 e depois 1998, que foram de terríveis secas gerais. Em Taperoá, as medições desde 1911, indicam: média anual de 584 mm, mínimo de 97 e máximo de 2030 mm, distribuídos em 42 dias/ano com alguma chuva, sendo apenas 14 com chuvas maiores que 10 mm. Às vezes há somente 5 dias/ano com chuvas maiores que 10 e caem aguaceiros de 150/200 mm numa mesma noite. Além disso, o 1° dia do tempo molhado, oscila desde 9 de dezembro do ano anterior até 29 de abril e o final é, também, volúvel. Creio que essa é a realidade ambiental básica de todo o semi-árido, peculiarizando essa semi-aridez, o que, entre outras coisas, desvaloriza o decalcado conceito de altura anual de chuva como padrão para avaliar o bom, o ruim, e o que fazer. No centro-sul da França, por exemplo, os seus 600 mm anuais, caem em 183 dias.
Nenhum governante nordestino incluiu, até hoje, 
nos seus planos de mandato, se ocupar assiduamente
 com a Seca, apesar da assiduidade com que 
ela ocorre, sendo, a partir desse ensaio e da 
evolução posterior do conhecimento (El Nino, 
La Nina; oscilação de temperaturas do 
Atlântico, etc); até, previsíveis;

.A leitura política do par de curvas (desenhos e outros comentários anexos) que desenham a análise e a projeção da série estatística (1849-1978) do CTA, revela curiosas circunstâncias e constatações de muita valia para se entender o que já houve e porque continua sem haver providências sistemáticas - como a Seca é - para acudir, efetivamente, o problema e o povo:
.Cada estio maior é quem gerou, depois de acontecido, alguma iniciativa de Governo em relação às secas, sempre em tom peremptório e pretensão definitiva;
.Essa formulação espasmódica é deslembrada ou esvaziada, assim que volta a chover, até que nova seca venha emocionalizar as conversas, quando se improvisa outra, sob a mesma retórica, a mesma inconsistência e a mesma transitoriedade, ainda hoje;
.A visão hidraulicista (água como fator de produção faltante/excludente) da

1 de mar. de 2016

PALMA FORRAGEIRA E BAGAÇO DE CANA TRATADO COM UREIA E AMÔNIA NA DIETA DE RUMINANTES

Poliana Aguilar, Aureliano José Vieira Pires, Maxwelder Santos Soares, Leonardo Guimarães Silva, Joanderson Oliveira Guimarães, Leone Campos Rocha, Thaiane Costa Machado, Olivaneide da Silva Frazão
INTRODUÇÃO
A necessidade de suplementação alimentar de ruminantes durante o período de escassez de alimentos torna os métodos de conservação bastante recomendados e por isto, tem-se pesquisado alternativas que reflitam em diminuição dos custos e aumentem o valor nutritivo de alimentos considerados de baixa qualidade ou baixo valor nutritivo (Pinheiro et al., 2009).
A palma forrageira tem sido utilizada
como base da alimentação em rebanhos do Nordeste
 
