15 de ago. de 2011

BRS ESTARÁ PRESENTE NA EXPOFEIRA 2011


  Pela segunda vez na Bahia o Sindi participará oficialmente de uma exposição. A Bahia Red Sindi, uma parceria dos criadores baianos José Caetano e Cezar Mastrolorenzo, irá trazer alguns de seus melhores animais para uma das maiores e mais tradicionais exposições agropecuárias da Bahia.
                 Realizada no Parque João Martins da Silva ás margens da principal rodovia do estado a BR-324, a EXPOFEIRA é sem dúvida um dos principais eventos realizados em Feira de Santana, atraindo produtores de diversas partes do país e movimentando o comércio agropecuário do estado.

                 Em 2010 (ver fotos) a BAHIA RED SINDHI apresentou pela primeira vez o SINDI aos produtores da região, sendo o seu stand muito visitado pelos presentes que, na grande maioria, nunca tinham visto um SINDI de perto.  Em sua apresentação oficial no desfile de abertura, diante do palanque onde estavam autoridades baianas e feirenses, a raça SINDI foi especialmente aplaudida. Este ano a BAHIA RED SINDHI deverá apresentar um número maior de animais além de disponibilizar alguns para a venda.
               A BAHIA RED SINDHI convida a todos os amigos, produtores, clientes e colaboradores a visitar o seu stand na EXPOFEIRA 2011 que estará localizado no mesmo local do ano anterior vizinho ao Tatersal Governador João Durval Carneiro.

8 de ago. de 2011

A MÁGICA SERTANEJA.


"Seu Manelito" e Cezar Mastrolorenzo - Faz. Carnaúba - 2010

               Muitas pessoas me perguntam se em vez de ficar lutando contra a seca no semi-árido não era melhor eu vender tudo e comprar uma propriedade em um local de clima mais úmido. Não entendem o porquê da minha birra em lutar contra as adversidades no sertão já que facilmente eu poderia adquirir uma terra em um local com índices pluviométricos mais favoráveis.
               Respondo sempre com uma velha desculpa que a propriedade foi de meu pai, e que por motivos familiares eu dou continuidade ao trabalho dele e outras justificativas melosas e cheias de valores familiares. Na verdade com meu pai já falecido, poderia me desfazer da propriedade e adquirir algo mais fácil de administrar, que ao menos não sofresse das adversidades climáticas do semi-árido. 

               Qual a mágica que a caatinga exerce sobre os sertanejos? De onde sai à conhecida “fibra sertaneja”? A mesma fibra que combateu sozinha metade do exército nacional, lembrando Canudos. A força que faz o caatingueiro enfrentar seca após seca, anos de privações, muitas vezes passando fome. De onde o homem do sertão tira a chama de esperança que move os seus pés calejados através das veredas e caminhos repletos da vegetação seca espinhosa e retorcida?
                 A caatinga, vegetação predominante do semi-árido, parece possuir alma própria, ou seja, quando chega o período das secas, ela se despe, prepara-se para o pior. Livra-se das folhas para preservar ao máximo a própria existência. Quando chega o período das águas de dezembro a março, ela se veste em flor, e no mais lindo espetáculo se torna bonita e perfumada. Tudo é festa. Os passarinhos vão e vem em revoada, os preás correm de toca em toca, procissões de catitus, pequeno porco selvagem, circulam entre os umbuzeiros lambuzando-se de frutos maduros que caem do pé. As Seriemas em grupo fazem coro em baixo dos juazeiros. Jacus do tamanho de galinhas banham-se nos poços de água retidas nos lajedos. Os riachos cantam zoando ao bater nas pedras. A água se perde morro abaixo. O verde dói aos olhos, quando vem o sol ele brilha mais forte transformando o verde em um reluzente verde-prateado. É a fartura.
                De abril a julho tão logo as chuvas se vão o sertanejo armazena o fruto de sua produção, a farinha o feijão e o milho. No chiqueiro na ceva quatro ou cinco leitões esperam a lavagem, pretos não só pela cor dos pelos, mas também pela cor da lama que se espojam. No campo a burregada corre solta, na larga a vacada gorda rumina na sombra de uma velha umburana. Passam-se os meses e os leitões viram mantas de carne seca, conservou-se uma porca para o ano seguinte dar cria, dos cabritos, os que escaparam dos ataques da suçuarana e da jibóia, foram vendidos na feira e feitos em rapadura, sal, café, e pólvora.  Na apartação dos bezerros, o mais bonito da cara preta vai ficar para marruá. Os outros vão pastar na manga do cajueiro.

31 de jul. de 2011

A BAHIA NO NORDESTE


Quando em 2009 adquirimos nossas primeiras vacas Sindi, em leilão da EMEPA - Estação Experimental da Paraíba – com surpresa recebemos do Presidente Paulo Leite a seguinte informação: éramos os primeiros baianos associados à ABCSindi, e a Bahia, o último estado do nordeste a ter criadores associados. Na verdade, desde que iniciamos nossos trabalhos com a raça Sindi, visitando Centros de Pesquisa, Universidades e Fazendas do semiárido da Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte, percebemos o distanciamento entre a cultura agropecuária prevalecente nestes estados e a que é praticada na Bahia. Por que isto acontece? Somos o estado que detém a maior porção de semiárido do Brasil e o que mais insiste em decalcar sistemas de produção pecuária do sudeste e centro-sul.
Será que a Bahia não se sente nordeste?

Neste brilhante artigo, o educador, escritor e presidente da Academia de Letras da Bahia, Doutor Edivaldo Boaventura, traz luz à questão.

Boa leitura a todos.

A BAHIA NO NORDESTE

Por Edivaldo M. Boaventura

Desde que fui funcionário da Sudene que sinto a dificuldade de a Bahia ser plenamente Nordeste. A intensa comunicabilidade entre os estados nordestinos não inclui a Bahia. Se os indicadores econômicos a aproximam da região, a antropologia a diferencia.

