2 de fev. de 2019

Efeitos do manejo sustentável da Caatinga sob os atributos físicos do solo

Francisco Gonçalo Filho
Miguel Ferreira Neto, Cleyton dos Santos Fernandes, Nildo da Silva Dias, Rutilene Rodrigues da Cunha, Francisco de Oliveira Mesquita
(Universidade Federal Rural do Semi-Árido, Mossoró, RN, Brasil)

Resumo - Objetivou-se avaliar a qualidade do solo, em áreas da Caatinga submetidas a diferentes sistemas de manejo, tendo como parâmetros os atributos físicos do solo. As formas de manejo adotadas foram: (1) área de manejo sustentável da Caatinga; (2) área de Caatinga com manejo convencional; e (3) área de Caatinga considerada mata nativa. Decorridos 5 anos, foram coletadas amostras de solo nas áreas nas profundidades 0,00-0,20 m e 0,20-0,40 m para análise dos atributos físicos do solo.
Os resultados evidenciaram maior compactação do solo na área de manejo convencional. O manejo sustentável da Caatinga mostrou-se uma técnica promissora para manutenção e recuperação das propriedades físicas do solo. A utilização inadequada do solo, sobretudo por meio da adoção de sistemas convencionais, tem ocasionado degradação de suas propriedades físicas, químicas e biológicas (Iwata et al., 2012). Como efeitos dessa degradação, podemos citar a desestruturação e a compactação, a redução da fertilidade, a oxidação acelerada da matéria orgânica e a diminuição da quantidade e diversidade de organismos do solo (Leite et al., 2010), o que tem levado à vultosas perdas na biodiversidade da fauna e flora, sedimentação dos reservatórios e dos rios, com consequente declínio das atividades econômicas e da qualidade de vida da população (Araújo Filho, 2013).O manejo inadequado do solo e dos recursos vegetais contribui, principalmente, para o avanço
do processo de degradação. Devido aos fatores ambientais desfavoráveis (déficit hídrico e elevadas temperaturas, por exemplo) e a adoção de sistemas agrícolas totalmente extrativistas, que não respeitam os limites produtivos do bioma Caatinga, a degradação é ainda mais acentuada nas condições da região Semiárida brasileira (Rebouças et al., 2013).
Uma alternativa viável para evitar a degradação do solo e da vegetação nessa região é a adoção de Sistemas Agroflorestais (SAF’s). Essa tecnologia apresenta alto potencial produtivo e sua adoção permite melhorar o equilíbrio entre os componentes solo/planta/animal, integrar culturas e animais, aumentar a eficiência de uso da terra, diversificar a produção agrícola, melhorar a utilização do solo, da água e do ambiente e recuperar áreas degradadas, agregando valor às áreas de produção (Schembergue et al., 2017).Nessa perspectiva, o objetivo do presente trabalho foi avaliar a qualidade do solo, em áreas submetidas a diferentes sistemas de manejo, tendo como parâmetros os atributos físicos do solo.As áreas em estudo estão localizadas no Projeto de Assentamento Tabuleiro Grande, município de Apodi, na microrregião da Chapada do Apodi, na mesorregião do Oeste Potiguar, RN, entre as coordenadas 05°24’33.33’’ S e 37°46’40’’W, e com uma altitude média de 109 m.Em janeiro de 2009 foram
selecionadas três áreas do assentamento para avaliação dos atributos físicos do solo. O histórico das áreas e as formas de manejos adotadas foram:Área de Caatinga com manejo sustentável (AMS) – 3,3 ha pertencentes a um lote individual. A área apresenta relevo plano, com declividade dominante inferior a 2%, em Vertissolo Háplico Órtico chernossólico, de acordo com o Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (Santos et al., 2013). A vegetação no local, de forma geral, pode ser caracterizada como arbóreo-arbustiva, apesar da existência de áreas com pouca cobertura florestal devido à ocorrência de fogo ou alagamentos, em função da deficiência na drenagem que é agravada pela topografia e pela geologia da área.O sistema de manejo sustentável adotado foi o de raleamento em faixas de 15 m de largura, intercaladas com faixa de 15 m de largura de vegetação nativa. Na faixa destinada ao manejo sustentável, fez-se raleamento das plantas existentes, deixando-se aproximadamente 40% da vegetação e retirando-se plantas com pouco interesse econômico para abrir espaço para outras espécies com maior potencial produtivo. Nos anos seguintes, a área foi isolada, evitando assim o superpastejo. Área de Caatinga com manejo convencional (AMC) – 5,4 ha pertencentes àárea coletiva do Projeto de Assentamento. A área apresenta relevo plano, com declividade dominante inferior a 2%, em Chernossolo Rêndzico Petrocálcico típico, de acordo com o Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (Santos et al., 2013). A área tem presença de bovinos, caprinos e ovinos dos assentados e não existe controle da quantidade e tempo de permanência dos animais, além da retirada de madeira e lenha pelos membros da comunidade.Área de Caatinga considerada mata nativa (AMN) - 2,0 ha pertencentes à reserva legal do projeto de assentamento, sendo usada como tratamento controle. A área apresenta relevo plano com declividade dominante inferior a 2%, em Vertissolo Háplico Órticochernossólico, de acordo com o Sistema Brasileiro de
Classificação de Solos (Santos et al., 2013).Após 5 anos de manejo nas áreas, foram abertos 5 perfis com profundidade de 0,40 m para a coleta de amostras nas profundidades de 0,0-0,20 m e de 0,20-0,40 mem cada sistema (AMS, AMC e AMN) em locais representativos, para a avaliação dos atributos físicos do solo. Nos mesmos locais e profundidades foram coletadas amostras indeformadas com anel volumétrico, para a determinação da densidade e porosidade dos solos, e amostras deformadas, para a determinação da umidade. As amostras foram acomodadas em sacos plásticos, identificadas e encaminhadas ao Laboratório de Análises de Solos. Os parâmetros físicos analisados foram: granulometria, densidade do solo (ds), densidade de partículas (dp), porosidade total (Pt) e umidade do solo. O delineamento experimental utilizado foi em blocos casualizados, em esquema fatorial 3 x 2, sendo três sistemas de manejo do solo (AMS, AMC e AMN) e duas profundidades (0,0-0,20 m e 0,20-0,40 m), com cinco repetições. Os resultados foram submetidos à análise de variância, sendo o nível de significância determinado pelo teste F e as médias comparadas pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade. Para processamento dos dados, foi utilizado o programa estatístico SISVAR versão 5.3 (Ferreira, 2011).Em relação à granulometria, constataram-se poucas variações, exceto o teor de areia fina superior na área em manejo sustentável (AMS), o teor de silte mais elevado na área em manejo convencional (AMC) e a relação silte/argila superior na AMC, quando comparadas entre si, além do teor de argila superior na área de mata nativa (AMN), quando comparado à AMC. Os solos foram todos classificados na classe textural argiloso, exceto na profundidade 0,20 – 0,40 m da AMN, que se enquadrou na classe muito argiloso (Tabela 1). Não se verificou variação quando os parâmetros foram analisados entro dos horizontes em cada área e não se constatou comportamento que pudesse ser atribuído ao manejo realizado nas áreas em estudo.Os valores de densidade do solo mostraram-se significativos, sendo os maiores valores observados na AMC (Tabela 2).



