3 de out. de 2011

RAÇA SINDI: UMA OPÇÃO NA PRODUÇÃO DE LEITE PARA O SEMIÁRIDO BRASILEIRO


Por: Roberto Luiz Teodoro, Rui da Silva Verneque e Mário Luiz Martinez
Pesquisadores da Embrapa Gado de leite


Felisberto de Camargo e uma das vacas da importação de 1952.
     A raça Sindi, originária dos trópicos paquistaneses, historicamente foi introduzida no Brasil nos anos 30 do século passado, mas foi em 1952 que ocorreu a mais significativa introdução de animais desta raça por meio da importação de 31 fêmeas e machos pelo abnegado Dr. Felisberto de Camargo, naquela época diretor do Instituto Agronômico do Norte, situado em Belém do Pará.
Vênus E com Guerreira BRS ao pé. Ipirá-Ba
    Estes animais importados foram selecionados na sua origem, baseado principalmente em critérios produtivos, sendo considerado a base do nosso rebanho Sindi atual, que se encontra predominantemente nas regiões Nordeste e Norte do país, com pequenos núcleos na região Sudeste.
     A raça apresenta como características principais pelagem de cor avermelhada, ideal para as regiões tropicais e sub-tropicais, o seu pequeno porte, também considerado ideal pelo melhor aproveitamento por área, além do menor consumo absoluto de alimentos, a boa eficiência reprodutiva e principalmente a boa capacidade de produção de leite, tanto em quantidade como em qualidade. Além destas vantagens sobressai a sua excelente adaptabilidade às condições adversas de clima e de manejo, principalmente alimentar, nas condições de semi-árido nordestino.
Sindi na caatinga - Ipirá - Ba
     

Dado a estes atributos e ao desempenho destes animais, torna-se importante a sua difusão e multiplicação como raça pura e em cruzamento com raças taurinas, principalmente a Jersey, obtendo-se animais produtivos, resistentes e de pequeno porte, recomendados principalmente para pequenas explorações leiteiras típicos da Agricultura familiar.
     A Embrapa Gado de Leite vem apoiando os poucos criadores da raça na divulgação e conhecimento do potencial destes animais para a pecuária nacional, considerando-a uma excelente opção principalmente para as regiões adversas de manejo do Nordeste brasileiro. 
     

     Atualmente dois núcleos de criação situados no estado da Paraíba, um da EMEPA em Alagoinha e outro do Dr. Manuel Dantas Vilar Filho em Taperoá, ambos de importância histórica e técnico pelo trabalho de seleção, são acompanhados rotineiramente quanto à reprodução, produção e composição do leite, assim como as principais características morfológicas relacionadas às características produtivas, como tamanho corporal, conformação de úbere, temperamento, etc. Estes animais são mantidos em regime de pasto, próprios da região, sendo suplementados principalmente com alimentação alternativa sempre que se torna necessário devido à seca.
Sindi da Embrapa Semi-Árido - CPATSA
     
     Anualmente faz-se a avaliação genética de vacas e touros destes rebanhos, para a produção de leite, cujos resultados são repassados aos respectivos criadores auxiliando-os nos acasalamentos e descartes, promovendo com isto o seu melhoramento genético.
     Baseando-se nas informações disponíveis no banco de dados da Embrapa Gado de Leite, a média da produção de leite de 256 animais avaliados foi de 2.214 kg, com duração média de 274 dias de lactação, enquanto que a idade média ao primeiro

25 de set. de 2011

O ZEBU

Indus River
Está plenamente provado que o mesmo tipo de Zebu que se encontra por toda a Índia e em grande parte do continente negro, já se achava a serviço do homem ao tempo da falada civilização ariana cujos traços são hoje encontrados ainda, na vasta zona do “talweg” do rio Indus, o grande caudal histórico do noroeste indiano.
 