26 de jul. de 2011

A PROPÓSITO DA PRODUÇAO DE LEITE NO NORDESTE

No artigo que se segue, o agrônomo e zootecnista Orlando Monteiro defente uma "produção ambientalmente mais amigável e "limpa".  Acreditamos ser este o caminho  mais coerente para a pecuária do semiárido nordestino e, sem dúvida, a genética Sindi poderá dar enorme contribuição neste sentido.
Boa leitura a todos:

A PROPÓSITO DA PRODUÇAO DE LEITE NO NORDESTE
Por Orlando Monteiro de Carvalho Filho
em 19/09/2006

 
Quase sempre lembrado por sua calamitosa face subdesenvolvida e com a percepção distorcida dos investidores públicos e privados de sua incapacidade de retornos econômicos sustentáveis, ressalvas feitas a projetos de agricultura irrigada, o nordeste semiárido tem sido objeto de intervenções paliativas e intempestivas, porém extremamente férteis do ponto de vista eleitoreiro. A cada grande seca, que ciclicamente ocorre, assiste-se a toda sorte de oportunismos políticos, inócuas ações de assistência social, além de propostas tecnológicas milagrosas e impactantes, brotadas de mentes brilhantes de consultores externos.

Não obstante o notável desenvolvimento e a visibilidade da fruticultura irrigada para exportação, o território semiárido nordestino sempre esteve associado à atividade pastoril, suporte de sua conquista desde os primórdios da colonização e que se constitui, ainda hoje, em atividade economicamente predominante e culturalmente determinante da sua identidade sertaneja. Assim é que nele se encontram a quase totalidade do rebanho caprino brasileiro e as principais bacias leiteiras do NE, cuja produção, predominantemente oriunda de pequenas explorações de base familiar, se reveste de inquestionável relevância socioeconômica. De fato, nenhuma outra atividade assegura os benefícios aportados pela atividade leiteira em uma pequena propriedade - fluxo-de-caixa semanal, menores riscos e alta liquidez do capital imobilizado em animais - sobretudo no semiárido, onde poucas opções de reconversão econômica são viáveis, face à sua inconsistência climática.

Malgrado os riscos climáticos, sempre presentes e por demais conhecidos, que restringem a sustentabilidade da agricultura dependente de chuvas, e sem considerar a disponibilidade mais barata dos fatores básicos de produção (terra e mão-de-obra de reconhecido valor), existem ainda outras consideráveis vantagens comparativas no ambiente semiárido para a produção animal em geral e para a bovinocultura leiteira em particular: clima seco, com baixa umidade relativa do ar, favorável à sanidade animal e vegetal, com custos reduzidos para sua manutenção;

1.     a baixa umidade relativa do ar favorece, ainda, o resfriamento evaporativo, melhorando as condições de conforto térmico para a vaca leiteira, com repercussões no seu desempenho produtivo e reprodutivo;
2.     solos de média a alta fertilidade natural que, se adequadamente manejados, requerem pequeno aporte de fertilizantes, além de permitirem a oferta de forragens de boa qualidade na estação chuvosa que, sendo conservadas, diminuem a necessidade de aquisição de quantidades elevadas de rações concentradas;
3.     ainda, por conta do ambiente seco, maior durabilidade das construções rurais, com menores custos de depreciação e manutenção.

Tecnologias que asseguram a sustentabilidade da pequena produção de leite no semiárido foram desenvolvidas pela Embrapa Semiárido e encontram-se disponíveis (www.cnpgl.embrapa.br/) e materializadas em um modelo físico de sistema de produção de base agroecológica, localizado no semiárido sergipano. Este sistema possibilita a produção sustentável de leite de alta qualidade, com baixa utilização de insumos externos, a baixo custo, e fundamenta-se em:

    1.     infraestrutura agrossilvipastoril assentada em espécies nativas e adaptadas ao ambiente semiárido;
2.     diversidade temporal e espacial dos subsistemas cultivados;
3.     uso de animais rústicos, geneticamente compatíveis com o ambiente;
4.     manejo que assegura o bem-estar animal;
5.     práticas de conservação de forragem: ensilagem e fenação;
6.     reciclagem de resíduos vegetais p/animais e de resíduos animais p/cultivos;
7.     métodos preventivos e uso de produtos e processos naturais nos controles fito e zoosanitário;
8.     recomposição da biodiversidade, com ênfase no componente arbóreo em reflorestamentos, arborização de pastagens, cultivos em alamedas, cercas vivas forrageiras e outros sistemas agroflorestais.

A despeito disso, a grande maioria dos pequenos produtores ainda sobrevive do usufruto da baixa oferta ambiental, em um processo de exploração progressiva e inadequada dos recursos naturais e de sua própria mais valia, ora socorrida por políticas sociais compensatórias - leia-se esmolas governamentais - porém tolhida na possibilidade de poder dispor de sua mão-de-obra familiar, (o PETI não permite o uso da mão-de-obra juvenil) que lhe permitiria alguma competitividade na exploração leiteira. Portanto, não parece haver maiores perspectivas de sustentabilidade no horizonte.