Os valores da densidade de partículas não apresentaram variação significativa. Em relação à porosidade total, os valores apresentaram-se significativamente superiores na AMS. Este parâmetro é um indicativo da boa estrutura do solo, pela não existência da compactação, evidenciando a manutenção da qualidade física deste solo.A umidade se apresentou superior na AMS, o que pode ser explicado pela

6 de jan. de 2019

A seca de 2012-15 no semiárido do Nordeste do Brasil no contexto histórico


Por: Jose A. Marengo,  Ana P. Cunha e  Lincoln M. Alves

Resumo

Episódios de secas na região têm sido relatados desde o século 16, sendo recorrentes na região. Enquanto algumas medidas foram tomadas pelos governos para atenuar os impactos, ainda há uma percepção de que os moradores, principalmente em áreas rurais no semiárido, ainda não estão adaptados a estes perigos. A seca que assola o semiárido do Nordeste desde 2012 a 2015, teve uma intensidade e impacto não vistos em várias décadas e já destruiu grandes áreas de terras agrícolas, afetando centenas de cidades e vilas em toda a região, e deixando pequenos agricultores que lutam para obter água. Alterações na circulação atmosférica e precipitação detectadas desde o verão de 2012 sugerem um papel ativo das águas superficiais mais frias do que o normal no Pacífico equatorial, e uma zona de convergência intertropical deslocada anomalamente para o norte de sua posição normal, com aumento da subsidência sobre o Nordeste Brasil. No Nordeste do Brasil sinais de seca começaram a aparecer em dezembro de 2011 e se intensificaram durante o verão e outono de 2012, gerando deficiência hídrica em quase todo o semiárido desde o centro-sul da Bahia até o Rio Grande do Norte e Ceara em 2011-14. Desde 2013até 2015 a maior concentração de déficit hídrico incluiu particularmente o norte da Bahia, oeste do Pernambuco e o leste do Piauí, onde a situação de seca ainda persiste. O evento El Niño em 2015 agravou a situação de seca iniciada em 2012.

1. Introdução: A região semiárida do Nordeste do Brasil (NEB) situa-se entre 2,5 ° S e 16,1 ° S e 34,8 ° W e 46 ° W,com uma área de cerca de 1.542.000 km2, ou cerca de 18,26% da área do Brasil (Magalhães et al., 1988), e é a mais densamente populosa entre as terras secas do mundo,com mais de 53 milhões de habitantes, ou aproximadamente 34 habitantes por km2. O NEB é vulnerável aos extremos observados da variabilidade climática, e cenários globais e regionais de mudanças climáticas no futuro indicam que a região poderia ser afetada pelo déficit de chuvas e aumento da aridez no próximo século (Marengo et al. 2016, Vieira et al. 2015). As secas são um fenômeno natural, uma alteração do regime hidro meteorológico, e no NEB elas afetam os moradores, principalmente os mais vulneráveis da região semiárida, criando situações de deficiência hídrica e riscos para a segurança alimentar, energética e hídrica na região (Eakin et al. 2014). As secas fazem parte da variabilidade natural do clima na região, e ocorreram no passado, estão ocorrendo no presente e de acordo com as projeções de mudanças climáticas, é provável que continuem e intensifiquem no futuro (Marengo et al. 2016). A seca não atinge todo o NEB, ela se concentra numa área conhecida como Polígono das Secas, que envolve as regiões semiáridas de parte de oito estados nordestinos (AL, BA, CE, CE, PB, PE, PI, RN e SE) e parte do norte de MG. Eventos de seca no passado nos estados NEB, geraram perdas massivas de produção agrícola e pecuária, perda de vidas humanas pela fome, desnutrição e doenças, e deslocamentos de pessoas, bem como impactos sobre as economias regionais e nacionais. A inclemência das secas há tempo arrasa a terra e a vida do sertanejo.  Ainda assim, “apesar das dolorosas tradições que conhece através de um sem-número de terríveis episódios, ele alimenta a todo transe esperanças de uma resistência impossível”, narrou Euclides da Cunha (1866-1909) em Os sertões. Esse texto é de 1902. No presente, a migração devido à seca não ocorre mais nas proporções dramáticas. A seca que se intensificou em 2012 e ampliou em 2015 é considerada a mais grave das últimas décadas e tem tido um impacto em muitos distritos das regiões semiáridas nos estados do NEB, afetando quase 9 milhões de pessoas (Marengo et al. 2016). Políticas públicas para mitigar os impactos da seca, tais como linhas de crédito disponíveis aos pequenos agricultores e a distribuição de água por meio de carros pipa) fez diminuir um pouco os impactos, mas,as políticas de gestão de crises, podem ter sido insuficientes para suportar a seca plurianual excepcional de
2012-2015. A sobreposição de secas às tensões sócio-econômico-políticas pré-existentes coloca uma intensa pressão sobre a disponibilidade de água doce e de qualidade na região e ameaça a água, energia e segurança alimentar (por exemplo, Gutiérrez et al. 2014). A perspectiva de aumentos na frequência e duração dos períodos secos e secas em climas futuros no NEBtem gerado preocupação entre os gestores de recursos naturais, agricultores, especialistas em desenvolvimento,pesquisadores e formuladores de políticas, os quais tentam entender a extensão em que essas mudanças vão afetar os recursos hídricos , produção de alimentos, renda e subsistência. A longo prazo, os déficits projetados de chuvas na região, juntamente com o aumento da temperatura e secas mais frequentes e períodos de seca podem exacerbar a degradação ambiental. Portanto, neste artigo apresentamos um histórico de secas passadas e presente se discutimos algumas das causas físicas envolvidas, incluindo o papel de El Niño e o Oceano Atlântico tropical na seca de 2012-15. 
2. Secas: aspectos históricos, variabilidade interanual e causas físicas no NEB De acordo com a Universidade do Nebraska (drought.unl.edu), no sentido mais geral, uma seca origina-se a partir de uma deficiência de precipitaçãodurante um período prolongado de tempo - geralmente uma estação ou mais - resultando em uma escassez de água para alguma atividade, grupo ou setor ambiental. Seus impactos resultam da interação entre o evento natural (menosprecipitação do que o esperado) e a demanda de pessoas para uso de água, no abastecimento de água para a população, agricultura e pecuária. Assim, as atividades humanas podem exacerbar os impactos da seca. Em termos físicos, mudanças na temperatura da superfície do mar (TSM) no Pacífico tropical que se manifestam com os extremos em casos de El Niño-Oscilação Sul (ENOS) podem afetar precipitação sobre oNEB através de mudanças na circulação Walker orientada zonalmente (Ambrizzi et al., 2004). No entanto,ENOS explica apenas uma parte da variabilidade da precipitação na região. Kane (1997) mostra que de 46 eventos de El Niño (fortes e moderados), durante 1849-1992, apenas 21 foram associados com as secas no norte do Nordeste do Brasil. A partir das mais recentes secas de 1992, 1998, 2002, 2010 e agora 2012-2015, apenas os de 1998, 2002 e, recentemente, em 2015 as secas aconteceram durante um evento El Nino. Em 2015 a situação foi agravadapela deficiência que já existia pelo menos há 3 anos (Figura 1). Na verdade, a chuva no NEB é marcada por uma forte variabilidade interanual, parte da qual tem sido atribuída ao ENOS, enquanto outros eventos de seca são devidos a uma posição anormalmente mais ao norte daZona de Convergência Intertropical (ZCIT)
sobre o setor do Atlântico, devido a um Oceano Atlântico Tropical Norte mais quente (Moura e Shukla 1981; Hastenrath 1990, 2012, Andreoli et al. 2012, Nobre e Shukla 1996, Marengo et al. 2013, 2016). As secas têm sido relatadas no NEB desde o século 16. A história das secas na região, como coletados de várias fontes (Araújo 1982, Magalhães et al., 1988,Gutierrez et al. 2014, Wilhite et al. 2014) e atualizada neste estudo pode ser resumida nesta lista: 1583, 1603, 1624, 1692, 1711, 1720, 1723-1724, 1744-1746, 1754, 1760, 1772, 1766-1767, 1777-1780, 1784, 1790-1794, 1804, 1809, 1810, 1816- 1817, 1824-1825, 1827, 1830-1833,1845, 1877-1879, 1888-1889, 1891, 1898, 1900, 1902-1903, 1907, 1915, 1919, 1932-1933, 1936, 1941-1944,1951- 53, 1958, 1966, 1970, 1976, 1979-1981, 1982-1983, 1992-1993, 1997-1998, 2001-2002, 2005, 2007, 2010 e 2012-2015. Desde a década de 1950 o governo começou a tomar medidas contra as secas, incluindo a construção de cisternas e canais e criação de programas sociais para as pessoas afetadas. Desde 1970 não há mais registro de mortes devido à seca, embora o êxodo do semiárido durante as secas continua ainda que em grau muito menor. Talvez a seca mais cara durante o século 20 foi em 1979-1983, quando as despesas do governo atingiram cerca de US $ US 7,8 bilhões.