por ser uma cultura adaptada às condições edafoclimáticas da região, apresentando altas produções de matéria seca por unidade de área, constituindo-se em excelente fonte de energia, rica em carboidratos não fibrosos e nutrientes digestíveis totais. Porém, apresenta teores reduzidos de fibra em detergente neutro e proteína bruta. É de caráter imperativo a sua associação a volumosos com teores consideráveis de fibra efetiva, priorizando o equilíbrio entre carboidratos fibrosos e não fibrosos na dieta, e fontes de nitrogênio (Pessoa et al., 2008). O bagaço de cana-de-açúcar é um alimento que apresenta como principais características elevado conteúdo em constituintes da parede celular, baixa digestibilidade e baixo teor de proteína bruta. Apesar de suas limitações nutricionais, trata-se de uma fonte de fibra importante para manter a saúde ruminal. Seu baixo teor em proteína leva à necessidade de correções nutricionais em dietas à base de bagaço de
O bagaço de cana-de-açúcar é um alimento que
apresenta como principais características elevado
conteúdo em constituintes da parede celular
cana-de-açúcar (Pinto et al., 2003). Diversos estudos demonstram a importância dos tratamentos químicos na melhoria do valor nutricional dos volumosos, dentre os quais, a amonização, com ureia ou amônia anidra, é a mais utilizada, tendo com principal vantagem a elevação dos conteúdos de nitrogênio aumentando a disponibilidade para os micro-organismos ruminais, e a redução da fibra em detergente neutro melhorando a digestibilidade. Quanto ao tratamento de volumosos de baixa qualidade por amonização se tem verificado elevação na degradação da celulose e hemicelulose, em razão da expansão de suas moléculas, com rompimento de pontes de hidrogênio e aumento da hidratação da fibra (Zanine et al., 2007). O teor de proteína bruta da palma forrageira é insuficiente para o adequado desempenho animal, quando fornecida como volumoso exclusivo (Ferreira, 2005), necessitando sua associação a suplementos nitrogenados. De forma análoga o bagaço cana-de-açúcar e a palma forrageira também podem ser associados à ureia ou a fontes de proteína verdadeira com o intuito de elevar seu teor proteico. A associação de uma única fonte suplementar à dieta, em oposição a um concentrado balanceado, facilitaria o manejo e possibilitaria a redução de custos (Pessoa et al., 2010). Portanto, objetivou-se avaliar a palma forrageira e bagaço de cana-de-açucar tratado com ureia e amônia na dieta de ruminantes.
PALMA FORRAGEIRA
A palma forrageira sem espinho não é nativa do Brasil, foi introduzida por volta de 1880, em Pernambuco, através de sementes importadas do Texas-Estados Unidos (Silva & Santos, 2007). Inicialmente, o valor forrageiro da palma no Nordeste não foi reconhecido, só despertando o interesse para este fim em Pernambuco e Alagoas em 1902 (Lira et al., 2006). A palma forrageira pertence à Divisão: Embryophyta, Sub-divisão: Angiospermea, Classe: Dicotyledoneae, Subclasse: Archiclamideae, Ordem: Opuntiales e Família:
A palma é uma forrageira totalmente adaptada às
condições edafoclimáticas da região, por pertencer
ao grupo das crassuláceas, que apresentam
metabolismo (CAM) com abertura dos
estômatos essencialmente à noite,
Cactaceae. Nessa família, existem 178 gêneros com cerca de 2.000 espécies conhecidas. Todavia nos gêneros Opuntia e Nopalea, estão presentes às espécies de palma mais utilizadas como forrageiras (Silva & Santos, 2007). A palma é uma forrageira totalmente adaptada às condições edafoclimáticas da região, por pertencer ao grupo das crassuláceas, que apresentam metabolismo (CAM) com abertura dos estômatos essencialmente à noite, quando a temperatura ambiente apresenta-se reduzida, diminuindo as perdas de água por evapotranspiração. A eficiência no uso da água, até 11 vezes superior à observada nas plantas demecanismo C3, faz com que a palma se adapte ao Semiárido de maneira inigualável a qualquer outra forrageira (Ferreira et al., 2008). Nos últimos anos, a palma forrageira voltou a ser cultivada em larga escala, principalmente no Nordeste que possui cerca de 600 mil hectares de área plantada, distribuídos nos estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Bahia, onde a palma deixou de ser uma forrageira estratégica para ter uso rotineiro durante o período da seca, na alimentação animal (Santos et al., 2006). Dentre as variedades mais cultivadas no Nordeste brasileiro, encontram-se a gigante (Opuntia fícus-indica Mill), a redonda (Opuntia sp.) e a miúda (Nopalea cochenillifera Salm-Dyck) que são as variedades sem espinhos. Segundo Marconato (2008), o Brasil possui a maior área plantada com
Opuntia fícus-indica Mill
palma do mundo, sendo a maioria cultivada com a espécie Opuntia fícus-indica, mais conhecida como “Palma Gigante”, porém, sua produtividade é baixa, próximo de 40 t ha-1 . No México, local de origem da espécie, os agricultores produzem até 400 t ha -1 . Essa diferença se deve provavelmente à falta de informações e/ou de acesso a recursos para investimentos; ainda são relativamente poucos os produtores que cultivam a palma forrageira nos moldes tecnológicos de forma a obter um melhor rendimento e qualidade. De composição química variável segundo a espécie, idade, época do ano e tratos culturais, a palma forrageira é um alimento rico em água, carboidratos, principalmente carboidratos não fibrosos e matéria mineral, no entanto, apresenta baixos teores de matéria seca, proteína bruta, fibra em detergente neutro e fibra em detergente ácido comparada a outros alimentos volumosos (Tabela 1). Estes aspectos deverão ser levados em consideração quando for utilizada na alimentação dos animais, pois estes nutrientes poderão interferir no trato digestível, através da taxa de passagem, digestibilidade, fermentação, produtos finais, absorção e consequentemente no desempenho e na saúde, mediante isto deve ser sempre fornecida associada a fontes de fibra e de proteínas (Lira et al., 2005).
A palma é uma forragem muito palatável, que em geral, propicia altas ingestões de matéria seca. Entretanto, devido a diferenças na composição química ou anatômicas, pode haver diferença entre espécies no efeito sobre a ingestão da ração (Batista et al., 2013). A estratégia alimentar de misturar a palma aos demais ingredientes da dieta melhora o consumo de fibra, aumentando o consumo efetivo dos nutrientes (Souza et al., 2010).
O consumo voluntário refere-se à quantidade máxima de matéria seca que o animal ingere espontaneamente. É considerada a variável mais importante a influir no desempenho animal, pois possibilita determinar a quantidade de nutrientes ingerida e obter estimativas da quantidade de produto animal elaborado (Torres et al., 2009). Aguiar (2013) avaliou a influência dos teores de 0, 200, 400 e 600 g/kg-1 da palma forrageira cv. Gigante (base da matéria seca) na dieta de novilhas mestiças 3/4 Holandês-Zebu utilizou-se silagem de sorgo como volumoso e, como concentrado, milho, farelo de soja, ureia, sal de recria, calcário, fosfato bicálcio, e relatou que os consumos de matéria seca (MS), proteína bruta (PB), carboidratos não fibrosos (CNF) e nutrientes digestivos totais (NDT) foram influenciados de forma linear decrescente pelos teores de palma forrageira na dieta, esse comportamento pode ser justificado pelo decréscimo do teor de MS nas dietas com o aumento do teor de palma forrageira. Quanto ao peso corporal final (PCF) e ao