O principal testemunho disto são os frescos, faianças e terracotas, obras de talha em bronze e ouro, etc., encontrados nas escavações efetuadas pelos arqueólogos ingleses nas ruínas da pré-histórica cidade de Mohen-jo-Dahro, à margem esquerda do Indus, com a supervisão do eminente sábio Sir John Marshall. Nessas escavações foram encontrados vasos, estatuetas e medalhões tendo, esculpidas e desenhadas figuras de Zebus. Entre estes medalhões tem lugar de destaque o célebre selo de bronze, conhecido sob a denominação de “selo de Mohen-jo-Dahro”, considerado como tendo sido fundido cerca de 3.000 anos antes da era cristã.
Selo de Mohen-jo-Dahro


Cancredje
 
Cientistas tais como L. H. Shirlaw, que estudaram, com vigor, a origem do Zebu, nos ensinam que, por aquela época, existiam, na mesma região, dois tipos distintos de boi, sendo que um desses tipos de menor tamanho pode ter pertencido a uma raça destituída de giba, que é o distintivo predominante do “Bos índicos”. Todavia ficou bem averiguado que os vestígios desse boi só foram encontrados nas camadas superficiais das escavações, enquanto que, nas camadas inferiores foram encontrados unicamente vestígios do Zebu. Isto prova, à sociedade, que o Zebu existiu, na região, séculos antes de ai ter dado entrada i “Bos taurus”, propriamente dito. O próprio Sir John Marshall, que acima nos referimos, declara que nos detritos e esculturas encontrados em Mohen-jo-Dahro, se tem a prova de que o gado ora existente no noroeste da Índia, pertence à mesma raça dos existentes na região, naquela época pré-histórica. Este gado é hoje aí representado pelo Cancredje, pelo Guzerate, etc.

Ilustrações de peças de terra cota



Esta mesma observação nos foi transmitida pelo eminente bovitecnista o Coronel Sir Arthur Olver, consultor técnico do Serviço Animal do Imperial Conselho de Pesquisas Agrícolas da Índia. Diz-nos ele, que é marcante a semelhança entre o Cancredje com o célebre animal esculpido no selo de Mohen-jo-Dahro.

Os mesmos autores chamam a atenção para a semelhança do Cancredje com o gado “Fulani”, da África Ocidental. Assim deveria nos parecer que o gado branco cinza do norte indiano, com seus longos chifres em forma de lira, seja parente próximo do gado do acidente africano, tendo ambos a mesma origem.

Todavia nos repugna aceitar a teoria de que o Zebu de chifres grandes seja uma mistura do gado Hamítico (da África equatorial) de chifres longos e sem bossa, com o Zebu de chifres curtos.

O Zebu de chifres curtos é um bovino comparativamente moderno na Índia e muito mais ainda na África. Segundo a opinião de Epstein, na sua obra “Heredity”, publicada em 1933, o Zebu de chifres curtos é o resultado do cruzamento dos “Bos brachyceros” com o Zebu “de chifres laterais”. Todavia a única prova de ter o “Bos Brachyceros” atingido a Índia nós a temos ainda nas escavações de Mohen-jo-Dahro onde se encontram nos “strata”superiores, vestígios de uma raça de bois possivelmente destituídos de giba (não se excluindo a hipótese de se tratar de Zebus castrados cedo ou de vacas, onde o cupim pouco aparece).


Mehrgarh, um dos mais importantes sítio arqueológico do Neolítico
(7.000 a.C. a 3.200 a.C.), encontra-se na planície Kachi do
Baluquistão, no Paquistão, e é um dos primeiros sites com evidência
de agricultura (trigo e cevada) e de pastoreio (gado, ovinos e
caprinos) no sul da Ásia.
 Quanto ao “Zebu de chifres laterais”, de Epstein, este não foi encontrado nas indagações pré-históricas da Índia, a não ser que se queira encontrar alguma afinidade entre ele e o Gire as suas sub-raças e, quiçá, no Sind ou mesmo no Africânder, da África do Sul.
Em todo o caso é aceitável a suposição de Olver, de que o Zebu de chifres curtos, representado hoje pelo Bahgnari, pelo Hariana, pelo Ongole e outros, tenha acompanhado os vedo-arianos durante a invasão da Península Indiana, invasão essa que, segundo Smith, na sua “Oxford History of Índia”<1933> se processou de 2.000 a 1.500 a.C. Smith faz notar a circunstância de que esses povos emigrantes deixaram traços indeléveis de sua passagem desde o Himalaia, de noroeste para leste, até ao extremo sul da península Indiana. O mesmo pode-se dizer do Zebu de chifres curtos, raça de predicados duplos de leite e tração. A penetração desse gado na Índia é evidenciada pelos tipos raciais conservados dentro de uma faixa em vasta diagonal, que tendo seu inicio em Karat, fora das fronteiras ocidentais do Belutchistão vai ganhar o Golfo de Bengala no oriente da Índia, um pouco ao norte da cidade de Madras.