Neste contexto, sem escala de produção e sem condições de assalariamento, premido pela necessidade de maior produtividade para fazer face à progressiva fragmentação fundiária, recorrem às tecnologias "modernas", copiando modelos importados de regiões mais favorecidas. Abandonam o uso da tração animal, que limitava a área de solo movimentada a cada ano, e que impunha certa rotação de terras, pela tratorização terceirizada com grades aradoras, aumentando excessivamente a movimentação do/e sobre o solo: em geral rasos e com baixos teores de matéria orgânica. Esse processo não só permitiu expressivo aumento da área plantada com o milho - possibilitado também pelo desenvolvimento de cultivares de ciclo curto - como trouxe o uso descontrolado de herbicidas de alto poder residual (Picloram+ 2,4 D). Somada a isso, a fragilização dos rebanhos, resultante da utilização de animais com alta mestiçagem da raça holandesa, implicando no uso desregrado de pesticidas e antibióticos, tem levado a sinais já perceptíveis de degradação ambiental e de contaminação alimentar que, ao lado de outras ameaças, configuram um quadro de comprometimento da sustentabilidade da cadeia produtiva do leite, conforme ilustrado na figura 1 para o sertão sergipano, que se repete em outras regiões semiáridas nordestinas.

Figura 1. Ameaças à sustentabilidade da cadeia produtiva do leite no sertão sergipano.

Este paradigma produtivista, em busca da produtividade a qualquer custo, gerando elevado passivo socioeconômico e ambiental, em um processo de intensificação injustificado - o NE possui a maior população rural do país e baixos preços de terra - possivelmente acontece por orientação técnica equivocada, e/ou por pura imitação de regiões mais favorecidas, que por sua vez o imitam de países desenvolvidos, onde pequeno número de produtores precisa produzir de forma intensiva, porém subsidiada. Se terra e mão-de-obra não são os fatores de produção mais escassos, porque perseguir altos níveis de produtividade por hectare, ao invés da produtividade por capital investido ou por milímetros de chuva, que são os fatores de produção mais limitantes no semiárido nordestino? Portanto o não alcance dos índices de produtividade obtidos em regiões favorecidas, sempre citados como padrões a serem atingidos, não deveria ser razão para qualquer tipo de percepção de inferioridade entre nordestinos. Quando ajustadas as produtividades elevadas de leite/ha do centro sul (sem irrigação) por milímetros de chuva, por exemplo, verifica-se que não se é tão ineficiente quanto se pensa. O que deveria contar é o custo de produção de leite e sua melhor qualidade, para inserção competitiva no mercado.

De outro lado, tangenciada na discussão da qualidade do leite, há o lado obscuro da contaminação causada pela aplicação indiscriminada de pesticidas usados na pecuária leiteira - ecto e endoticidas cada vez mais frequentes e menos eficientes, por conta da progressiva resistência aos princípios ativos utilizados. A normativa 51 toca muito de passagem neste tema, não o regulamentando da maneira que o faz quanto à qualidade bacteriológica, à CCS e aos resíduos de antibióticos, "coincidentemente" relacionados com perdas industriais. Pouco tem sido feito para se conhecer esse lado da questão, certamente porque laboratórios e esses tipos de análises toxicológicas custam muito caro, inviabilizando pesquisas nesta área, porém mais provavelmente pelo desinteresse de todos os agentes da cadeia produtiva em um problema que ainda não lhe causa perdas econômicas. Como o consumidor médio brasileiro tem uma percepção ingênua da qualidade dos lácteos, parece óbvio que nada será feito nessa direção salvo se as perspectivas de exportação, principalmente para a União Europeia, despertem, a exemplo da carne, para a implementação do programa de controle de resíduos e revelem a gravidade do problema, que certamente não será fácil resolver, tamanha a dependência desses insumos em nossa agropecuária: aliás, um mercado bastante atraente, quarto maior no mundo em agrotóxicos, com um movimento de quase US $ 1,5 bilhão ao ano.

Assim, enquanto a lógica "modernizante" da cadeia produtiva do leite ameaça excluir, de forma crescente, uma parcela incomensurável de produtores do setor formal, a produção ambientalmente mais amigável e mais "limpa", com certificação de origem, demandada por mercados mais exigentes, surge como oportunidade, sobretudo para a produção familiar e particularmente no semiárido, onde seria possível, com seu clima seco e outras vantagens comparativas, produzir leite e derivados com alto valor agregado.
*Orlando Monteiro de Carvalho Filho
Engenheiro Agrônomo, M.Sc. em Zootecnia,
Pesquisador da Embrapa Semiárido.

18 de jul. de 2011

SEMI-ÁRIDO. UMA QUESTÃO DE CONVIVÊNCIA.