3. A Seca de 2012-2015: características, causas e impactos A Figura 1 mostra que 2010 já foi um ano seco, e que no período 2010-15, somente 2011 teve chuvas acima da média, mas este foi seguido pelos déficits de precipitação mais graves em 2012. Isto sugere uma natureza multianual da atual seca, dos quais os primeiros sinais começaram em 2010. Segundo Marengo et al. (2013, 2016), as estações chuvosas de fevereiro a maio no NEB em 1998 e 2012 foram as mais secas entre 1961 e 2012, caracterizadas pelo percentil muito seco. Vários estudos têm indicado que a maior parte do NEB tende areceber mais precipitação durante episódios La Niña, mas o ano de 2012 não seguiu o padrão. Durante o evento La Niña de 2012, o mesmo ano em que houve inundações recorde no leste da Amazônia, o NEB declarou estado de emergência na maioria dos distritos na região devido a uma seca considerada a mais grave nas recentes décadas.
As causas meteorológicas do inicio da seca de 2012são apresentadas por Marengo et al. (2013). Em 2012 e 2013, mudanças na circulação atmosférica e precipitação são consistentes com a atuação de águas superficiais mais frias que o normal no Pacífico equatorial, commovimento ascendente acima do normal e precipitação no leste da Amazônia a uma resposta típica de convecção atmosférica à SST fria no Pacífico tropical. Na alta atmosfera, a circulação apresentou maior divergência sobre a Amazônia e uma maior convergência na região Nordeste do Brasil, com um movimento ascendente intenso no leste da Amazônia durante o verão austral esubsidência anômala sobre NEB durante o outono austral de 2012. Sobre o Atlântico Sul, águas anormalmente mais frias durante Setembro de 2011 e, mais tarde, durante Março-Maio 2012 induziram uma intensificação da pressão no Atlântico Sul, e quando as águas anomalamente frias no Atlântico Sul migraram para o norte (10-200S). Subsequentemente, esta alta pressão interagiu com a subsidência induzida pelo forte movimento ascendente na Amazônia, determinar condições de menos chuva no NEB. As condições de menos chuva começaram a aparecer em dezembro de 2011 no setor norte e depois se estenderam a todo o NEB durante a quadra chuvosa FM AM 2012. Devido a um papel ativo da alta pressão subtropical do Atlântico, a qual esteve mais interna e mais perto do continente, isso determinou subsidência de baixo nível que afeito negativamente o regime das chuvas NEB. As Figuras 2 e 3 apresentam a evolução temporal e o padrão espacial da seca considerando o número dedias com déficit hídrico (NDDH, Fig. 2) e o percentual de anomalia do índice de suprimento de água para vegetação (VSWI, Fig. 3) entre os anos hidrológicos (outubro-setembro) de 2011 até 2016. O NDDH é calculado a partir do modelo de balanço hídrico (Souza et al., 2001; Rossato et al., 2005) desenvolvido pelo Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE). O NDDH estima o número de dias em que o crescimento da vegetação é restrito em razão da insuficiência de água no solo (umidade do solo abaixo de um valor crítico). De modo geral, quando as chuvas no trimestre chuvoso são bem distribuídas e suficientes, o número de diascom déficit tende a ser pequeno, e contrário ocorre quando as chuvas são escassas ou mal distribuídas no tempo (veranicos), em que o