E não é só isto. A diferença entre as raças hoje consideradas distintas uma das outras, com caracteres tidos, atualmente, como perfeitamente definidos, como por exemplo, se dá com o Bhagnari, com o Hariana, com o Ongole, é realmente muito diminuta mesmo. É tão

 diminuto que quem não estiver profundamente a par dos pequenos detalhes marcantes nos indivíduos de cada grup
o, não os poderá diferenciar.
Destarte muitos consideram, talvez, a esta diferenciação mera convenção e que, na verdade não o é, pois há características peculiares a cada um desses ramos e pelos quais se podem distinguir qualquer dos grupos, sem receio de erro e, mesmo, sem grandes conhecimentos técnicos.
Quanto à origem do Gir e das raças suas subsidiárias há diversas hipóteses, sendo a mais aceitável de que

19 de set. de 2011

O NORDESTE EXIGE SOLUÇÕES PRÓPRIAS.

          
                          Sabemos que  o que se apresentava como solução há alguns anos atrás hoje pode ser considerado um problema, vemos isso todos os dias a nossa volta. Nas grandes cidades construções copiadas do padrão europeu ou norte americano se transformaram em verdadeiros problemas para quem é obrigado a conviver diariamente com elas. Muitas vezes arquitetos e engenheiros ao construir prédios destinados ao clima tropical, esquecem disso utilizando materiais que em vez de refrescar o ambiente o aquecem, e até o mau posicionamento de simples janelas ou portas podem levar um empreendimento a apresentar um custo exorbitante e pro resto da vida com o uso da energia elétrica para manter condicionadores de ar ligados o dia todo. É muito comum vermos isso também em veículos, máquinas e equipamentos, falta a criatividade de procurar soluções próprias.
               Assim como na construção civil e na indústria, no campo é comum convivermos com esse mesmo problema, muitas empresas multinacionais que visam o lucro (delas) a qualquer custo oferecem produtos e técnicas mirabolantes que deram muito certo na Holanda, França, EUA e até na Dinamarca, porém será que são apropriadas para regiões como o semi-árido nordestino? Será que um animal que produz leite ou carne em regiões da França poderá ser economicamente viável nos sertões?
               Não é segredo para ninguém que produzir alimento, tanto para humanos como para animais , no semi-árido é uma tarefa difícil. Sabemos que no sertão dispomos de apenas alguns meses de índices pluviométricos razoáveis. Especialistas da pecuária brasileira e da indústria da carne projetam que o ‘boi do futuro” deve ser um animal capaz de atender a crescente demanda mundial por proteína animal e corresponder também as exigências dos consumidores globais que não abrem mão dos princípios éticos e ambientais. O  “boi do futuro”deve ser precoce,abatido no máximo aos vinte meses e em média com 450 quilos. A sua carne deve ser magra e ele deve ser fruto de fazendas orgânicas que o criam a pasto de maneira natural e saudável.
                Como grandes fornecedores de proteína animal para o mundo despontam o Brasil e os Estados Unidos, o primeiro fornecendo carne magra a pasto e de baixo custo e o segundo ofertando uma carne gorda proveniente de confinamentos principalmente destinada ao mercado asiático. Com a crescente procura pelos combustíveis “verdes” que é plantado cada vez mais em áreas nobres, o semi-árido nordestino assume cada vez mais a sua vocação pecuária principalmente no criatório extensivo. Para que isso ocorra e podado pelas condições climáticas desfavoráveis o semi-árido deve adotar soluções próprias, e entre elas se encontra um rebanho de origem zebuína autêntica (touros provados), aliado a um manejo eficiente da caatinga preservando a sua estrutura básica e introduzindo novas alternativas de forrageiras consorciadas e perfeitamente adaptadas ao meio ambiente.
              Foram muitos os desastres ambientais na caatinga quando projetos mirabolantes e mal planejados não respeitaram a biodiversidade existente e muito menos as condições adversas climáticas, e o que é pior, muitos desses ‘desastres’ ambientais foram financiados com juros subsidiados pelo próprio governo federal.  É chegada a hora das universidades nordestinas, principalmente as públicas, concentrarem suas pesquisas em soluções viáveis para a região nordestina.O pensamento educacional  brasileiro é tão original e primitivo quanto a arquitetura que recria o neoclássico parisiense no topo de espigões às margens de rios fétidos. Somos teoricamente livres da colonização mas, amarrados intelectualmente aos antigos senhores e incapazes de pensar sozinhos.  Devemos formar profissionais formadores de opinião que conheçam de perto as necessidades do sertão e caso eles queiram seguir as doutrinas do sul ou do sudeste do país , que por favor não ocupem as cadeiras de nossas instituições públicas que já são poucas e deficientes. Na verdade quando o nordeste repensar o seu destino verá como é rico e como as soluções estão à nossa vista, bastando muitas vezes apenas abrir a cortina que os países desenvolvidos insistem em fechar nos negando o maior espetáculo da terra, que é a prosperidade de uma nação.
Cezar  Mastrolorenzo
É produtor rural e criador de Sindi no sertão baiano.
               



