5 de jan. de 2018

Será que o bovino que come menos é o que dá mais lucro?

Médico Veterinário pela Universidade Federal de Goiás, especialista em Pecuária de Corte pelo Rehagro, sócio-diretor da Qualitas Melhoramento Genético, com 21 anos de atuação nas áreas de gestão, produção e melhoramento genético. O Programa Qualitas de Melhoramento Genético conta com mais de 40 fazendas, nos estados de GO, TO, RO, SP, PR, MG e MT e também na Bolívia, totalizando um rebanho de mais de 250.000 cabeças.

Foto: Touros Nelore Qualitas em avaliação de eficiência
alimentar no CIGNA – UNESP – Botucatu-SP
Esta história começa em 2001, quando estivemos na África do Sul, sob a tutela do Professor Daniel Bosman, nosso conselheiro e consultor no Qualitas, em busca de vacas da raça Bonsmara para coleta de embriões, a pedido da Fazenda Mariópolis de Itapira-SP.

Naquela ocasião, conhecemos o sistema de seleção que o professor Daniel ajudou a implementar enquanto trabalhou no ARC (Animal Research Center), centro de pesquisa responsável por implementar tecnologias para o desenvolvimento da pecuária sul africana. Quando digo pecuária, me refiro a todas as raças bovinas da África do Sul. Consideramos este sistema um dos mais bem-sucedidos do mundo e aplicamos o que aprendemos com o professor Daniel no Qualitas.

Afirmamos isso pois, já em 2001, o rebanho sul africano, principalmente, da raça Bonsmara, estava avançado em termos de desempenho e eficiência. Desde o início da década de 1980, além de selecionar os bovinos para ganho de peso, eles já se preocupavam com a eficiência alimentar. Como o país não tem uma aptidão agropastoril favorável por questões climáticas, o custo alimentar dos animais é elevado, tendo grande impacto na rentabilidade da atividade. Por isso, naquela época iniciou-se a avaliação de eficiência alimentar, primeiramente em centros de pesquisa vinculados ao ARC e, em seguida, em fazendas particulares.

Quando estive na África do Sul, eles já tinham avaliações genéticas para lucro no confinamento, principal sistema de terminação dos bovinos, onde os bezerros são desmamados e vão diretamente para cocho.

Apesar de ficar deslumbrado ao conhecer um desses centros de avaliação, já totalmente automatizado, incluindo o fornecimento de ração para os animais, aquilo me pareceu distante para a realidade brasileira por dois fatores: o primeiro, por achar inviável economicamente montar a estrutura necessária para a avaliação no Brasil e segundo, por achar que não seria tão importante para o Brasil, com um sistema de terminação majoritariamente a pasto.

Bom, este assunto ficou incubado em nossa cabeça até 2007, quando trabalhamos em um projeto de engorda em confinamento de mais de 30 mil cabeças. A enorme variação em eficiência alimentar dos lotes engordados acendeu um alerta para o impacto sobre a lucratividade da atividade.

Além isso, pesquisando sobre o assunto, estudos realizados pelo Prof. Dr. Robert Herd, da Austrália, afirmavam que animais que apresentavam melhor eficiência alimentar no confinamento também eram mais eficientes no pasto.

Então, a partir de 2010 iniciamos a mensuração do consumo individual de alimentos dos 120 melhores touros identificados no Qualitas de cada safra de nascimento. Após 8 anos, 960 touros foram avaliados, inicialmente no Confinamento Experimental da Escola de Veterinária e Zootecnia da Universidade Federal de Goiás, sob a coordenação do Prof. Dr. Juliano José de Resende Fernandes e, a partir de 2016 o sistema de medição de consumo e pesagens dos animais foi automatizado, com a utilização dos equipamentos desenvolvidos pela Intergado, quando fizemos uma nova parceria com a UNESP de Botucatu, no CIGNA (Centro de Inovação em Genética e Nutrição Animal) a cargo do Prof. Dr. Josineudson Augusto II.

Os dados coletados neste processo servem para avaliar a eficiência alimentar dos animais para duas características: conversão alimentar (CA) e consumo alimentar residual (CAR). A CA significa quantos quilogramas de matéria seca (MS) de alimentos foram necessários para produzir um quilograma de ganho de peso. Quanto menor o valor da CA melhor o animal para esta característica. Portanto, quanto maior o ganho de peso e menor for o consumo de alimentos, melhor a CA. Exemplo: um animal de CA de 5kg, comeu 5kg de MS para ganhar 1kg de peso vivo.