1 de dez. de 2018

Palma forrageira: aspecto do cultivo e desempenho animal


Por Maxwelder Santos Soares, Zootecnista,
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, 
Itapetinga.E-mail:maxwelder10@hotmail.com

RESUMO

Objetivou-se avaliar o plantio, espaçamento, adubação e uso de palma forrageira na dieta de ruminantes. O semiárido do Nordeste Brasileiro é caracterizado pela escassez, irregularidade de chuvas, logo a palma forrageira torna-se um alimento estratégico para períodos com baixa disponibilidade de forragem. A procura por forrageiras adaptadas a essas condições climáticas é essencial para melhoria da produtividade da pecuária desta região. A composição química da palma varia conforme a espécie, a idade e a época do ano, sendo um alimento rico em carboidratos, principalmente não fibrosos, apresentam baixa porcentagem de constituintes da parede celular e alto coeficiente de digestibilidade de matéria seca. Portanto, recomenda-se a palma forrageira na alimentação de bovinos, ovinos e caprinos como um dos ingredientes da ração visando atender as exigências dos animais, porém para uma eficiente utilização da palma, é essencial o uso de volumoso de boa qualidade.

INTRODUÇÃO

A palma forrageira é originária do México e se adaptou bem na região semiárida do Brasil e do mundo pelas suas características anatômicas, morfológicas, fisiológicas e bioquímicas, decorrente da adaptação aos rigores climáticos. Na região Nordeste do Brasil predomina o cultivo de espécies de palma dos gêneros Opuntia (variedades Redonda e Gigante) e Nopalea (palma miúda ou palma doce), ambos da família Cactácea. Segundo Marconato et al. (2008), o Brasil possui a maior área plantada
do mundo, aproximadamente 600 mil hectares, sendo a maioria cultivada a espécie Opuntia fícus-indica (L) Will, mais conhecida como “Palma Gigante.” Nessa busca por alimentos que possibilitem a produção animal nos períodos críticos do ano, a palma forrageira destaca-se por ser um alimento rico em carboidratos, principalmente não fibrosos, importante fonte de energia para os ruminantes (Van Soest, 1994), apresenta baixa porcentagem de constituintes da parede celular e alto coeficiente de digestibilidade de matéria seca e há várias décadas possibilita a produção animal nos períodos críticos do ano. Portanto, objetivou-se avaliar a palma forrageira do cultivo à utilização na dieta de ruminantes.
ESTABELECIMENTO DO PALMAL

Plantio

No processo de plantio recomenda-se que seja feita a seleção do material propagativo, pois o tamanho do cladódio exerce efeito importante quanto ao número e o tamanho das brotações no primeiro ano de crescimento da palma, bem como se recomenda deixá-los à sombra por pelo menos sete dias para que ocorra a cicatrização dos ferimentos provenientes do corte no processo de colheita. Cladódios com dois a três anos de idade são os mais indicados por emitirem brotações mais vigorosas por ocasião do plantio (Farias et al., 2005). No plantio da palma forrageira destaca-se o sistema manual com o plantio dos artículos realizado em covas, durante período seco é importante para evitar o apodrecimento das raquetes; plantio na estação chuvosa ocasiona uma maior contaminação por fungos e bactérias em virtude da umidade excessiva. Os cladódios que serão usados para o plantio devem ser retirados da parte intermediária da planta, vigorosos e livres de qualquer praga. Diante disso, deve-se levar em consideração para um bom desenvolvimento da palma forrageira, necessita realizar práticas de manejo como, análise de solo, aração, gradagem, adubação e se necessário, fazer a subsolagem da área. No entanto, por se tratar de uma cultura perene, Lopes et al. (2007) recomenda que o manejo seja mecanizado, e que seja utilizado solos de textura leve, preferencialmente os argilo-arenosos não sujeitos a encharcamento, com declividade de até 5%, resultando em um bom desenvolvimento vegetativo e produtivo (Almeida et al., 2012). Lopes et al. (2009) em pesquisa com a palma doce, plantada no espaçamento de 1,00 x 0,50 m, avaliaram três formas de plantio, P1 - cladódio plantado na vertical 90°; P2 - cladódio plantado com vértice para o leste, inclinação de 45º e P3 - cladódio plantado com vértice para o oeste, com inclinação de 45º. Estes observaram que as
formas de plantio, não foram influenciadas pela posição do cladódio. Peixoto (2009) conduziu experimento no Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Ceará, onde os tratamentos avaliados foram plantas expostas ao sol ou sombreadas, posição de plantio do cladódio com ou sem adubação orgânica. Os mesmo verificaram que a adubação orgânica e o plantio sob o sol induzem a um melhor desempenho da palma forrageira (Opuntia ficus-indica (L.) Mill). Sendo que a posição no plantio Leste/Oeste ou Norte/Sul não influencia no desempenho da palma forrageira.

Espaçamento

O espaçamento de plantio da palma forrageira é utilizado como uma estratégia de manejo, pois é importante no estabelecimento do palmal. Varia de acordo com a fertilidade do solo, pluviosidade, finalidade de exploração e sua utilização ou não em consórcio com outras culturas. Além disso, o espaçamento deve ser escolhido de acordo com a preferência e a disponibilidade de capital do produtor. Ramos et al. (2011) com o objetivo de avaliação do rendimento em massa verde de palma forrageira (Opuntia fícus indica (L.) Mill), cv. Italiana, em função dos espaçamentos (1 x 1; 1 x 0,5; 2 x 1; 2 x 0,5 m ) aos 455 dias após o plantio, verificaram que a produção de fitomassa por área foram incrementadas com o adensamento, chegando a 130,06 Mg/ha-1 de massa verde (Tabela 1).   Alves et al. (2007) avaliaram dados de 19 anos de cultivo de palma forrageira (Opuntia ficus indica Mill), cv. Gigante no Agreste de Pernambuco, onde o solo é classificado como planossolo, em parcelas principais (28 x 16 m) foram constituídas pelos espaçamentos de 2 x 1; 3 x 1 x 0,5 e 7 x 1 x 0,5 m, Não verificaram diferença sobre a produtividade de biomassa, independentemente do espaçamento (Tabela 2). O espaçamento está diretamente associado à interceptação de luz pela planta. Portanto, plantios mais adensados promovem maior produtividade, devido à maior eficiência na interceptação da radiação luminosa (Farias et al., 2005).
Adubação