       O semi-árido brasileiro tem sido fonte de diversos programas de ajuda e amparo desde o tempo de Dom Pedro II.  Quando ocorreu a seca de 1877, foi criada uma comissão imperial para que se suprissem as necessidades humanas e dos animais. Desta comissão, que funcionou até a queda do império quando foi então dissolvida, resultou na política de construção de açudes, tendo como destaque o açude do Cedro em Quixadá no Ceará.  Depois de instalada a república, alguns anos mais tarde, foi criado o IOCS transformado em IFOCS e depois o DNOCS.
       Sempre pensado como um problema, na grande maioria das vezes a tentativa era quase sempre de combater a seca e não de aprender a conviver com ela. Foram construídos açudes, perfurados poços artesianos e pavimentadas estradas. Mas, por mais que fizessem os poucos recursos destinados e a falta de conhecimento sobre o semi-árido , pulverizaram os esforços em uma gigantesca área como é o sertão. Aliado a isso a má gestão destes recursos e a utilização destes para fins eleitorais,   geraram má aplicação e até mesmo desvio das verbas comprometendo uma já ineficiente política de combate a seca.
      Juscelino Kubitschek na década de cinqüenta cria então o Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste, o GTDN liderado pelo economista Celso Furtado, este grupo tem como função repensar o nordeste de maneira sócio-econômica e dele se tira a conclusão que um dos processos para alavancar a economia nordestina seria a industrialização da mesma, daí nasce a SUDENE. Com ações voltadas para industrialização e colocando em segundo plano o campo, as ações da SUDENE eram isoladas e corriam a margem de outras ações regionais que incluíam o BNB Banco do Nordeste, CODEVASF, e o DNOCS. Os projetos começavam a surgir, mas quase sempre o investimento de difícil acesso ao pequeno produtor, beneficiava sempre os grandes latifundiários e industriais. Houve então o êxodo rural e o inchamento das regiões urbanas com a proliferação das favelas. O semi-árido como um sistema sócio-econômico ainda era inviável aos olhos do governo federal.
       Na década de oitenta, com a entrada do Banco Mundial financiando pequenos projetos de sustentabilidade regional, e com o aprofundamento dos estudos sobre a convivência com o sertão, o nordeste começa então lentamente receber recursos destinados a adaptar o homem ao meio ambiente.  Não mais se deseja retirar o sertanejo do seu habitat em direção aos grandes centros urbanos como mão de obra barata, quase escrava, e sim dar condições para que ele permaneça e desenvolva-se no meio em que vive com qualidade de vida e geração de renda. Com o surgimento das ONGS e com o incentivo dado a agricultura familiar o sertanejo começa a conhecer o associativismo e ter a idéia de cidadania e comunidade. O que antes era recebido como esmola de uma elite paternalista, agora era um direito adquirido e passivo a ser exigido com força de lei.
          Programas como o “luz para todos”, Programa Um Milhão de Cisternas, Projeto Áridas, o CONVIVER entre outros começam lentamente a mudar a cara do sertão. Políticas públicas como o bolsa renda e a aposentadoria do trabalhador rural, são muitas vezes a única fonte de renda de famílias inteiras. O sertanejo agora com energia em sua casa instala uma antena parabólica , e começa a enxergar além da serra repleta de mandacarus e gravatás, abre-se um novo mundo onde os bens de consumo antes inatingíveis estão agora com o aumento da renda ao seu alcance. A comunicação cada vez mais popularizada através do aparelho celular, a TV, a geladeira e a troca do jumento por uma rápida e econômica motocicleta faz desse novo sertanejo mais do que um cidadão, o transforma de cativo vivendo na marginalidade a consumidor de bens industriais.
       A nova cara do sertão não passa apenas pelo apelo sócio-econômico criando um novo mercado consumidor, a transformação vai mais além, novas técnicas de manejo agropastoril e novas raças de bovinos, caprinos e ovinos bem mais adaptadas estão sendo introduzidas, nas universidades as graduações já entendem o sertão de forma individual, com soluções próprias. As soluções milagrosas importadas de países de clima temperado e dos estados do sul e sudeste são repensadas, o semi-árido começa a tomar às rédeas de seu próprio destino e  abre suas veredas rumo à sustentabilidade aliada a preservação de seus recursos naturais, conservando a sua rica cultura, sem deixar de vislumbrar o futuro.
Cezar Mastrolorenzo
Produtor Rural.

17 de jul. de 2011

CAATINGAS - DEGRADAÇÃO E OPORTUNIDADE

          O senso comum vê o "nordeste" como uma região de aparência uniforme e clima seco. O senso crítico mostra, entretanto, que o vasto território nordestino apresenta um dos mais diversificados climas do Brasil. Por convenção a geografia divide o Nordeste em quatro sub-regiões: Zona da Mata que acompanha o Oceano Atlântico do Rio Grande do Norte até o sul da Bahia, onde encontramos o pouco que restou da exuberante Mata Atlântica; Meio Norte que compreende grande parte do Piauí e todo o Maranhão, onde estão as matas dos cocais e babaçuais; Sertão, que é a parte mais interior de praticamente todos os estados nordestinos e Agreste, estreita faixa entre a Zona da Mata e o Sertão interiorano, com características das duas sub-regiões adjacentes, partes quase tão secas como o Sertão e outras bastante chuvosas. O Nordeste brasileiro é, portanto “um conjunto de regiões muito diferentes [...] onde há um pouco de tudo”, como ensinava o eminente agrônomo Frederico Pimentel Gomes. 

"Caatingas - grandes tablados onde campeia a sociedade rude dos vaqueiros”.
Euclides da Cunha

          Agreste, Sertão e uma pequena parte do Meio Norte compõem o semi-árido nordestino, caracterizado pela baixa umidade do ar, baixa pluviometria e freqüentes “secas”. Resistindo às adversidades do clima semi-árido através de adaptações naturais, esta a Caatinga com suas várias feições, desde as arbóreas úmidas e densas até as arbustivas abertas e extremamente secas. Estas últimas representam o “nordeste” do imaginário popular que teve em Euclides da Cunha sua melhor descrição: “Arbúsculos quase sem pega sobre a terra escassa, enredados de esgalhos de onde irrompem solitários cereus rígidos e silentes, dando ao conjunto a aparência de uma margem de desertos”. 
Eu acho o Sertão bonito exatamente por causa daquilo que os delicados acham feio... o Sol implacável... e a Caatinga espinhosa e selvagem, povoada de répteis envenenados, de aves de rapina, escorpiões, marimbondos e piolhos-de-cobra”.
Ariano Suassuna

          O entendimento dos cientistas é que a semi-aridez do nordeste brasileiro foi provocada por alterações geológicas e climáticas ocorridas em época bastante remota, anterior, inclusive, ao surgimento da espécie humana no planeta. Consequentemente, sua vegetação não é resultado da degradação provocada pelo homem como ocorreu em outras regiões semi-desérticas do mundo. Mas, se o homem não esta na origem da Caatinga, por certo, causou-lhe modificações significativas. O semi-árido nordestino sofreu uma forte pressão de ocupação desde os tempos coloniais, quando a necessidade de atender à demanda de alimentos da população que se multiplicava no litoral determinou o avanço da pecuária para os sertões, onde o clima arejado e seco era propício aos rebanhos. Com o povoamento dos sertões, a caatinga, que na língua Tupi significa “mata esbranquiçada”, em referência a seu aspecto na estação seca, progressivamente foi sendo exaurida pelas queimadas para melhorar os pastos e para abrir as roças de algodão, pela extração de madeira para lenha, cercas, currais, galpões, casas e dormentes de ferrovia. Também pela exploração de ouro, cobre, ferro, mica, caulim, gesso, pedras preciosas e semipreciosas.