4 de set. de 2011

JURADO DA ABCZ, DESPERTA A CURIOSIDADE SOBRE O SINDI, DURANTE A EXPOFEIRA 2011.

Na solenidade de abertura, 
autoridades estaduais e municipais.
Léo (D) da ADAB
     Assim como no ano anterior o Sindi mais uma vez despertou grande interesse por parte dos criadores na EXPOFEIRA.  A Bahia Red Sindi este ano dobrou a quantidade de animais expostos e apresentou em Feira de Santana o melhor da raça SINDI de origem paquistanesa.

Martins (centro) da Casa Campo


O pecuarista e industrial da carne 
Carlos Carvalho (D) .












      No primeiro dia de exposição foi grande o movimento em volta das argolas onde estão sendo expostos os animais. Os criadores, sempre curiosos, tomaram informações e tiraram dúvidas sobre a raça. 
     


Familia Mastrolorenzo
Marcello Araujo (E) e filhas
O entusiasmo pelo Sindi é tão grande que o próprio site oficial da Prefeitura Municipal de Feira de Santana coloca como destaque da festa a participação do SINDI na exposição. A matéria do site coloca a dupla aptidão e a resistência ao clima como principais destaques da raça.
  


Raimundo Fraga Maia (E), 
agrônomo e mangalarguista.
Ideval Martins do Apiário Favo
de Ouro (maior do estado) 
prestigiou a raça.
      No desfile de abertura oficial da festa, estavam presentes diversas autoridades da região como o Prefeito Municipal Tarcísio Pimenta, e sua esposa que é a Deputada Estadual Graça Pimenta, o Deputado Estadual Zé Neto, o Deputado Estadual Carlos Geilson, o Presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Feira de Santana Dr. Carlos Henrique entre outros.
A curiosidade pelo Sindi superou as espectativas da BRS
A BRS, claro, mais uma vez
conquistou todos os prêmios
Paulo Cezar (tratador), Bruna, Maria Julieta e 
Dômine Mastrolorenzo 
Martins (apiário Favo de Ouro)



Alcio Teixeira (Faz Anta Gorda) (E)
e Antonio Pimentel 
(agrônomo e ex-prefeito
de Gov. Mangabeira) (D)
         Como no ano passado, o desfile se iniciou pelos ovinos e caprinos e foi seguido peos bovinos, sendo o Sindi, mais uma vez, elogiado em frente ao palanque, sendo destacada a sua origem paquistanesa e sua dupla aptidão.



      Mas a grande surpresa, até o momento, ficou mesmo por conta do jurado da ABCZ RUBENILDO RODRIGUES. O tarimbado zootecnista fez grandes elogios à raça, durante o julgamento que aconteceu na sexta-feira (9 de setembro), despertando, ainda mais, a curiosidade dos baianos.