A palma forrageira é uma cultura que responde bem a adubação, independentemente da cultivar utilizada, promovendo incremento da área foliar e de matéria seca, refletindo no crescimento da planta e, consequentemente, na produtividade, o que acontece também para o plantio adensado e para a adubação orgânica associada à adubação química (Almeida et al., 2012). Entretanto, para maior eficiência e produtividade do palmal é necessário identificar os elementos minerais e os níveis ideais para obter maiores ganhos de biomassa (Araújo Filho, 2000). Avaliando, ao acaso, 50 clones de palma (49 da espécie Opuntia ficus indica (L) Mill e um da espécie Nopalea cochenillifera), Silva et al. (2010) utilizando adubação orgânica de esterco bovino equivalente a 30.000 kg/ha, no momento do plantio e após cada corte, verificaram a produção de 7,1 t matéria seca/ha/dois anos, em palma com 5 anos de idade. Provavelmente, a baixa produtividade obtida por estes autores foi devido à avaliação conjunta de várias plantas de genótipos distintos, algumas com alta produção, porém menos resistentes a cochonilha e outras resistentes ao inseto, mas como baixa capacidade produtiva. Em experimento conduzido na estação experimental de Caruaru-PE, Silva (2012b) utilizou como material forrageiro a palma Clone-IPA-20. Os tratamentos experimentais foram combinação de doses de adubação orgânica 20, 40 e 80 t de matéria de esterco bovino/ha/dois anos e diferentes densidades de plantio 20, 40, 80 e 160 mil plantas por hectare, obtidas pelos seguintes espaçamentos de plantio: 1,0 x 0,50 m; 1,0 x 0,25 m; 0,50 x 0,25 m e 0,50 x 0,125 m, respectivamente. O autor concluiu que a aplicação de 80 t de esterco promove maiores produtividades nas diferentes densidades de plantio com valores de 61,0; 90,0; 126; 117,0 e 139,0 t de biomassa esterco, e que a eficiência de adubação orgânica diminui com a elevação das doses de
adubo, sendo que a dose de 20 t de esterco bovino/ha/dois anos não atende as exigências nutricionais de plantas cultivadas sob densidade de plantio de 160.000 plantas/ha. Silva (2012a) avaliou o efeito de diferentes espaçamentos e adubação mineral sobre o crescimento e produção da palma forrageira, com três espaçamentos, 1,00 x 0,50 m; 2,00 x 0,25 m e 3,00 x 1,00 x 0,25 m e quatro adubação, 000-000-000; 200-150-100; 200-150-000 e 000-150-000 kg ha-1 de N-P2O5-K2O, respectivamente. Foi avaliado o crescimento entre 90 e 390 dias após o plantio (DAP) e produção e crescimento aos 620 DAP. Este autor verificou que não existem diferenças em produção de matéria seca em função das adubações NPK, NP, P e testemunha para os espaçamentos 2,00 x 0,25 m e 3,00 x 1,00 x 0,25 m. As adubações com NPK e NP, principalmente sob espaçamento de 1,00 x 0,50 m, conferem melhores respostas para as características de crescimento avaliadas e para produção de massa verde e matéria seca e, ainda as quantidades de nutrientes utilizados nas adubações promovem pequenas alterações na produção. Donato et al. (2014) avaliaram o rendimento de palma forrageira cv. Gigante aos 600 dias após plantio, cultivada em diferentes espaçamentos (1,0 x 0,5; 2,0 x 0,25; e 3,0 x 1,0 x 0,25 m) e doses de adubação orgânica com esterco bovino (0; 30; 60 e 90 t ha-1 ano-1). Os autores verificaram que as produções de matéria seca registradas nos espaçamentos foram 21,5; 18,6 e 14,7 t ha-1, sendo que a

15 de nov. de 2018

Atributos do solo-paisagem em áreas degradadas com malva-branca (Sida cordifolia L.) no semiárido paraibano

Rivaldo Vital dos Santos1 ; Girlânio Holanda da Silva2 ; 
Kely Dayane Silva do Ó2 ; Adriana de F. Meira Vital3 ; José Aminthas de Farias Jr.
Resumo: O desmatamento, com o intuito de obter madeira para fins energéticos, origina áreas degradadas com solo exposto ou com dominância de extrato herbáceo formado por várias espécies, destacando-se a malva (Herissantia crispa L.), a qual funciona como alternativa medicinal ou fitomassa para o rebanho nas épocas de estiagem prolongada. Pelo exposto o presente trabalho objetivou estabelecer o histórico das áreas com predominância de malva branca e diagnosticar os atributos morfológicos, físicos e químicos dos solos. O trabalho foi conduzido em cinco áreas com predominância de malva-branca, onde inicialmente realizou-se sua caracterização geral e o histórico de utilização agrícola. Em seguida fez-se a descrição do perfil, quando coletou-se amostras de solo (0- 20 cm) para análises granulométricas e químicas. Os resultados demonstraram que todas as áreas têm relevo suavemente ondulado e apresentavam, originalmente, cobertura de Caatinga densa e
atualmente são utilizadas para pastejo, têm erosão em sulco, afloramento rochoso e pedregosidade. A morfologia indicou solos rasos, com camadas cimentadas, estrutura granular e em blocos, consistência variável, textura areia franca no horizonte A e argilo-arenosa e areno-argilosa no horizonte B. Os atributos químicos revelaram solos ácidos, com concentrações de fósforo muito baixas e de potássio, cálcio e magnésio médias, com saturação por bases variando de 65 a 78%. Palavras-chave: Erosão; Manejo de Solo; Granulometria; Edafologia.
INTRODUÇÃO 
A região semiárida caracteriza-se por apresentar elevada temperatura e precipitação pluviométrica irregular e intensa. Seus solos apesar de apresentarem, em média, fertilidade química natural elevada são, na maioria rasos e pedregosos, exceto aqueles localizados em áreas de pedosedimentação, de origem aluvional ou não, denominados pelos produtores rurais solos de “baixio”, apresentando topografia plana, maior profundidade edevido sua textura mais argilosa, têm maior capacidade de retenção de água sendo os mais produtivos e de maior expressão econômica. Estes contrastam-se com os solos de “tabuleiros”, localizados nas áreas mais altas em relação ao relevo local, utilizados principalmente com agricultura de sequeiro, e frequentemente cobertos com a formação arbórea Caatinga. Dessa forma, o uso e manejo inadequado dos solos são apontados como as principais causas, de origem antrópica, relacionadas com a desertificação. O extrativismo vegetal e mineral,
assim como o superpastoreio das pastagens nativas ou cultivadas e o uso agrícola por culturas que expõem os solos aos agentes da erosão são as principais causas dos processos de desertificação (ACCIOLY, 2000). Neste contexto, a Caatinga é uma das regiões mais ameaçadas do globo pela exploração predatória, tendo como principais causas da degradação ambiental no bioma a caça, as queimadas e o desmatamento para retirada de lenha. Os estudos das modificações em diferentes ecossistemas devem avaliar a estreita relação entre a vegetação e o solo, em que primeiramente influencia as propriedades e a dinâmica dos solos, quer diretamente, pelo suprimento de matéria orgânica, ou indiretamente, na estruturação, capacidade de retenção de cátions, aeração, fornecimento de nutrientes, e o comportamento hídrico, que consequentemente influencia sobre o tipo de comunidade vegetal local (LONGO et al., 1999). No semiárido da Paraíba é muito comum, após a retirada da vegetação nativa, ocorrer a ocupação da área, especialmente na época das chuvas, com a espécie herbácea malva-branca (Sida cordifolia). A Sida cordifolia é uma espécie herbácea, perene, pertencente à família Malvacea, conhecida também como guaxumabranco ou guaxuma. Caracteriza-se como uma planta nociva e infestante em culturas e pastagens diversas. A espécie é considerada uma invasora (BIANCO et al.,2008; MENEZES et al., 2009) e ocorre com mais frequência em áreas em fase de degradação. Sida cordifolia, é uma planta nativa da América tropical (KISSMANN & GROTH,2000). Atualmente a espécie apresenta larga distribuição no Brasil ocorrendo nos estados do Amazonas, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e diversos estados do Nordeste. De acordo Bianco et al., (2008) a planta tolera solos pouco férteis e ácidos e pode ser