                                                            “Foi o gado bovino quem guiou o povoador para os sertões; e não o rancheiro quem trouxe o gado para cá!”
Dilemar Costa

          O longo histórico de exploração fez da Caatinga, muito provavelmente, o ecossistema mais degradado do Brasil depois da Mata Atlântica. Salvo valiosas exceções, grande parte da vegetação remanescente, perdeu suas características originais. Restou uma “caatinga” desfigurada que não conssegue proteger o solo das chuvas torrênciais características do semi-árido. Uma “caatinga” secundária onde a erosão esta presente e a fauna praticamente desapareceu. Na estação seca, árvores e arbustos perdem suas folhas avidamente pastejadas por cabras, ovelhas e vacas. As primeiras chuvas atingem o terreno desprotegido, provocando a retirada de sedimentos. A degradação dos solos avança e, exaurida, a natureza recua.

          Em nenhuma outra parte do mundo existe bioma igual à caatinga. Suas espécies nativas, expressando as possibilidades de adaptação da natureza a regiões de elevado potencial de evapotranspiração com baixa e irregular precipitação, ganharam enorme relevância ante a probabilidade do aquecimento global. Restrito ao território brasileiro suas peculiaridades exigem tecnologias próprias e atenção especial. Apesar disto, continuamos convivendo com sistemas de produção incompatíveis e agressivos, responsáveis pela “degradação generalizada” que tem provocado menor capacidade de recuperação a secas e facilitado o surgimento de núcleos de desertificação. Felizmente, como afirmava Albert Einstein, “no meio da dificuldade encontra-se a oportunidade”. De fato, recentes estudos revelam que as maiores oportunidades para seqüestro e armazenamento de CO² no solo estão, justamente, em terras secas degradadas (Review of evidence on drylands pastoral systems and climate change - 2009). Desta forma, reverter o processo de degradação da caatinga deixou de ser apenas uma necessidade, constituindo-se agora numa oportunidade para combater o “efeito estufa”.

JOSÉ CAETANO RICCI DE ARAÚJO
Eng° Agrônomo e Produtor Rural
Ipirá – Bahia

16 de jul. de 2011

A CADEIA DA CARNE E A QUESTÃO AMBIENTAL

           A partir da segunda grande guerra, o processo mundial de globalização (integração, social, cultural, política, e econômica), fez surgir a questão da “uniformização internacional de normas e procedimentos” ou “padronização internacional” que pretende facilitar o livre comércio entre países. Neste contexto surgiu a série ISO.
A International Organization for Standardization - ISO, com sede em Genebra, Suíça é uma organização internacional, fundada em 1946, cujos membros são entidades normativas provenientes de 111 países como a ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas. Tornou-se popular a partir da série ISO 9000 (grupo de normas técnicas que estabelecem um modelo de gestão da qualidade para organizações em geral).
A preocupação mundial com as questões ambientais fez com que a ISO criasse uma série de normas especiais para tratar da questão ambiental. Para conquistar os certificados ISO 14000, a organização pleiteante, deverá, além de cumprir a legislação ambiental aplicável, ter implantado um Sistema de Gestão Ambiental; assumir um compromisso com a melhoria contínua de seu desempenho ambiental; submeter-se a auditorias ambientais; avaliar o ciclo de vida de seus produtos e atender a outras exigências que comprovem a adequação dos seus produtos aos novos paradigmas ambientais.
Mesmo sendo a ISO 14000, uma série de normas de “adoção voluntária”, em uma economia globalizada, uma vez adotada pelos países desenvolvidos, passa a ser inevitável para países que desejarem ter acesso a mercados externos. Passa a ser uma “exigência do mercado” o que nos faz lembrar a critica do professor Milton Santos ao processo de globalização: “Estaremos diante de um determinismo de tipo novo, um neodeterminismo do espaço artificial?”.

Os ensinamentos deste eminente geógrafo (um dos intelectuais mais importantes do Brasil) mostram a necessidade de considerar os diferentes níveis de desenvolvimento entre países que se veem “obrigados a voluntariamente” adotar tais normas. Países que ainda não alcançaram determinado grau de desenvolvimento e que, certamente, terão dificuldades de arcar com o custo adicional envolvido na conformidade com normas internacionais. Dependendo do país, a adoção da norma pode significar perda de competitividade internacional do produto. Outra questão que deve ser considerada é o conflito entre o comércio internacional e a proteção ambiental inerente aos tratados internacionais, por exemplo, a possibilidade de que as “normas ditadas pela liberação comercial sejam usadas para enfraquecer medidas ambientalistas por governos que não queiram pagar os custos de proteção ambiental.” (TAYLOR, 1993), ou ainda que a força do apelo ambiental, principalmente nos países desenvolvidos, sirva como “cortina de fumaça” para medidas protecionistas.
No Brasil, com indústrias caracterizadas, basicamente, pela “alta intensidade de recursos naturais, energia, escala e poluição” (VEIGA, 1994), especialmente naqueles setores com melhor desempenho exportador e em que a concorrência se dá via preço, os custos de adaptação a requisitos de ordem ambiental podem ser muito elevados.  Neste caso as imposições de padrões e normas ambientais externas que limitam o uso de recursos naturais e energia tornam nossa situação vulnerável.