1 de fev. de 2016

PECUÁRIA MAIS EFICIENTE POUPARIA ATMOSFERA DE 30 MILHÕES DE TONELADAS DE CO2 POR ANO

Carlos Dias, Embrapa Solos
Pastos melhores significam mais vegetação e animais engordando em menos tempo sobre eles o que se traduz em menos emissões de gás carbônico equivalente. Por isso, a recuperação das pastagens tem potencial para reduzir em um ano a idade de abate dos animais. Um bovino adulto é responsável pela emissão de aproximadamente 1,5 tonelada de equivalente CO2 por ano. No Brasil são abatidos em torno de 40 milhões de cabeças por ano. Se metade desse rebanho for criado em sistemas mais eficientes, pode-se estimar a redução da emissão de 30 milhões de toneladas de equivalente CO2 por ano, vale lembrar que o Brasil emite 460 milhões de toneladas por ano apenas com a redução da idade de abate, sem considerar, por exemplo, a fixação de carbono no solo pelo sistema.
Dados da Embrapa apontam que se 12,5 milhões a 18,4 milhões de áreas de pastagens forem recuperadas será possível aumentar a produção de carne bovina entre 2,4 milhões a 3,6 milhões de toneladas por ano, o que equivale a um aumento de aproximadamente 33%.
Atualmente, a produtividade média brasileira é em torno de 45 quilos de carne por hectare. Com sistemas recuperados e melhorados, essa produtividade salta facilmente para 120 kg por hectare, em sistemas de cria-recria e engorda (ciclo completo), gerando mais renda para o produtor rural.
A maior parte das terras utilizadas na agropecuária no País está ocupada com pastagens, cerca de 180 milhões de hectares, dos quais estima-se que mais da metade encontra-se em algum estágio de degradação. Apenas 10% das pastagens brasileiras (18 milhões de hectares) adotam sistemas pastoris menos impactantes, como pousio, rotações e Integração Lavoura Pecuária (ILP). Só no Cerrado são 32 milhões de hectares em que a qualidade do pasto está abaixo do esperado.
Redução da perda de solo
Presentes em todo Brasil, essas pastagens degradadas apresentam baixa capacidade de produção de carne e leite. Geralmente sofrem também com erosão laminar, em sulcos e até voçorocas, que podem levar a perdas de mais de 100 toneladas de solo/ha/ano, comprometendo a sustentabilidade do sistema de produção. Em muitas situações, apenas mudando algumas técnicas de manejo podemos reduzir essas perdas para menos de dez
t/ha/ano, podendo chegar a menos de uma t/ha/ano em áreas bem manejadas, aproximando-se do que ocorre normalmente em solos sob vegetação preservada.
Mas não é apenas o mau uso o responsável pelo estado de parte de nossas terras. "A maior parte dos solos brasileiros é ácida, e com baixa disponibilidade de nutrientes", conta Wadson da Rocha, pesquisador da Embrapa Gado de Leite (MG). "Caso esses poucos nutrientes retirados pelas culturas não sejam repostos no solo, as pastagens entram em processo de degradação. Dessa forma, a falta de um correto manejo do solo para a implantação e a manutenção da pastagem é que pode definir a maior velocidade de degradação", conclui Wadson.
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O que a Embrapa Solos (RJ) propõe é a reinserção dessas terras com pastagens degradadas ao sistema produtivo agropecuário sustentável, uma grande oportunidade para aumentar a produção agropecuária, sem necessidade de ampliação da fronteira agrícola. "Para isso precisamos identificar e eliminar os fatores responsáveis pela degradação, fazer uma avaliação do estado de degradação do sistema solo-planta", diz o cientista da Embrapa Solos Aluísio Granato de Andrade. "Nesse sentido, a análise integrada de indicadores de qualidade do solo com indicadores de qualidade da forragem e com a quantidade de biomassa produzida podem possibilitar maior eficiência na seleção, no desenvolvimento e na adoção de tecnologias adequadas aos diferentes níveis de degradação", completa.
A origem da degradação das terras
A transformação de terras produtivas em terras degradadas começou há muito tempo no Brasil e remonta aos ciclos do monocultivo da cana-de-açúcar (séculos XVI e XVII) e do café (XVIII e XIX).
Com o advento da revolução verde na década de 1970 e a consequente expansão da agricultura, com o preparo excessivo do solo, o monocultivo e a aplicação inadequada de agroquímicos, os problemas causados pela degradação se agravaram.
Grandes áreas foram transformadas em pasto por uma opção de ocupação do território e não como resultado da introdução da atividade agropecuária com o propósito de obtenção de retorno econômico. "Na região Amazônica, por exemplo, o desmatamento seguido da introdução de grandes áreas de pastos nos anos setenta foi resultado de uma politica de ocupação baseada em uma visão defensivo-desenvolvimentista do governo militar", revela o consultor independente e doutor em planejamento de uso das terras Antonio Ramalho Filho.
Atualmente, as principais causas da degradação das pastagens são o excesso de lotação e manejo inadequado; a falta de correção e adubação na formação, aliada à falta de reposição dos nutrientes pela adubação de manutenção e a utilização de espécie ou cultivar inadequada, não adaptada ao clima, solo e objetivo da produção.
Vale lembrar que as pastagens, quando são formadas e manejadas com técnicas adequadas, não acarretam perdas significativas por erosão (0,5 ton/ha/ano), já que cobrem o solo de maneira eficiente.
A recuperação de pastagens
A recuperação dessas áreas inclui o diagnóstico da degradação das terras, possível com a divisão das áreas degradadas em glebas homogêneas de acordo com algumas características (relevo, topografia, cobertura vegetal, solos, uso atual, produtividade das culturas e histórico de exploração, adoção de práticas conservacionistas e tipo e frequência dos processos erosivos). Ramalho chama atenção para outro aspecto "devemos também observar a diferença entre degradação e esgotamento do solo ou do pasto", relata.
O diagnóstico detalhado do estado de conservação e/ou degradação do solo em cada uma das zonas de manejo também é fator importante, visando caracterizar os processos erosivos e a presença de resíduos. Nesta etapa recomenda-se também avaliar a taxa de infiltração de água no solo e a ocorrência de camadas compactadas, coletar amostras de solo para avaliação da granulometria e da fertilidade e descrever a cobertura vegetal natural e/ou o uso atual e as práticas de manejo existentes.
O também pesquisador da Embrapa Gado de Leite Carlos Eugênio Martins lembra outro importante passo na recuperação de pastagens: o processo de restabelecimento da capacidade produtiva de uma espécie forrageira previamente estabelecida. "A renovação seria a substituição da espécie forrageira, anteriormente instalada, por meio de práticas agronômicas de manejo de solo e