hospedeira de um microplasma, que causa a doença conhecida como “virose das malváceas”. O objetivo do presente trabalho é descrever um histórico e diagnosticar os atributos morfológicos, físicos e químicos dos solos das áreas com predominância de malva branca (Sida cordifolia) em ecossistema de Caatinga no semiárido da Paraíba. MATERIAL E MÉTODOS 

O trabalho consistiu inicialmente na identificação de cinco áreas com dominância de malva branca localizadas entre os municípios de Patos, São Mamede e Passagem, na região semiárida da Paraíba: Fazenda Nupeárido/UFCG Núcleo da Embrapa/Patos-PB, Fazenda Santa Gertrudes, Fazenda São Mamede e Sítio Cacimba de Pedra, onde foram realizadas a caracterização geral e o histórico de utilização das áreas. A etapa seguinte consistiu da avaliação de atributos morfológicos (profundidade, textura, estrutura e consistência), e químicos do solo. Os atributos morfológicos foram obtidos através de descrição de perfil. Para as análises granulométrica (percentagens de areia, silte e argila) e química, o delineamento experimental foi o inteiramente casualizado com cinco tratamentos e cinco repetições. Neste caso os tratamentos consistiram nas cinco áreas amostradas. Cada área foi dividida em cinco subáreas, nas quais foram coletadas aleatoriamente amostras simples na camada de 0-20 cm de solo. As amostras simples depois de misturadas entre si e homogeneizadas constituíram as cinco amostras compostas correspondentes às cinco repetições de cada tratamento. Após o solo ser seco ao ar e passado em peneira de 2 mm, foram determinados nas amostras compostas o pH em CaCl2 a 0,01 mol L-1 , Ca+2, Mg+2, H+ + Al+3, Na+ , K + trocáveis e P disponíveis (EMBRAPA 1997). Os teores de H+ + Al+3 foram estimados pelo método da solução tamponada SMP. Os teores trocáveis de Ca+2 e Mg+2 foram obtidos por complexação com EDTA, enquanto os teores de Na+ e K+ foram determinados por fotometria de chamas. Os teores de fósforo foram determinados colorimetricamente pelo método do azul do molibdênio (EMBRAPA, 1997). Para cada amostra composta foram calculados os valores de soma de bases (SB) capacidade de troca de cátions (CTC) e saturação por bases (V%). RESULTADOS E DISCUSSÃO Histórico e utilização O histórico das áreas revela que todas apresentavam há três décadas cobertura de Caatinga arbórea, sendo desmatadas para cultivo de
algodão arbóreo e consórcio milho-feijão. Atualmente apresentam como cobertura vegetal dominante a malva-branca, sendo utilizadas como áreas de pastejo dos rebanhos caprino, ovino e bovino. Em algumas áreas essa espécie encontra-se associada com escassas espécies arbóreas, principalmente a jurema-preta, como constatou-se na área do núcleo da Embrapa e na Fazenda Santa Gertrudes. Essa diferenciação na cobertura vegetal está associada ao tipo de manejo animal empregado na área, por exemplo, o pastejo caprino e ovino não permitem o crescimento de espécies arbóreas, diferentemente do bovino. Identificou-se que as áreas estão em relevo suave ondulado têm erosão em sulco e forte pedregosidade. No período da seca, com a queda das folhas da malva-branca, tais áreas ficam desprotegidas sofrendo forte processo erosivo, originando afloramentos rochosos, como verificou-se nas Fazendas Nupeárido e Santa Gertrudes (Tabela 1).