Vejamos o caso da cadeia da carne. A competitividade da indústria de carne brasileira foi consequente, até passado recente, à vantagens de custos de produção, recursos naturais abundantes e poucas restrições ambientais.  A ocorrência de doenças em países tradicionalmente produtores e exportadores como BSE, dioxina e aviária abriram oportunidades para o Brasil. Esta conjunção de fatores levou-nos à condição de maior exportador mundial de carnes. Entretanto, a preservação desta posição dependerá agora da adequação às exigências cada vez maiores do mercado. Caminhamos em direção a um sistema de gestão ambiental para toda a cadeia produtiva em que: sanidade animal, segurança do alimento e práticas ambientais sustentáveis serão a norma.
As exigências internacionais com relação ao ciclo de vida dos produtos, já se mostram presentes na cadeia da carne com o SISBOV, Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Origem Bovina e Bubalina criado pela Instrução Normativa Nº 1 de 09 de janeiro de 2002 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, MAPA, para garantir a segurança dos produtos de origem bovina e bubalina. A questão do desempenho ambiental, esta cada vez mais presente como mostram as iniciativas tecnológicas de avaliação da emissão do gás metano, e a preocupação com a degradação de áreas de pastagens.
Portanto, a continuidade do crescimento das exportações brasileiras depende da capacidade da cadeia produtiva nacional de atender às exigências do mercado externo. Neste contexto a certificação deverá crescer em importância. Muitos frigoríficos exportadores já estão se adaptando a requisitos de clientes específicos no que diz respeito à série ISO 14000, o que termina por impulsionar toda a cadeia na mesma direção. Entretanto, um questionamento precisa ser feito: se a adesão a padrões internacionais é "determinada" pelo mercado, como alertava professor Milton Santos, e não "voluntária", como querem nos fazer crer, até que ponto bandeiras ambientalistas não estarão sendo usadas para "disfarçar" interesses políticos-econômicos internacionais e, portanto, para submeter países como o nosso às leis do mercado global?
José Caetano Ricci de Araújo
Eng. Agrônomo e Produtor Rural
Ipirá-Bahia
Referências bibliográficas
1.             SANTOS, Milton - A Natureza do Espaço.
2.             MARTÍNEZ, Osvaldo. O livre comércio: raposa livre entre galinhas livres
3.             CASTRO, Diego; CASTILHO, Selene; BURNQUIST, Heloísa. O comércio e meio ambiente – as diversas faces desse binômio.
4.             BUAINAIN, Antônio Márcio e Batalha - Cadeia Produtiva da Carne Bovina.
5.             VIANA, Ana Carolina e NOGUEIRA – ISO 14000, Comércio Internacional e meio Ambiente.
6.             LEMOS, Renato Nunes; SCHENINI, Pedro Carlos; SILVA, Fernando Amorim da. ISO 14000 E SGA – sistema de gestão ambiental.
7.             LEMOS, Haroldo Mattos de. As normas ISO 14000 e as NBR ISO 144000. [S.l.: s.n].

EFEITOS COLATERAIS DA GENÉTICA DE ALTA PRODUÇÃO

Neste artigo, Doutor Fernando Madalena lembra, entre outros fatos, que “a seleção de animais de grande tamanho é antieconômica, uma vez que o tamanho tem quase nula correlação genética com a produção”.
Boa leitura aos amigos deste nosso blog.

EFEITOS COLATERAIS DA GENÉTICA DE ALTA PRODUÇÃO

Por FERNANDO ENRIQUE MADALENA: Professor da Escola de Veterinária da UFMG, Belo Horizonte, MG, Eng. Agrônomo, Ph.D. Melhoramento Animal (Univ. of Edinburgh). Foi Oficial Superior de Melhoramento Animal e Recursos Genéticos da FAO, Roma, Diretor do Projeto FAO/EMBRAPA/PNUD no Centro Nacional de Pesquisa-Gado de Leite, Coronel Pacheco, MG, técnico da FAO e do IICA no México, Vietnã e Equador, Professor Visitante na USP-Ribeirão Preto e na EPAMIG e Professor na Faculdade de Agronomia do Uruguai. Tem trabalhado em pesquisa de cruzamentos e seleção de gado de leite, de corte e de dupla aptidão.

Postado originalmente em http://www.milkpoint.com.br/  em 07/02/2008
Grifo nosso.

Há uma grande preocupação no mundo todo com a queda continuada da fertilidade e da saúde do gado leiteiro de alta produção. Na recente Conferência da FAO, em Interlaken, em setembro passado, sobre o estado mundial dos recursos genéticos animais, o Interbull organizou Simpósio sobre o tema "Quão sustentáveis são os programas de melhoramento das principais raças de gado de leite internacionais?", no qual me coube fazer apresentação, em que se baseia este artigo.

Deterioração da fertilidade e da saúde

Nas últimas décadas, a produção de leite por vaca teve um aumento substancial nos países do primeiro mundo, de onde provém a genética usada no Brasil, mas, como pode ser observado na Figura 1, esse aumento da produção foi acompanhado por importante deterioração da fertilidade.

Figura 1. Evolução da produção de leite por lactação (Leite), intervalo de partos (IEP) e número de serviços por concepção (S/C) nos EUA.

Fonte: Lucy, 2001.

A prevalência de doenças também tem aumentado e é motivo de preocupação. Por exemplo, Zwald et al (2004) comunicaram incidência de deslocamento do abomaso de 3% de casos por lactação, 10% de cetose, 20% de mamite, 10% de claudicação, 8% de cistos ovarianos e 21% de metrite, em vários estados dos EUA.