 "Estou orgulhoso de julgar o Sindi pela primeira
vez na Bahia" RUBENILDO RODRIGUES.
(zootecnista e jurado da ABCZ).
 
"Este ano são apenas cinco animais, mas, 
muito antes do que se imagina, teremos
centenas de Sindi nas pistas baianas"  
RUBENILDO RODRIGUES.

"Fico feliz por julgar o Sindi aqui na Bahia, não 
por ser bonitinho, pequenininho, mas por ser funcional produtivo 
e extremamente econômico. Quanto pior o ambiente 
a sua volta, mais o Sindi se destaca" RUBENILDO RODRIGUES.

     Obrigado D. Rubenildo. 
     Suas considerações representaram um valioso e oportuno incentivo.
     Receba nossa gratidão.
     
                Bahia Red Sindhi


15 de ago. de 2011

BRS ESTARÁ PRESENTE NA EXPOFEIRA 2011


  Pela segunda vez na Bahia o Sindi participará oficialmente de uma exposição. A Bahia Red Sindi, uma parceria dos criadores baianos José Caetano e Cezar Mastrolorenzo, irá trazer alguns de seus melhores animais para uma das maiores e mais tradicionais exposições agropecuárias da Bahia.
                 Realizada no Parque João Martins da Silva ás margens da principal rodovia do estado a BR-324, a EXPOFEIRA é sem dúvida um dos principais eventos realizados em Feira de Santana, atraindo produtores de diversas partes do país e movimentando o comércio agropecuário do estado.

                 Em 2010 (ver fotos) a BAHIA RED SINDHI apresentou pela primeira vez o SINDI aos produtores da região, sendo o seu stand muito visitado pelos presentes que, na grande maioria, nunca tinham visto um SINDI de perto.  Em sua apresentação oficial no desfile de abertura, diante do palanque onde estavam autoridades baianas e feirenses, a raça SINDI foi especialmente aplaudida. Este ano a BAHIA RED SINDHI deverá apresentar um número maior de animais além de disponibilizar alguns para a venda.
               A BAHIA RED SINDHI convida a todos os amigos, produtores, clientes e colaboradores a visitar o seu stand na EXPOFEIRA 2011 que estará localizado no mesmo local do ano anterior vizinho ao Tatersal Governador João Durval Carneiro.

8 de ago. de 2011

A MÁGICA SERTANEJA.


"Seu Manelito" e Cezar Mastrolorenzo - Faz. Carnaúba - 2010

               Muitas pessoas me perguntam se em vez de ficar lutando contra a seca no semi-árido não era melhor eu vender tudo e comprar uma propriedade em um local de clima mais úmido. Não entendem o porquê da minha birra em lutar contra as adversidades no sertão já que facilmente eu poderia adquirir uma terra em um local com índices pluviométricos mais favoráveis.
               Respondo sempre com uma velha desculpa que a propriedade foi de meu pai, e que por motivos familiares eu dou continuidade ao trabalho dele e outras justificativas melosas e cheias de valores familiares. Na verdade com meu pai já falecido, poderia me desfazer da propriedade e adquirir algo mais fácil de administrar, que ao menos não sofresse das adversidades climáticas do semi-árido. 