1 de jan. de 2016

Economia Criativa é saída para desenvolvimento do Nordeste, diz economista



Por Paulo Dantas
Discípulo de Celso Furtado, economista Marcos Formiga analisa economia do nordeste, aponta equívocos no desenvolvimento, pede atenção ao capital humano e foco na economia criativa da região. Matéria da edição número 108



O professor Manuel Marcos Maciel Formiga é um pensador. Amigo e discípulo de Celso Furtado em suas teorias econômicas, Formiga tem uma longa história a frente do pensamento sobre educação e economia e um currículo extenso na área. Graduado e pós-graduado em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Política de Ciência e Tecnologia pela Universidade de Londres. Atua há décadas em áreas de Economia Regional e Educação Internacional, C&T, e Educação Aberta e à Distância. Dirigiu o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira
Manuel Marcos Maciel Formiga
(INEP),onde participou da concepção e implementação da “Escola do Futuro”, hoje referência internacional como laboratório de educação científica pelo uso de Tecnologias da Informação e da Comunicação. Além de atividades acadêmicas em Recife e Brasília, o estudioso também exerceu funções de direção nos Ministérios da Educação (CAPES e Secretaria Geral); Ciência e Tecnologia (CNPq e FINEP); e no Ministério da Integração Nacional, quando foi superintendente da Sudene e Secretário Nacional da SUDECO. Ainda foi Superintendente da Fundação Roberto entre 1994 e 1997, responsável pela equipe de elaboração do Telecurso 2000. De 1995 a 2011 foi vice-presidente da Associação Brasileira
Celso Furtado
de Educação a Distância (ABED) e, de março de 2003 a junho de 2011, assessor especial da Presidência da CNI, vinculado ao SENAI-DN, onde coordenou a iniciativa iNOVA Engenharia. Formiga é também um dos diretores do Centro Internacional Celso Furtado e se encontrou com a Revista NORDESTE para uma entrevista exclusiva sobre a região, perspectivas, vocações e desafios.
Revista NORDESTE: O ex-ministro Mangabeira Unger falou que o Nordeste deveria sair de uma ideia de desenvolvimento com grandes indústrias e grandes obras e pensar em um outro tipo de crescimento. O senhor concorda com essa visão?
Marcos Formiga: A visão de Mangabeira Unger é muito interessante porque ele tem repensado o Nordeste a partir das ideias de Celso Furtado. Ele é muito fiel ao pensamento do nosso Mestre maior. Agora, acho que essa é uma das alternativas, mas não é a única. Certamente, o modelo tradicional de desenvolvimento está esgotado. O Brasil adotou o modelo estruturalista de substituição de importação. O Nordeste replicou esse modelo, e, diga-se de passagem, com relativo sucesso. Estou me referindo ao período áureo da SUDENE, entre o final da década de cinquenta e a primeira metade da década seguinte,
Mangabeira Unger
quando o Nordeste teve um projeto de desenvolvimento. Depois se perdeu no tempo. Hoje, nós temos de conciliar algumas alternativas. Não sou adepto do modelo único. Ainda há espaço para grandes investimentos e há espaço para médios e pequenos investimentos. Sem duvida, as micro e as pequenas empresas, o empreendedorismo atomizado é fundamental em qualquer modelo de desenvolvimento.
NORDESTE: Qual seria o modelo?
Formiga: Prefiro um modelo blended, trabalhar com alternativas, sem exclusividade. E qual é o embasamento para esse pensamento? É que com o processo continuado e a desindustrialização do Brasil, certamente ou já chegou ou vai chegar, ao Nordeste. Nós temos que ter aí algumas alternativas e a que parece mais viável é a da Economia do Conhecimento, o imperativo do capital humano. Porque essa foi, e é, continua a ser, a nossa maior falha. Falha do Brasil e aqui no Nordeste mais do que duplicada. Descuidamos historicamente da formação, da educação e agora temos de refazer aquilo que não foi feito em bases mais difíceis do que anteriormente. A mudança estrutural aconteceu no Brasil e no Nordeste na medida em que deixamos de ser uma sociedade tipicamente rural para uma sociedade industrial. Esse modelo está esgotado ou em crise. Não temos de voltar a esse modelo antigo, mas sim buscar novas alternativas. 
NORDESTE: O que o senhor chama de capital humano?
Formiga: Chamaria de capital humano o ativo principal da Nação, conceito ligado diretamente a Sociedade do Conhecimento. Dentro da Sociedade do Conhecimento a ideia de economia criativa, onde se vão buscar indicadores muito mais focados em uma visão socioeconômica do que econômica-social, quando se dá ênfase no PIB, e na quantificação dos indicadores econômicos. Na minha observação, temos de reverter essa métrica.
Existem esforços internacionais nessa linha. Doutor Partha Dasgupta, professor emérito de Economia da Universidade de Cambridge, trabalhou para a Unesco um novo indicador. Saiu-se do ultrapassado conceito de renda per-capita criado a partir da II Grande Guerra, para o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) que leva em conta escolaridade, trabalho e esperança de vida. Do IDH avançamos para o novo conceito de riqueza inclusiva. Este leva em conta os ativos, ao invés de quantificar a renda, mensura-se a riqueza sob a forma de Capital Humana (nível educacional e cultural das pessoas), Capital Físico ou Construído (Maquinas, edificações, infraestrutura e etc.) e Capital Natural (recursos minerais, hídricos, fauna e flora). 