Redução da vida útil e aumento da mortalidade

Os problemas de fertilidade e doenças refletem na redução da vida útil e aumento da taxa de descarte, bem como no aumento da mortalidade. Estes parâmetros têm atingido valores insustentáveis, tendo a vida útil caído, nos EUA, para 2,8 lactações por vaca, ou 32 meses, o que requer reposição de 38% do rebanho, cifra inatingível a não ser com sêmen sexado. Com tanto descarte, 61% do rebanho é de vacas de primeira e segunda cria, que são menos produtivas que as adultas. Apenas 12 a 20% desse descarte é devido à baixa produção, sendo o resto devido a infertilidade e doenças. Por outro lado, a taxa de mortalidade de vacas passou de menos de 2% ao ano para 6 a 11%, dependendo da região.
Também no Brasil, como em outros países importadores de genética de alta produção, os problemas de fertilidade são notórios. Por exemplo, Vasconcelos et al. (2007) relataram taxas de concepção de 17 a 25%, em vacas, em fazenda modelo em São Paulo. Wolff et al. (2004) verificaram aumento no intervalo parto-primeiro cio de vacas Holandesas, no Paraná, no decênio 1991-2000. Vida útil de apenas 2,7 lactações foi relatada para fazendas em Castro, PR (Balde Branco, 2003). Molina et al. (1999) comunicaram prevalência de 30,3% de vacas com afecções podais, concluindo que "as afecções podais em vacas em lactação confinadas constituem um sério problema em fazendas na bacia leiteira de Belo Horizonte".

Antagonismo genético entre a produção e a fertilidade e saúde

A seleção para maior produção de leite aumenta também a capacidade de consumo de alimento, mas, tal aumento não é o suficiente para atender totalmente os requerimentos energéticos adicionais, decorrentes do aumento da produção, especialmente nas primeiras semanas após o parto, ocasionando, então, balanço energético negativo e maior mobilização de reservas corporais, o que provoca diminuição da fertilidade e aumento de doenças como mamite, febre do leite, cetose e outras.

Em estudo com mais de 118 mil lactações, na raça Holandesa, no Brasil, Silva et al. (1998) verificaram forte correlação genética desfavorável (rg = 75%) entre a produção de leite na primeira lactação e o primeiro intervalo de partos, estimando que para cada 200 kg de ganho genético na produção, aumentar-se-iam 7,9 dias no intervalo.

Infelizmente, o antagonismo genético entre produção e fertilidade encontrada no Holandês persiste também em populações de gado mestiço, segundo resultados de Silva et al. (2001) e Grossi e Freitas (2002).

O balanço energético negativo é determinado geneticamente e não se resolve com nutrição

Segundo Lucy (2005) existe consenso de que o desempenho reprodutivo da vaca de leite é influenciado por ponto característico de condição corporal, geneticamente determinado, ao qual ela migra, depois de iniciada a lactação, através da utilização do tecido adiposo, cuja perda dependeria desse ponto característico e da massa de tecido adiposo disponível, e não das exigências nutricionais. A seleção para maior produção produziu vacas com maior predisposição genética para direcionar os nutrientes para a produção de leite, ao invés de formar gordura corporal, o que é regulado através de mecanismos hormonais. Conseqüentemente, segundo Chagas, et al. (2007), "mesmo quando o consumo de nutrientes é aumentado em altos níveis, o resultado é simplesmente um aumento na produção, sem necessariamente melhorar o desempenho reprodutivo".

Vacas mais angulosas tem pior condição corporal, menor fertilidade e mais doenças
Infelizmente, durante dezenas de anos, tem se inculcado a produtores e técnicos que vaca leiteira tem que ser angulosa, tendo-se selecionado intensamente para esta característica, junto com outros componentes do tipo. De fato, ao se selecionar para maior angulosidade se melhora sim a produção, mas, por outro lado, também se seleciona contra a fertilidade, porque a maior angulosidade implica em pior condição corporal, um indicador de como a vaca estoca e mobiliza, durante a lactação, sua reserva de energia no tecido adiposo. Condição corporal adequada é reconhecidamente necessária para a reprodução eficiente
Na Fig. 2 se apresenta um exemplo da correlação negativa entre o valor genético para intervalo de partos e a condição corporal, sendo que os reprodutores que transmitem pior condição corporal tendem a transmitir intervalos de partos maiores, e vice-versa.

Figura 2. Relação entre os valores genéticos de reprodutores Holstein, no Reino Unido, para escore de condição corporal e intervalo de partos. Cada ponto representa os valores genéticos de um reprodutor.
 
Fonte: Pryce et al. (2000).

Também tem sido verificado antagonismo genético entre angulosidade e prevalência de doenças, o qual é atribuído ao estresse metabólico, decorrente do balanço energético negativo. Estes fatos têm levado às Associações de Criadores a reverter a seleção, procurando-se agora selecionar os animais com pior forma leiteira, os menos angulosos. Parece brincadeira. O certo mesmo seria esquecer a ilusão da seleção por tipo e selecionar diretamente pelas características econômicas.

Vacas grandes comem mais, mas, não dão mais leite

A seleção de animais de grande tamanho é anti-econômica, uma vez que o tamanho tem quase nula correlação genética com a produção (VanRaden et al., 2006), mas, obviamente, aumenta os requerimentos de nutrientes para mantença.

Na Tabela 1 se apresentam os resultados de experimento de seleção para tamanho na Universidade de Minnesota, onde as vacas de linhagem selecionada para maior tamanho não produziram mais leite que as selecionadas para tamanho menor, de forma que a margem econômica do alimento ("income over feed cost") foi maior para a linhagem "pequena", que também apresentou maior fertilidade e dias em produção.

Os autores concluíram que a seleção deveria ser praticada com base nas características econômicas, entretanto, segundo eles, a seleção para menor tamanho, que implicaria em sacrificar um pouco de seleção para produção, poderá não ser necessária nos EUA enquanto houver "fácil aceso a alimentos relativamente baratos". Eis a confirmação de mais uma perversidade do regime de subsídio à produção.