               Qual a mágica que a caatinga exerce sobre os sertanejos? De onde sai à conhecida “fibra sertaneja”? A mesma fibra que combateu sozinha metade do exército nacional, lembrando Canudos. A força que faz o caatingueiro enfrentar seca após seca, anos de privações, muitas vezes passando fome. De onde o homem do sertão tira a chama de esperança que move os seus pés calejados através das veredas e caminhos repletos da vegetação seca espinhosa e retorcida?
                 A caatinga, vegetação predominante do semi-árido, parece possuir alma própria, ou seja, quando chega o período das secas, ela se despe, prepara-se para o pior. Livra-se das folhas para preservar ao máximo a própria existência. Quando chega o período das águas de dezembro a março, ela se veste em flor, e no mais lindo espetáculo se torna bonita e perfumada. Tudo é festa. Os passarinhos vão e vem em revoada, os preás correm de toca em toca, procissões de catitus, pequeno porco selvagem, circulam entre os umbuzeiros lambuzando-se de frutos maduros que caem do pé. As Seriemas em grupo fazem coro em baixo dos juazeiros. Jacus do tamanho de galinhas banham-se nos poços de água retidas nos lajedos. Os riachos cantam zoando ao bater nas pedras. A água se perde morro abaixo. O verde dói aos olhos, quando vem o sol ele brilha mais forte transformando o verde em um reluzente verde-prateado. É a fartura.
                De abril a julho tão logo as chuvas se vão o sertanejo armazena o fruto de sua produção, a farinha o feijão e o milho. No chiqueiro na ceva quatro ou cinco leitões esperam a lavagem, pretos não só pela cor dos pelos, mas também pela cor da lama que se espojam. No campo a burregada corre solta, na larga a vacada gorda rumina na sombra de uma velha umburana. Passam-se os meses e os leitões viram mantas de carne seca, conservou-se uma porca para o ano seguinte dar cria, dos cabritos, os que escaparam dos ataques da suçuarana e da jibóia, foram vendidos na feira e feitos em rapadura, sal, café, e pólvora.  Na apartação dos bezerros, o mais bonito da cara preta vai ficar para marruá. Os outros vão pastar na manga do cajueiro.

31 de jul. de 2011

A BAHIA NO NORDESTE


Quando em 2009 adquirimos nossas primeiras vacas Sindi, em leilão da EMEPA - Estação Experimental da Paraíba – com surpresa recebemos do Presidente Paulo Leite a seguinte informação: éramos os primeiros baianos associados à ABCSindi, e a Bahia, o último estado do nordeste a ter criadores associados. Na verdade, desde que iniciamos nossos trabalhos com a raça Sindi, visitando Centros de Pesquisa, Universidades e Fazendas do semiárido da Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte, percebemos o distanciamento entre a cultura agropecuária prevalecente nestes estados e a que é praticada na Bahia. Por que isto acontece? Somos o estado que detém a maior porção de semiárido do Brasil e o que mais insiste em decalcar sistemas de produção pecuária do sudeste e centro-sul.
Será que a Bahia não se sente nordeste?

Neste brilhante artigo, o educador, escritor e presidente da Academia de Letras da Bahia, Doutor Edivaldo Boaventura, traz luz à questão.

Boa leitura a todos.

A BAHIA NO NORDESTE

Por Edivaldo M. Boaventura

Desde que fui funcionário da Sudene que sinto a dificuldade de a Bahia ser plenamente Nordeste. A intensa comunicabilidade entre os estados nordestinos não inclui a Bahia. Se os indicadores econômicos a aproximam da região, a antropologia a diferencia.

26 de jul. de 2011

A PROPÓSITO DA PRODUÇAO DE LEITE NO NORDESTE

No artigo que se segue, o agrônomo e zootecnista Orlando Monteiro defente uma "produção ambientalmente mais amigável e "limpa".  Acreditamos ser este o caminho  mais coerente para a pecuária do semiárido nordestino e, sem dúvida, a genética Sindi poderá dar enorme contribuição neste sentido.
Boa leitura a todos:

A PROPÓSITO DA PRODUÇAO DE LEITE NO NORDESTE
Por Orlando Monteiro de Carvalho Filho
em 19/09/2006

 
Quase sempre lembrado por sua calamitosa face subdesenvolvida e com a percepção distorcida dos investidores públicos e privados de sua incapacidade de retornos econômicos sustentáveis, ressalvas feitas a projetos de agricultura irrigada, o nordeste semiárido tem sido objeto de intervenções paliativas e intempestivas, porém extremamente férteis do ponto de vista eleitoreiro. A cada grande seca, que ciclicamente ocorre, assiste-se a toda sorte de oportunismos políticos, inócuas ações de assistência social, além de propostas tecnológicas milagrosas e impactantes, brotadas de mentes brilhantes de consultores externos.