NORDESTE: Como assim?
Formiga: Os ativos são três, na concepção do Prof. Dasgupta, que a ONU ira adotar. Para se ter uma ideia do conceito de riqueza inclusiva, o PIB dos EUA quando eles fizeram o cálculo inicial em 1908, era de cerca de 10 trilhões de dólares. Com o conceito da riqueza inclusiva iria para 118 trilhões de dólares. O Japão, que é uma pequena ilha, aproximadamente do tamanho do estado de São Paulo, teria uma riqueza inclusiva muito maior que a dos EUA. E comparado com a China, atual segunda maior economia pelo velho indicador, utilizando o novo conceito, no entanto, o Japão chegaria a ultrapassar a China em 2,6 vezes. Isto significa uma revolução na qualificação e quantificação dos indicadores. Ficaríamos mais libertos da ditadura dos tradicionais indicadores econômicos, tais como taxa de inflação, taxa de desemprego e juros, porque tem vida mais inteligente em outros indicadores que estão vindo por aí e valorização de algo mais substantivo, como grau de escolaridade, longevidade de população, desenvolvimento tecnológico, prontidão para o futuro, etc.
NORDESTE: O senhor pode dar exemplos de economia do conhecimento já aplicadas no Nordeste?
Formiga: Sem dúvida. O Porto Digital em Pernambuco. Os serviços especializados
Porto Digital em Pernambuco
advindos do complexo petroquímico da Bahia. O esforço que o Ceará, o estado, e o município de Sobral estão fazendo na área de educação. Idem na capacitação profissional na região do porto de Itaqui em São Luís, MA. O projeto inicial em São Luís era qualificar 100 mil técnicos para atender as necessidades de demanda de capital e talento humano naquela região. Com a crise certamente esse volume de investimento teve alguma interrupção ou não está sendo totalmente implantado. Mas o efeito multiplicador já gerou uma correlação direta entre os investimentos e a necessidade de capital humano. O professor Mangabeira cita outro exemplo muito interessante da economia criativa da extração do mel da abelha no Piauí. Visitamos aquele projeto in loco. Aquelas caravanas constataram como funciona o Brasil profundo, a vida interior dessas regiões e o esforço das pessoas para sobreviver nas florestas e na caatinga do semiárido.
NORDESTE: O Nordeste é muito diverso...
Nordeste composto de vários nordestes.
Formiga: Um Nordeste composto de vários nordestes. Uns com forte sentimento de solidariedade regional e outros nordestes com pouco sentimento de regionalidade, o que é uma pena. Um Nordeste forte exige compromisso inalienável com todo território dessa região. Embora, dentre todas as regiões brasileiras, o Nordeste ainda salvaguarda o mais forte sentimento de regionalização.
NORDESTE: Quais são essas regiões dentro do Nordeste (com pouco sentimento de solidariedade regional)?
Formiga: O que mais caracteriza o Nordeste é o polígono que delimita o semiárido. Mas a Bahia pelo velho indicador tem o maior PIB do Nordeste, e também tem maior semiárido, mas apresenta baixo índice de nordestinidade, neste patamar encontra-se o Maranhão. Os dois extremos regionais se afastam um pouco do Nordeste core, o Nordeste mais profundo vai do Piauí até Sergipe. Um esforço de ação conjunta requer um realinhamento deste dois estados mais afastados.
NORDESTE: Quais seriam as soluções para o Nordeste?
Formiga: A primeira providência seria sair daquela velha fórmula da solução hídrica sempre tentada com bastante insucesso. Acumula-se água, mas não sabe ou não soube o que fazer com ela. Mas isso não significa que seja uma região pobre, muito pelo contrário. A proposito, lembro de um técnico israelense que serviu a Sudene que dizia o seguinte: “o nosso maior rio é o Jordão, que não passa de um ribeirão. Se nós tivéssemos o Rio São Francisco, seríamos uma potencia mundial”. Mesmo sem água, mesmo com um rio pequeno, como o Jordão, eles não são uma grande potência mundial do ponto de vista dos parâmetros tradicionais, mas pela Economia Criativa e do Conhecimento é uma das nações mais desenvolvidas do mundo, e isso se deve a duas coisas: educação de qualidade e altos investimentos em ciência e tecnologia. Israel é um dos países hoje com a mais alta taxa de investimento em ciência e tecnologia: 4,3% do PIB, enquanto o Brasil não consegue sair de 1,2%. Já estamos estagnados há algum tempo com esse percentual baixíssimo, incapaz de retirar o Brasil de uma situação critica em C&TI, fenômeno que se repete com mais gravidade na educação. 
NORDESTE: Falando em vocação, é possível elencar algumas vocações?
Formiga: Sim. O que é vocação regional? Juntar capacitação humana – mais uma vez a importância, o imperativo do capital humano, ponto critico ainda no Nordeste – e juntá-lo com a disponibilidade de capital natural, e serviços especializados. Obviamente, somando a tudo isso uma capacidade criadora, empreendedora e