Atributos morfológicos e granulometria 
A morfologia

17 de out. de 2018

CONTRIBUIÇÃO DO NORDESTE PARA A RAÇA SINDI

Por: Paulo Roberto de Miranda Leite  
Paulo Roberto de Miranda Leite
A raça Sindi vem crescendo em todas as regiões brasileiras, e nossa Associação em expansão permanente. As demandas por novas ações, desde provas zootécnicas, novas pesquisas e experimentos, além da necessidade de promoção e divulgação, criando-se novos mercados e em consequência a incorporação de novos criadores, traz a necessidade de trabalharmos mais e de mãos dadas pela raça. Sabemos que o Sindi é para o semiárido brasileiro um precioso instrumento zootécnico ou biológico de rara qualidade, que veio como redenção para tornar a pecuária bovina do Nordeste em algo sustentável e econômico. A raça Sindi através de séculos de seleção nas terras áridas da Ásia, transformou-se na raça bovina mais apta para nosso semiárido. Aqui ela vem desenvolvendo e testando todas suas qualidades: rusticidade e adaptabilidade as inclemências edafoclimáticas da região, conversão alimentar extra, fertilidade, dupla aptidão e potencial como material para cruzamentos. O Nordeste toma-se de esperança com a expansão desse extraordinário Gado Vermelho, novo patrimônio dos criadores brasileiros e da ABCSindi. Com a incorporação de novos criadores de Sindi e suas demandas em todo o vasto território pátrio, precisamos incorporar novos mecanismos de atendimento e cooperação entre criadores e regiões, facilitando e apoiando as ações da ABCSindi. Como parte de imenso pais, o Nordeste se caracteriza especialmente pela predominância da grande
área semiárida, as chamadas áreas de sequeiros, tradicionalmente aproveitadas para uma pecuária de
sobrevivência (caprinos, ovinos e bovinos) e aproveitamento de outros produtos silvestres. Também temos várzeas no litoral da cana de açúcar e vales de boas terras agricultáveis no interior da região, onde são produzidas frutas e outras culturas através da irrigação.   Mas é com foco nas extensas áreas de sequeiros, onde predominam as baixas e incertas precipitações pluviométricas, é neste ambiente hostil à agricultura tradicional, que se descortina a possibilidade de uma pecuária bovina sustentável que poderá e será viabilizada através de raças zootecnicamente superiores para essas condições. Essa raça bovina eleita e aprovada para cumprir essa missão, foi a “raça Sindi” pelo seu desempenho e avaliação em 38 anos de testes nos currais das fazendas do semiárido e nas Instituições Oficiais de Ensino e Pesquisas inseridas na região e que avaliam e comprovam as qualidades zootécnicas superiores da raça para regiões tropicais semiáridas. Estamos hoje em pleno funcionamento institucional dos dois escritórios sedes da ABCSindi no Brasil, Uberaba-MG e João Pessoa-PB. Além desses escritórios, temos agregados aos interesses da raça na região, dois importantes Núcleos: - Núcleo Nordeste de Criadores de Sindi, que desde 2015 tem sede no Estado da Bahia; - Núcleo de Criadores de Sindi do Rio Grande do Norte, sediada em Parnamirim-RN. Essas estruturas são complementadas pelas instituições oficiais da região que dão suporte técnico e didático para a raça Sindi.  O Sindi é a raça zebuína mais bem avaliada pelas organizações de pesquisas internacionais e também no
nosso país na atualidade. São inúmeros rebanhos de instituições oficiais e privadas em avaliação, gerando publicações técnicas e acadêmicas. A raça está fadada a ser uma das bem mais avaliadas do mundo, e com o entusiasmo como está sendo conduzida e criada (selecionada) em nosso país, breve capitalizaremos importantes dividendos zootécnicos.  Em Pernambuco: -EMBRAPA SEMIARIDO, localizada em PetrolinaPE, que vem preservando e multiplicando os descendestes da importação do Paquistão de 1952, e avaliando condicionantes climáticas que comprovem a extraordinária rusticidade da raça. É um núcleo de elevado valor genético estratégico. Na Paraíba: Estão duas instituições oficiais de ensino e pesquisa que mantem rebanhos da raça Sindi em avaliações permanentes, além de disponibilizarem seus produtos através de leilões públicos anuais, que são: - Universidade Federal de Campina Grande- Campus de Patos/PB; - Empresa Estadual de Pesquisa


Agropecuária da Paraíba SA (EMEPA-PB), com um núcleo de elite da raça Sindi, sendo avaliado na Estação Experimental de Alagoinha-PB. No Rio Grande do Norte: A Empresa Estadual de Pesquisa Agropecuária (EMPARN), mantem um rebanho da raça Sindi em avaliações permanentes, realizando um leilão anual de seus produtos. São quatro instituições oficiais integradas as demandas da região e que elegeram a raça Sindi como prioridade de pesquisas zootécnicas, envolvendo dezenas de pesquisadores.
Complementando essas ações oficiais, os governos dos Estados da Bahia, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Sergipe, com a participação do setor privado representado por dezenas de criadores e selecionadores, criaram mecanismos de promoção e divulgação da raça Sindi em escala ascendente. Após esses 38 anos de atividades em prol da raça a ABCSindi, os núcleos e criadores unidos transformaram a região na terra do gado vermelho. Em 2018, são pródigos os eventos pela raça na região, com destaque especial para o “Dia D”, da Fazenda Carnaúba em Taperoá-PB, hoje o maior e mais importante evento do agronegócio nacional dedicado a pecuária das regiões semiáridas, que tem a raça Sindi como produtora de leite, sua principal estrela entre os bovinos. São dezenas de raças de ovinos, caprinos, bovinos e aves; de tecnologias e produtos derivados e agregados aos sistemas de produção da região. Uma iniciativa da família Dantas Vilar com o apoio de órgãos e intuições públicas e privadas.  As exposições estaduais tornaram-se referências para raça Sindi a nível nacional. Este ano já foi realizada a 5ª Exposição Nordestina da Raça Sindi, durante a 52ª Paraíba Agronegócios, com dois leilões da raça: o 3º Leilão Sindi Pompeu Borba e o Leilão Anual da EMEPAPB.  Foi também palco de uma grande homenagem ao insigne criador POMPEU GOUVEIA BORBA, falecido este ano e que contou com a presença do presidente da ABCSindi, Ronaldo Bichuette, do diretor da CNA, Mario Borba, do Secretário da Agricultura da Paraíba, Romulo Montenegro e dezenas de convidados, familiares e amigos. No Rio Grande do Norte: -Iremos ter durante a Festa do Boi, em Parnamirim-RN, a realização da XVI Exposição Nacional
da Raça Sindi, com centenas de animais expostos e dois leilões da raça. A tempos que a Festa do Boi é considerada o maior evento da raça Sindi do mundo, a maior concentração de bovinos dessa raça vermelha em julgamento e exposição. Breve, a Festa do Boi se transformará em um evento Internacional da raça. Na Bahia, Piauí e Ceará: - Aconteceram as exposições com presença marcante da raça Sindi.  Breve teremos em Recife-PE a Exposição Nordestina de Animais e Produtos Derivados, com forte presença da raça Sindi. Compartilhando com tudo isso estão centenas de criadores dessa raça na região, grandes e tradicionais selecionadores, médios e até pequenos criadores, que entusiasmados pelas qualidades da raça, participam de palestras e reuniões e são permanentes adquirentes desses animais. A raça Sindi no Nordeste vem se constituindo em um produto de integração social. Podemos afirmar que nestes últimos 38 anos, o Nordeste contribuiu para expandir e divulgar a raça Sindi, oferecendo genética diferenciada e participando do entusiasmo e grande poder de multiplicação do Sindi, nas grandes regiões criatórias do Sudeste, Centro-Oeste e Norte do Brasil, onde hoje se localizam as grandes fazendas de seleção e de cruzamentos industriais que se integram    e passam a participar da cadeia produtiva da pecuária de corte nacional com sucessivos avanços zootécnicos e comercias. Essa é nossa missão, como criadores dessa joia zootécnica, que tem o nome de “RAÇA SINDI”. 