Não obstante o notável desenvolvimento e a visibilidade da fruticultura irrigada para exportação, o território semiárido nordestino sempre esteve associado à atividade pastoril, suporte de sua conquista desde os primórdios da colonização e que se constitui, ainda hoje, em atividade economicamente predominante e culturalmente determinante da sua identidade sertaneja. Assim é que nele se encontram a quase totalidade do rebanho caprino brasileiro e as principais bacias leiteiras do NE, cuja produção, predominantemente oriunda de pequenas explorações de base familiar, se reveste de inquestionável relevância socioeconômica. De fato, nenhuma outra atividade assegura os benefícios aportados pela atividade leiteira em uma pequena propriedade - fluxo-de-caixa semanal, menores riscos e alta liquidez do capital imobilizado em animais - sobretudo no semiárido, onde poucas opções de reconversão econômica são viáveis, face à sua inconsistência climática.

Malgrado os riscos climáticos, sempre presentes e por demais conhecidos, que restringem a sustentabilidade da agricultura dependente de chuvas, e sem considerar a disponibilidade mais barata dos fatores básicos de produção (terra e mão-de-obra de reconhecido valor), existem ainda outras consideráveis vantagens comparativas no ambiente semiárido para a produção animal em geral e para a bovinocultura leiteira em particular: clima seco, com baixa umidade relativa do ar, favorável à sanidade animal e vegetal, com custos reduzidos para sua manutenção;

1.     a baixa umidade relativa do ar favorece, ainda, o resfriamento evaporativo, melhorando as condições de conforto térmico para a vaca leiteira, com repercussões no seu desempenho produtivo e reprodutivo;
2.     solos de média a alta fertilidade natural que, se adequadamente manejados, requerem pequeno aporte de fertilizantes, além de permitirem a oferta de forragens de boa qualidade na estação chuvosa que, sendo conservadas, diminuem a necessidade de aquisição de quantidades elevadas de rações concentradas;
3.     ainda, por conta do ambiente seco, maior durabilidade das construções rurais, com menores custos de depreciação e manutenção.

Tecnologias que asseguram a sustentabilidade da pequena produção de leite no semiárido foram desenvolvidas pela Embrapa Semiárido e encontram-se disponíveis (www.cnpgl.embrapa.br/) e materializadas em um modelo físico de sistema de produção de base agroecológica, localizado no semiárido sergipano. Este sistema possibilita a produção sustentável de leite de alta qualidade, com baixa utilização de insumos externos, a baixo custo, e fundamenta-se em:

    1.     infraestrutura agrossilvipastoril assentada em espécies nativas e adaptadas ao ambiente semiárido;
2.     diversidade temporal e espacial dos subsistemas cultivados;
3.     uso de animais rústicos, geneticamente compatíveis com o ambiente;
4.     manejo que assegura o bem-estar animal;
5.     práticas de conservação de forragem: ensilagem e fenação;
6.     reciclagem de resíduos vegetais p/animais e de resíduos animais p/cultivos;
7.     métodos preventivos e uso de produtos e processos naturais nos controles fito e zoosanitário;
8.     recomposição da biodiversidade, com ênfase no componente arbóreo em reflorestamentos, arborização de pastagens, cultivos em alamedas, cercas vivas forrageiras e outros sistemas agroflorestais.

A despeito disso, a grande maioria dos pequenos produtores ainda sobrevive do usufruto da baixa oferta ambiental, em um processo de exploração progressiva e inadequada dos recursos naturais e de sua própria mais valia, ora socorrida por políticas sociais compensatórias - leia-se esmolas governamentais - porém tolhida na possibilidade de poder dispor de sua mão-de-obra familiar, (o PETI não permite o uso da mão-de-obra juvenil) que lhe permitiria alguma competitividade na exploração leiteira. Portanto, não parece haver maiores perspectivas de sustentabilidade no horizonte.