1 de dez. de 2015

A PECUÁRIA COMO ATIVIDADE ESTABILIZADORA NO SEMIÁRIDO BRASILEIRO

Maria Janiele Ferreira Coutinho1 
Maria Socorro de Souza Carneiro2 
Ricardo Loiola Edvan3 
Andréa Pereira Pinto2 
RESUMO 
A irregularidade pluviométrica é característica da região semiárida brasileira e provoca perda na produção agrícola ao longo dos anos, tanto pelas chuvas mal distribuídas entre anos e entre meses, quanto pela falta ou pelo excesso de chuva. O fato é que produzir culturas que necessitem de regularidade hídrica nesta região é tarefa difícil. Por exemplo, o plantio do milho de sequeiro acumula perdas na produção ano após ano, por ser uma planta que necessita de ambiente com chuvas regulares, devido sua fenologia. A pecuária por outro lado demonstra maior estabilidade em relação à falta de regularidade pluvial, pois se utilizam plantas e animais nativos ou adaptados e mesmo em anos com intensa irregularidade as perdas são reduzidas.
INTRODUÇÃO 
O semiárido brasileiro estende-se por aproximadamente um milhão de km2 , abrangendo a maior parte dos Estados da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí e parte dos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Vivem nessa região aproximadamente 21 milhões de pessoas, que representam 46% da população nordestina e 13% da população brasileira distribuídas em 1.162 municípios. O clima predominante na região semiárida nordestina brasileira é do tipo BSw’h’, conforme a classificação de Köppen, ou seja, tropical seco com a evaporação excedendo a precipitação, com ocorrência de pequenos períodos de chuvas sazonais (1). Devido principalmente a essas características ambientais, a agricultura de sequeiro acumula ao longo dos anos perda na produção e com isso prejuízos ao setor agrícola. O semiárido brasileiro tem e teve como principal política
pública a do assistencialismo que não soluciona o problema da região, pelo contrário, gera dependência governamental da população (2). Grande parte das políticas públicas para essa região foram implementadas de forma assistencialista, ou então, voltadas para as grandes obras de engenharia hidráulica, especialmente açudes, barragens e perfuração de poços que, quase sempre, obedeciam a critérios políticos ou de engenharia, pouco atendendo a determinantes sociais que complementassem o uso social dos recursos hídricos (3). A região semiárida caracteriza-se pela prática de uma pecuária extensiva paralela a uma exploração agrícola em seco. Explicando a importância econômica da pecuária no semiárido nordestino (4) afirmou que a pecuária é a prioridade dada pelos criadores na tentativa de salvação dos seus meios de subsistência em períodos de seca. Os animais criados possuem outras utilidades para o dia-a-dia das famílias, seja como complemento alimentar proveniente da produção de derivados animais ou do abate para consumo e/ou venda, seja como meio de transporte de pessoas ou de carga. Dessa forma, pretende-se com essa revisão discorrer sobre a pecuária como atividade estabilizadora, como forma de atenuar o impacto social e econômico do cultivo agrícola utilizado atualmente na região. 
Fatores climáticos 
Enquanto a temperatura, a radiação solar e os aportes de nutrientes nos ecossistemas do semiárido variam relativamente pouco no ano, à precipitação comumente ocorre em eventos descontínuos, em forma de pulsos de curta duração (5). Não é somente a seca que ocasiona problemas na região semiárida, o oposto que são as enxurradas, quando ocorrem, originam prejuízos em menor ou maior amplitude. Os fatores climáticos sempre
foram decisivos na produção de sequeiro, principalmente a precipitação pluviométrica, pois nesta atividade agrícola não existe fonte de água disponível como ocorre em áreas irrigadas. A ocorrência de baixas pluviosidades ou chuvas mal distribuídas acarreta decréscimo, ou até, perda completa da produção agrícola (6). Nas palavras de Celso Furtado “O tipo da atual economia da região semiárida é particularmente vulnerável a esse fenômeno das secas. Uma modificação na distribuição das chuvas ouredução no volume destas que impossibilite a agricultura de subsistência bastam para desorganizar toda a atividade econômica. A seca provoca, sobretudo, uma crise da agricultura de subsistência. Daí, suas características de calamidade social” (7). Apesar de antiga a citação do autor ainda prescreve nos dias atuais, pois pouca coisa mudou e todos os anos a irregularidade pluviométrica continua ocasionando prejuízos em maiores ou menores proporções. Esse fato preocupa, já que a agricultura de sequeiro é atividade predominante desse local, visto que, no ano de 2005 o estado do Ceará possuía 70.776 ha das áreas ocupadas pela agricultura irrigada (8) e 1.741.962 ha usados pela agricultura de sequeiro (9) que é formado principalmente por produtores com pequenas propriedades. A base da economia da região é a agricultura, de sequeiro ou irrigado, em certas áreas. Nas áreas de sequeiro, os riscos de prejuízos na colheita são grandes e aumentam nos períodos de seca. Nas áreas irrigadas existe o risco de salinizar o solo, devido à elevada evaporação existente na região (10). Celso Furtado em 1967 propôs que “A organização dessa unidade agropecuária típica, de nível de produtividade razoavelmente elevado e adaptado às condições ecológicas da região deveria constituir o objetivo central de toda política de desenvolvimento econômico para a região semiárida. Por mais importante que venha a ser a contribuição da grande açudagem e da irrigação para aumentar a resistência econômica da região, é perfeitamente claro que os benefícios dessas obras estarão circunscritos a uma fração das terras semiáridas do Nordeste” (7). 
Densidade demográfica no semiárido brasileiro 
Na região semiárida brasileira vivem aproximadamente 21 milhões de pessoas, que representam 27,9% da população brasileira, de acordo com IBGE (11) é o semiárido mais populoso do planeta, consistindo um problema para essa região, uma vez que é composta, na sua maior parte, por pequenas propriedades agrícolas. O Nordeste é a região brasileira que apresenta a menor área média por estabelecimento na agricultura familiar (12). Além disso, a região semiárida nordestina é apontada como uma região que apresenta uma estrutura histórica de concentração de renda, riquezas, água e terra. Neste contexto Lira et al. (13) expuseram que a estrutura fundiária do semiárido nordestino é marcada pela predominância de pequenas propriedades de base familiar, destacando-se que 77% estão entre 1 e 20 hectares. Diante do exposto, percebe-se a importância de estabelecer um sistema de produção correto para essas áreas onde as perdas sejam reduzidas e que a agricultura não dependa tanto dos fatores climáticos. Regiões que apresentam irregularidade climática existem em todo o planeta, mas nem por esse motivo deixam de ser importantes polos agrícolas e produtivos para seu país. O deserto norte-americano abriga estados economicamente fortes, alguns deles, como a Califórnia, com significativa participação da agricultura na geração de riquezas. Exemplo de sucesso ocorre também na Espanha e na Austrália, dentre outros. O que devemos fazer é aprender a conviver neste ambiente e não tentar modificá-lo demasiadamente (14). O menor crescimento do setor agropecuário nordestino brasileiro em comparação com o nacional se explica pelo desempenho inferior de sua lavoura temporária, bastante afetada pela falta de chuvas no período crítico para o crescimento das culturas. As chuvas ocorrem fora do período adequado, o que provoca a seca verde em alguns estados nordestinos. Essa Região é
bastante afetada por problemas climáticos, com a incidência de pouca chuva e em período fora do previsto, afetando principalmente as lavouras temporárias. Os estados da Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte foram os mais afetados no ano de 2009, com declínio de produção de 53,6%, 40,4% e 32,4%, respectivamente (15).