Já o CAR significa quanto o animal comeu em relação ao que estava previsto para ele comer, de acordo com o seu ganho de peso e o seu peso. Este valor é sempre relativo ao consumo médio diário de alimentos em MS durante o período de avaliação. Podemos ter animais negativos ou positivos para CAR. Exemplo: animal A com consumo de 10kg de MS por dia teve um CAR de -1,5kg. Isso significa que ele foi eficiente pois comeu 1,5kg a menos do que estava previsto para ele comer, pois o seu consumo previsto era de 11,5kg de MS, mas ele comeu 10kg de MS por dia. Já um animal ineficiente que comeu 11kg de MS por dia e que apresentou um CAR positivo, por exemplo de + 1kg, tinha uma previsão de consumo de 10kg de MS por dia, mas comeu 11kg.

Portanto, quando falamos em eficiência alimentar, buscamos três características nos animais, alto ganho de peso, baixo consumo de alimentos e CAR negativo. E ainda precisamos levar em consideração as correlações destas características com outras de importância econômica e produtivas.

Geralmente, animais de alto ganho de peso tendem a apresentar peso ao nascimento elevado e também tamanho adulto elevado, por isso, devemos nos atentar para a disponibilidade de alimentos onde estes animais serão criados.

Animais com CAR negativo podem apresentar menor acúmulo de gordura subcutânea e, também, pior qualidade de sêmen. O que não invalida a seleção para o CAR, só é necessário avaliar estas duas características também para selecionar os animais, pois existem exceções às regras e são estes os animais que devemos multiplicar.

Na tabela 1, apresentamos dois animais que nasceram com um dia de diferença e foram produzidos pela mesma fazenda, nas mesmas condições, desde o nascimento até o sobreano, quando foram enviados para o teste de eficiência alimentar do Qualitas, no CIGNA da UNESP de Botucatu. O touro A foi o que apresentou o segundo maior ganho de peso no confinamento e o touro B foi o que apresentou o melhor CAR.

Quando olhamos os dados, o touro A, apresentou maior desempenho desde a desmama até o final do confinamento, portanto, ganhou mais peso, mas também comeu mais alimentos no confinamento, 26% a mais em MS que o touro B. Os dois apresentaram CAR negativo, ou seja, comeram menos do que o previsto. Sendo o touro B mais eficiente que o touro A em 22%.

Do lado financeiro, isso significou um custo por arroba produzida no confinamento mais barato para o touro A (15% menor que o touro B), apesar do desembolso durante o período confinado ter sido maior. Portanto, quando avaliamos a operação confinamento, o touro A apresentou uma margem 46% maior que o touro B. Se um confinador tivesse adquirido os dois animais pelo mesmo valor, digamos R$2 mil, e os dois tivessem o mesmo peso, o touro A teria deixado R$363,17 de lucro e o touro B, R$197,41. Portanto, por esta ótica, quem ganhou mais peso foi o que gerou mais lucro, e não o que comeu menos!
Fonte: elaborada pelo autor