Tabela 1. Resultados da seleção para tamanho, em Holstein, por três gerações, usando-se, a cada ano, sêmen comercial dos três reprodutores de maior e menor valor genético para tamanho, dentre a metade dos reprodutores de maior PTA para produção disponíveis nos EUA.
Fonte: Hansen et al. (1999).

No Brasil, onde os concentrados não são subsidiados e os níveis econômicos de produção por vaca são muito menores que na América do Norte e Europa, as despesas para mantença representam maior proporção do custo que naquelas regiões, e, conseqüentemente, o peso das vacas adquire maior importância econômica negativa. Pesquisas do nosso grupo na UFMG demonstraram ser mais importante economicamente reduzir 1% o peso das vacas que aumentar 1% a produção de leite (Lôbo et al., 2000, Vercesi Filho et al., 2000, Martins et al., 2003).

Antagonismo genético entre a produção e a tolerância ao calor

Calor e umidade são reconhecidamente prejudiciais para a reprodução do Bos taurus, e seus efeitos são agravados pela alta produção de leite. Trabalhos conduzidos na Universidade de Georgia têm verificado antagonismo genético entre a produção e a tolerância ao calor. Bohmanova et al. (2005) compararam os PTA dos 100 reprodutores com menor e com maior PTA para tolerância ao calor, dentre mais de 172 mil reprodutores Holstein dos EUA, verificando que os 100 menos tolerantes ao calor apresentavam maior produção de leite (+1124 kg/lactação), menor fertilidade e menor vida produtiva que os 100 mais tolerantes. Segundo os autores, a seleção continuada para maior produção, sem considerar a tolerância ao calor, resultará em diminuição desta última característica.

Endogamia globalizada

Um outro problema que causa perda de fertilidade e saúde é o aumento da endogamia, que, no caso do Holandês, decorreu do uso intensivo de reprodutores famosos em nível mundial. Segundo Funk (2006) a endogamia média no rebanho Holandês dos EUA passou de 2,7% em 1970 para 6,8% em 2000, com previsão de aumento para 8,2% em 2010 e 9,7% em 2020. Devido ao intenso uso dos reprodutores famosos como pais das novas baterias de touros em teste, houve um gargalo na genética disponível. Por exemplo, dos mais de 73.000 touros avaliados pelo Interbull no mundo, nascidos em 1990, metade eram filhos de apenas cinco pais.

Como a genética das principais raças de leite está globalizada, através de importações de sêmen e embriões, o gargalo genético se estende a todos os países. Van Doormaal et al. (2005) relataram que quase todos (entre 94,2 e 99,7%) os reprodutores aprovados em 12 países da América do Norte e Europa, nascidos em 1999, eram descendentes de Round Oak Round Apple Elevation, e entre 24 e 85% eram também descendentes de seu filho, Hanoverhill Starbuck. Na Nova Zelândia e na Irlanda o percentual de descendentes de Elevation era um pouco menor, 89 e 82%, respectivamente. Assim, devido a globalização da genética nas raças leiteiras internacionais, há, infelizmente, poucas possibilidades de se fugir da endogamia, em se mantendo as tendências de seleção vigentes.

No Brasil, o parentesco com antecessores famosos foi o fator que mais influenciou os preços do sêmen importado (Madalena et al., 1985), e Elevation já contribuía, naquela época, com 12% dos genes dos doadores de sêmen de Holandês importado. Este reprodutor e Pawnee Arlïnda Chief foram os avôs paternos de 24% e 22%, respectivamente, de mais de 82 mil vacas analisadas por Zambianchi (2001), ou seja, os dois reprodutores contribuíram na herança genética de 46% dos animais da raça Holandesa estudados.

"Solucionática"

As ferramentas para solucionar os problemas apontados passam todas pela correção do rumo equivocado, e consistem no o uso de:

Cruzamentos entre raças, p. ex. com Jersey (mas, qual Jersey, o da América do Norte ou o da Nova Zelândia?), ou, com as raças Vermelha Sueca ou Norueguesa (muito promissoras, mas ainda não testadas no Brasil). A superioridade econômica do cruzamento tríplice de Jersey/Holandês/Gir, no caso de abate dos machinhos, foi verificada por Teodoro e Madalena (2005).

Linhagens diferentes de Holandês, sendo a opção mais óbvia a do Friesian da Nova Zelândia, que ainda tem alguns animais sem contaminação pelo Holstein (mas também não devidamente testada no Brasil).

Reprodutores, dentro de cada raça, que aumentem o lucro, o que implica que o produtor ou seu assessor técnico elabore o seu índice econômico de seleção e adquira sêmen dos reprodutores superiores para aquele índice (mas, isto último é só uma possibilidade teórica, pois inexiste sêmen a venda de reprodutores testados no Brasil para todas as características de interesse econômico).

Em todo caso, nenhuma ação deveria ser tomada sem o respaldo de pesquisa competente prévia. O Brasil já vem correndo atrás do prejuízo e simplesmente não pode se dar ao luxo de ignorar o que faz com o principal recurso genético utilizado para a produção de leite.

Referências
As referências bibliográficas citadas se encontram nos trabalhos seguintes:
Madalena, F.E. Problemas dos rebanhos leiteiros com genética de alta produção - Revisão bibliográfica. 2007a. http://www.fernandomadalena.com
Madalena, F.E. Comparações entre o Friesian da Nova Zelândia e o Holstein internacional - Revisão bibliográfica. 2007b. http://www.fernandomadalena.com
Madalena, F. E. 2008a. How sustainable are the breeding programs of the global main stream dairy breeds? - The Latin-American situation. Livestock Research for Rural Development. Volume 20, Article # 19. http://www.cipav.org.co/lrrd/lrrd20/2/mada20019.htm
Madalena, F. E. 2008b. A esquecida metade Bos taurus do F1. Anais do 6o. Encontro de Produtores de Gado Leiteiro F1. BHTE, Abril 2008 (no prelo).

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