Políticas de assistencialismo 
O quadro político e institucional no semiárido nordestino não mudou o bastante para que se

4 de nov. de 2015

Plantio e uso da palma forrageira na alimentação de bovinos leiteiros no semiárido brasileiro



André Luis Alves Neves
Luiz Gustavo Ribeiro Pereira
Rafael Dantas dos Santos
Tadeu Vinhas Voltolini
Gherman Garcia Leal de Araújo
Salete Alves de Moraes
Alex Santos Lustosa de Aragão
Cleber Thiago Ferreira Costa 
Introdução
A bovinocultura leiteira é uma atividade fundamental para o desenvolvimento social e econômico do semiárido brasileiro. No entanto, essa região passa anualmente por prolongadas secas com escassez de forragens na maior parte do ano, comprometendo assim o desempenho dos animais e até mesmo a viabilidade dos empreendimentos rurais.
Esse período é caracterizado pela sazonalidade, que afeta diretamente os produtores pela redução de sua receita na época da entressafra devido à queda do volume de leite, ao mesmo tempo em que eleva os custos de produção, seja pela necessidade de oferecer ao gado volumoso suplementar, seja pelo maior uso de concentrados e o maior gasto com mão-de-obra (ZOCCAL & CARNEIRO, 2008).
Considerando que a alimentação representa de 40 a 60% das despesas do setor de produção de leite, uma opção viável para enfrentar estas limitações, seria o uso de alternativas forrageiras adaptadas às condições semiáridas, como a palma.
Este recurso alimentar apresenta-se como alternativa estratégica para as regiões áridas e semiáridas do nordeste brasileiro, já que é uma cultura que apresenta aspecto fisiológico especial quanto à absorção, aproveitamento e perda de água, suportando prolongados períodos de estiagem.
O bom rendimento dessa cultura está climaticamente relacionado a áreas com 400 a 800 mm anuais de chuva, umidade relativa acima de 40% (Viana, 1969) e temperatura diurna/ noturna de 25 a 15 ºC (Nobel, 1995).
O objetivo deste comunicado é trazer informações técnicas sobre as principais cultivares, plantio e uso da palma na alimentação de bovinos leiteiros. No final do documento serão apresentadas simulações de dimensionamento da área de um palmal e de dietas formuladas a base de palma forrageira para vacas em lactação.
Cultivares
As cultivares de palma forrageira mais difundidas no Nordeste são a Redonda, a Gigante e a Miúda. Sendo que a Redonda e Gigante (Opuntia ficus-indica) são reconhecidamente mais resistentes à seca e maisprodutivas e, por esses motivos, são as mais cultivadas.
A Orelha de Elefante (Mexicana e Africana), por sua vez, é um clone importado e encontra-se em fase de testes para avaliação de seu desempenho agronômico. Apresentam espinhos, o que dificulta seumanejo como forrageira, no entanto, essa característica, apesar de ser indesejável na alimentação animal, garante a este material maior resistência à seca, uma vez que os espinhos servem para reduzir a temperatura do caule durante o dia e sua presença diminui também a captação de luz pelas raquetes (Nobel, 1983).
A Miúda e Orelha de Elefante têm resistência à cochonilha-do-carmim Dactylopius sp., enquanto que a Redonda e Gigante são suscetíveis (Vasconcelos et al., 2009).
Preparo de solo e adubação
É recomendada a aração, passagem de subsolador, gradagem e abertura dos sulcos semelhante ao preparo de culturas convencionais. A profundidade dos sulcos deve ser de aproximadamente 20 cm (Albuquerque e Santos, 2005).
A palma forrageira, por apresentar elevada produção de matéria seca por área, exige fertilizações no plantio e de manutenção para a reposição dos nutrientes do solo. A necessidade de calagem, adubação nitrogenada, fosfatada e potássica devem ser de acordo com a necessidade e produção desejada.
No plantio adensado e/ou não adensado, recomenda-se a aplicação de 20 toneladas de esterco curtido nos sulcos, o equivalente a 200 kg de nitrogênio por hectare.
Em plantios adensados de palma forrageira, os cuidados com os tratos culturais e adubações devem ser mais rigorosos, pois nesse caso há um aumento considerável no número de plantas por área, aumentando a extração de nutrientes, e por isso a necessidade de maior reposição dos mesmos.
Tipo de raquete, modo e época de plantio
As raquetes para o plantio devem ser grandes e sadias, sem qualquer mancha e que já tenham atingido seu pleno desenvolvimento. Elas já devem ter emitido ou devem estar próximas de emitirem seus brotos. As raquetes com dois a três anos de idade são as mais adequadas para o plantio. A posição da raquete aparentemente não exerce efeito
na implantação e produção, entretanto, cuidados devem ser tomados no sentido de evitar o plantio na direção predominante do vento a fim de reduzir quedas das raquetes (Albuquerque, 2000).
Deve ser plantada pelo menos um mês antes do início da estação chuvosa. Antes do plantio, as raquetes deverão permanecer por 15 dias na sombrapara que seque a superfície do corte, depois deste período poderão ser enterradas pela metade ou 2/3, favorecendo o desenvolvimento do sistema radicular (Albuquerque e Santos, 2005).
Espaçamentos
Na região Nordeste, o espaçamento predominante no cultivo da palma é o de 1 m entrelinhas. No espaçamento 2 x 1 m, a densidade de plantio é de 5.000 plantas/ha, ao passo que usando 1 x 0,25 m, a densidade de plantas na área é oito vezes maior, ou seja, 40.000 plantas/ha. Atualmente tem sido recomendados espaçamentos de 1,60 m entre linhas e 20 cm entre raquetes (com aproximadamente 31.000 plantas) para facilitar os tratos culturais e colheita no interior do palmal (Figura 1).