Neste contexto, sem escala de produção e sem condições de assalariamento, premido pela necessidade de maior produtividade para fazer face à progressiva fragmentação fundiária, recorrem às tecnologias "modernas", copiando modelos importados de regiões mais favorecidas. Abandonam o uso da tração animal, que limitava a área de solo movimentada a cada ano, e que impunha certa rotação de terras, pela tratorização terceirizada com grades aradoras, aumentando excessivamente a movimentação do/e sobre o solo: em geral rasos e com baixos teores de matéria orgânica. Esse processo não só permitiu expressivo aumento da área plantada com o milho - possibilitado também pelo desenvolvimento de cultivares de ciclo curto - como trouxe o uso descontrolado de herbicidas de alto poder residual (Picloram+ 2,4 D). Somada a isso, a fragilização dos rebanhos, resultante da utilização de animais com alta mestiçagem da raça holandesa, implicando no uso desregrado de pesticidas e antibióticos, tem levado a sinais já perceptíveis de degradação ambiental e de contaminação alimentar que, ao lado de outras ameaças, configuram um quadro de comprometimento da sustentabilidade da cadeia produtiva do leite, conforme ilustrado na figura 1 para o sertão sergipano, que se repete em outras regiões semiáridas nordestinas.

Figura 1. Ameaças à sustentabilidade da cadeia produtiva do leite no sertão sergipano.

Este paradigma produtivista, em busca da produtividade a qualquer custo, gerando elevado passivo socioeconômico e ambiental, em um processo de intensificação injustificado - o NE possui a maior população rural do país e baixos preços de terra - possivelmente acontece por orientação técnica equivocada, e/ou por pura imitação de regiões mais favorecidas, que por sua vez o imitam de países desenvolvidos, onde pequeno número de produtores precisa produzir de forma intensiva, porém subsidiada. Se terra e mão-de-obra não são os fatores de produção mais escassos, porque perseguir altos níveis de produtividade por hectare, ao invés da produtividade por capital investido ou por milímetros de chuva, que são os fatores de produção mais limitantes no semiárido nordestino? Portanto o não alcance dos índices de produtividade obtidos em regiões favorecidas, sempre citados como padrões a serem atingidos, não deveria ser razão para qualquer tipo de percepção de inferioridade entre nordestinos. Quando ajustadas as produtividades elevadas de leite/ha do centro sul (sem irrigação) por milímetros de chuva, por exemplo, verifica-se que não se é tão ineficiente quanto se pensa. O que deveria contar é o custo de produção de leite e sua melhor qualidade, para inserção competitiva no mercado.

De outro lado, tangenciada na discussão da qualidade do leite, há o lado obscuro da contaminação causada pela aplicação indiscriminada de pesticidas usados na pecuária leiteira - ecto e endoticidas cada vez mais frequentes e menos eficientes, por conta da progressiva resistência aos princípios ativos utilizados. A normativa 51 toca muito de passagem neste tema, não o regulamentando da maneira que o faz quanto à qualidade bacteriológica, à CCS e aos resíduos de antibióticos, "coincidentemente" relacionados com perdas industriais. Pouco tem sido feito para se conhecer esse lado da questão, certamente porque laboratórios e esses tipos de análises toxicológicas custam muito caro, inviabilizando pesquisas nesta área, porém mais provavelmente pelo desinteresse de todos os agentes da cadeia produtiva em um problema que ainda não lhe causa perdas econômicas. Como o consumidor médio brasileiro tem uma percepção ingênua da qualidade dos lácteos, parece óbvio que nada será feito nessa direção salvo se as perspectivas de exportação, principalmente para a União Europeia, despertem, a exemplo da carne, para a implementação do programa de controle de resíduos e revelem a gravidade do problema, que certamente não será fácil resolver, tamanha a dependência desses insumos em nossa agropecuária: aliás, um mercado bastante atraente, quarto maior no mundo em agrotóxicos, com um movimento de quase US $ 1,5 bilhão ao ano.

Assim, enquanto a lógica "modernizante" da cadeia produtiva do leite ameaça excluir, de forma crescente, uma parcela incomensurável de produtores do setor formal, a produção ambientalmente mais amigável e mais "limpa", com certificação de origem, demandada por mercados mais exigentes, surge como oportunidade, sobretudo para a produção familiar e particularmente no semiárido, onde seria possível, com seu clima seco e outras vantagens comparativas, produzir leite e derivados com alto valor agregado.
*Orlando Monteiro de Carvalho Filho
Engenheiro Agrônomo, M.Sc. em Zootecnia,
Pesquisador da Embrapa Semiárido.

Pensamento do mês