Mas, e se analisássemos os

6 de dez. de 2017

PALMA FORRAGEIRA IRRIGADA E ADENSADA

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1 de set. de 2017

Eficiência de produção, produção de leite e peso corporal

Rodrigo Gregório da Silva, Eng. Agrônomo, 
Doutor em Zootecnia, Professor do IFCE 
Campus Limoeiro do Norte, CE.
O resultado final do negócio, quando se objetiva lucro, é reflexo de uma gama de fatores que tornam a produção de leite uma das atividades mais complexas do meio rural. Especialmente quando se trata de
Rodrigo Gregório
sistemas mais intensivos, onde a oscilação das margens apresenta elevado risco de obtenção de valores negativos, há que se buscar elevação da eficiência.
A eficiência pode ser obtida de várias maneiras, sobretudo em duas direções: produzir mais, com os mesmos fatores de produção e/ou usar menos fatores para produzir as mesmas produções. Qual desta modalidade usar vai depender da situação do negócio, no momento da avaliação. De forma que haverá momentos em que as técnicas poderão ser direcionadas em diferentes direções, sempre buscando o melhor desempenho da atividade.
Tratando da eficiência de produção de leite e sua relação com os fatores peso corporal da vaca e produção na lactação, observamos (Figura 1a) dois aspectos relevantes em sua busca: incremento da produção de leite na lactação (L/lactação), resultando em maiores médias diárias por animal (L/vaca/dia) e diminuição de peso corporal, associado a incremento da produção de leite (L/lactação), via melhoramento genético, conforme podemos observar nos resultados obtidos pela Fazenda Carnaúba, localizada no município de Taperoá, PB.
F1 Sindi x Jersey
Outro fator que se apresenta significativo, para produção de leite, é sua composição. Pois, ao se incrementar, tem-se como resultado uma maior equivalência de produção quando comparado às situações de produção de leite com menores teores de sólidos (Figura 1b). Ou seja, um litro de leite mais concentrado, significando mais de um litro padrão (4% de gordura), aspecto fundamental para às situações de fazenda que beneficiam seu leite.
É também justo, que rebanhos que tenham seu leite com maiores teores de sólidos, recebam mais e que seus gestores avaliem seus animais por este aspecto, pois dele derivam demandas como ajustes de dieta e comparação entre os animais, com base na produção de sólidos. No trabalho de seleção apresentado pela Fazenda Carnaúba (Figura 2a), demonstra-se o papel fundamental da seleção no sentido do aumento da produção e da produtividade da produção de gordura.
Observa-se crescimento na produção total de gordura por lactação, resultado do crescimento da produção de leite (Figura 2b), associado ao aumento da produtividade da produção de gordura, resultado do crescimento absoluto na lactação, associado à diminuição do peso corporal dos animais, elevando-se o índice de kg de gordura/100 kg de peso corporal, saindo-se de valores de aproximadamente 30 kg para atuais 75 kg de gordura/100 kg de PC (Figura 2a). Com relação ao peso corporal, salientamos a

importância de sua redução, ao longo do tempo, garantido ganhos relacionados à eficiência de produção, dada em L/100 kg PC, conforme pode ser observado na Figura 2b. Caso não tivesse havido a redução do PC ao longo do tempo, este índice que hoje se aproxima de 5, estaria inferior a 4 L/100 kg de PC.

Outros fatores observados a partir do trabalho divulgado pela Fazenda Carnaúba, se relaciona ao consumo diário de matéria seca (MS) e da lotação esperada (Figura 3a), dada em vacas/ha, ao longo do tempo. Observa-se elevação do consumo de MS, como resultado do incremento do potencial de produção de leite do rebanho. Este comportamento de cresciemnto da demanda diária de MS poderia ter sido ainda maior caso houvesse manutenção dos pesos das vacas proximo aos valores iniciais (420 kg PC), como resultado das demandas de mantença, demonstrando novamente o papel da seleção para produção de leite, associação à redução e/ou manutenção do peso corporal dentro de uma faixa adequada.



Ainda tratando da Figura 3b, observa-se crescimento do potencial de produção de leite por área (L/ha/ano) e da receita menos o custo com alimentação (RMCA), por hectare ao ano. Tais condições foram possíveis em função do crescimento da produção dos animais (L/vaca/ano), com o controle de seu porte, possibilitando a manutenção da lotação (vaca/ha) variando entre 0,5 e 0,6 vacas.
Salientamos mais uma vez que a seleção para produção de leite sem a atenção para o porte dos animais, pode não resultar em incrementos da produção e lucro por área, tendo em vista as perdas ocasionadas pelo

aumento do porte dos animais, no componente lotação. Neste sentido, somente se obterá ganho por área, caso sejam observados os aspectos que garantam o crescimento da produtividade, por unidade de área. Onde a produção dos animais é um dos componentes, devendo ser observados outros relacionados à lotação e aos custos alimentares.
Por fim, corroborando com o exposto no parágrafo anterior, simulou-se (Figura 4) a evolução da RMCA para o rebanho da fazenda Carnaúba, na condição observada e da evolução da RMCA caso o peso corporal das vacas tivesse sido mantido em torno de 420 kg, como no início da seleção. Observa-se que a redução do peso corporal das vacas em associação ao crescimento da produção de leite na lactação, possibilitaram maiores valores de RMCA por hectare. Tal comportamento demonstra o ganho de eficiência

da fazenda, no tocante à produtividade por animal e por área. E isto foi possível graças ao ganho de produtividade com base na massa corporal e não só no volume medido por animal.
Ao final, conclui-se que há possibilidade de ganhos significativos nos parâmetros de eficiência da produção de leite para às condições de semiárido. Há que se avaliar o sistema levando-se em consideração não só as medidas tradicionais de produção de leite na lactação e produção diária de leite, por animal (balde). Devem-se incorporar os aspectos relacionados à massa corporal, que em associação às produções, possibilitam o estabelecimento de índices de eficiência com base na massa animal e por área.

Pensamento do mês