Plantios mais adensados vêm sendo difundidos no Nordeste (mais de 60.000 plantas/ha). Este tipo de plantio deve ser evitado nas regiões ondeexiste incidência da cochonilha do Carmim, pois podem garantir a permanência de esconderijos para a praga e facilitar a infestação da cultura.
Os plantios adensados não devem ser implantados em locais de solo raso e de baixa fertilidade (Figura 1).
Em regiões onde o plantio adensado se aplica, a distância entre as linhas deve ser de 1,80m para as variedades de raquetes grandes (gigante, IPA 20, redonda) e de 1,40m para a palma miúda, permitindo o trânsito entre as linhas, possibilitando o monitoramento de possíveis ocorrências de pragas,
doenças, facilitando a aplicação de produtos fitossanitários e tratos culturais. Já as distâncias entre as raquetes podem variar de 9 a 25 cm, dependendo da população de planta desejada. Os plantios adensados têm maior dependência de insumos externos (adubos químicos e corretivos) e sempre que este sistema de plantio for adotado (Figura 1).
A escolha da forma de plantio deve sempre levar em conta as condições de clima e solo, a finalidade do plantio, os recursos disponíveis e o custo benefício. A assessoria de um técnico capacitado é importante para a tomada de decisão mais acertada.
Uso da palma forrageira na alimentação de bovinos leiteiros
A palma forrageira constitui a base da alimentação do gado de leite nas bacias leiteiras do nordeste brasileiro, sendo excelente fonte de energia, rica em carboidratos não-fibrosos (61,79%) e nutrientes digestíveis totais (62%). Porém, apresenta baixos teores de matéria seca (11,7%), proteína bruta (4,8%), fibra em detergente neutro - FDN (26,87%), fibra em detergente ácido - FDA (18,9%) e teores consideráveis de matéria mineral (12,04%).
Dessa forma, recomenda-se sua associação a fontes protéicas e outros volumosos visando corrigir os baixos teores de proteína bruta e fibra em detergente neutro, evitando distúrbios metabólicos, como a diminuição da ruminação e redução nos teores de gordura no leite.
É possível utilizar até 60% de palma na matéria seca da dieta associada a 25% de fonte de fibra e 15% de concentrado, desde que sejam respeitados os limites mínimos de 25-28% de FDN e máximo de 40-44% de carboidratos não-fibrosos. É importante que na composição das dietas seja utilizada uréia e forrageiras com elevado teor de proteína bruta. Assim, podem ser alcançadas relações de kg de concentrado/kg de leite de 1:5, 1:6 e até 1:7.
Em razão do baixo teor de matéria seca da palma forrageira, dietas para vacas em lactação com alta proporção desse volumoso possuem elevada concentração de umidade, o que é vantagem para regiões semiáridas, onde a escassez hídrica é um fator limitante para os sistemas de produção de leite.
Formas de fornecimento
Apesar da necessidade de

Pensamento do mês