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1 de out. de 2018

Rebanhos do Núcleo Nordeste de Criadores de Sindi 52 avaliados para leite A2


O Núcleo Nordeste de Criadores de Sindi 52, participou de pesquisa promovida pela Universidade Federal da Bahia realizada pelo Professor Doutor Gregório Miguel Ferreira de Camargo, intitulada: " Produção de leite A2 com bovinos da raça Sindi: promoção de renda no semiárido". Foram avaliados 200 animais de diversos associados e o alto índice (entre 85 e 100%) de resultados para A2 A2, foi mais uma comprovação da excelência do Sindi como raça produtora de leite.

Participaram desse projeto, iniciado no 1° semestre de 2018 e concluída em setembro de 2018, os planteis:

Aridus - SE
Bahia Red  Sindi – BA
Barra dos Dantas - PB
Carnaúba – PB
Hybernon - PB
Karashi- BA

Professor Doutor Gregório Miguel Ferreira de Camargo
Graduação: Zootecnia (Unesp-Jaboticabal) Mestrado: Genética e Melhoramento Animal (Unesp-Jaboticabal) Doutorado: Genética e Melhoramento Animal (Unesp-Jaboticabal), doutorado sanduíche: Universidade de Queensland (Austrália)



ADEUS, ALERGIA!
Produção de leite sem proteína alérgica depende da seleção de zebuínos e ainda engatinha no Brasil
Por Diene Batista (Revista Safra)
Um copo de leite pode ser um problemão para muita gente, seja pela falta da enzima lactase, o que provoca a intolerância ao alimento, seja pela alergia à proteína betacaseína tipo A1. A reação imunológica do corpo gera reflexos na pele, no sistema respiratório, além de constipação e de dores abdominais. Mas a seleção de animais que produzem leite A2 pode colocar fim nas alergias por causa da bebida.
Os zebuínos – como gir, sindi, guzerá 
e girolando – são os mais adequados
Os zebuínos – como gir, sindi, guzerá e girolando – são os mais adequados para esse tipo de manejo, como explica o pesquisador da área de bioinformática e melhoramento animal da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), unidade Gado de Leite, Marcos Vinicius Barbosa da Silva. Hoje, a instituição faz a genotipagem do gado para seus programas de melhoramento. Os testes genéticos verificam se os animais são homozigotos – com alelos (genes) A2A2 – ou heterozigotos – A1A2.
Pesquisas já comprovaram que nos zebuínos o gene A2 aparece em pelo menos 70% do rebanho. Nos taurinos, o alelo está presente em apenas 30% da população. “Os taurinos da raça holandesa, por exemplo, são maiores produtores de leite, mas a frequência do alelo A1 é muito grande. O trabalho [de selecionar um rebanho A2] é muito mais rápido e barato nas raças zebuínas”, compara.
Estância Silvânia, em São José dos Campos
A genotipagem dos zebuínos também chama a atenção de laboratórios como o mineiro Gene/Genealógica, de Belo Horizonte, que desenvolveu uma nova metodologia focada no baixo custo. O valor da checagem pelo lote de animais gira em torno de R$ 35 e são analisadas amostras dos pelos dos zebuínos. “Os produtores de leite estão se empenhando na melhora da qualidade. O mercado está mais exigente o que, sem dúvida, vai proporcionar produtos mais saudáveis feitos com leite A2”, analisa a diretora do laboratório, Helena Bicalho.
Rebanho “lapidado”
Selecionar o rebanho até que ele se torne completamente A2 pode levar anos. Mas a demora, muitas vezes, é aliada do bolso do produtor, como explica o pesquisador da Embrapa Gado de Leite. É que os custos, como o da compra de animais A2A2, são diluídos ao longo do tempo. Para formar um rebanho com zebuínos com betacaseína A2, dois caminhos podem ser tomados.
Primeiro, o do descarte. Inicialmente, as vacas A1A1 são retiradas do plantel. Depois, os animais A1A2 também saem, dando lugar aos A2A2. O outro processo é do acasalamento: fêmeas A1A2 e A2A2 são juntadas com touros A2A2. “É um processo demorado, mas que se torna mais barato para o produtor, porque o investimento acontece ao longo do tempo”, frisa.
A diretora do Gene/Genealógica, Helena Bicalho, explica que o produtor pode também aproveitar as “características interessantes” dos animais com genes A1 por meio do acasalamento. “Uma vaca A1A2, com boas características, pode ser acasalada com um touro A2A2. Em média, 50% dos produtos serão A2A2. Se o produtor tiver que descartar, descarta o outro, que é A1A2”, exemplifica.
Segundo Silva, a questão genética já não é mais um entrave para a produção de leite não-alérgico. A principal dificuldade diz respeito à estrutura que a comercialização do produto demanda. “Não adianta produzir o A2 e, quando o caminhão da cooperativa chegar na propriedade, misturá-lo com o A1”, exemplifica. O ideal é processar o leite A2 com uma estrutura do próprio criador ou de cooperativas.
Pioneirismo
Essa é uma tendência mundial, que em algumas
décadas será concretizada como uma mudança
de condição dos animais produtores
Foi exatamente o que fez o produtor e médico-veterinário Eduardo Falcão, da Estância Silvânia, em São José dos Campos, na região do Vale Paranaíba, em São Paulo. Em novembro do ano passado, lançou o primeiro produto A2 brasileiro. No laticínio que ele arrendou, são produzidos queijos, iogurtes e manteigas com leite de animais da raça gir leiteiro, com a qual sua família trabalha há mais de 55 anos.
“Hoje, só trabalhamos com o subproduto. A questão da industrialização do leite foi aprovada há pouco tempo e estamos prestes a concretizá-la. Queremos fazer um produto até mesmo visualmente diferenciado, que será industrializado dentro da propriedade e sairá pronto para o comércio. Para isso, estamos aguardando a construção de uma granja leiteira”, adianta, prevendo que até o final deste ano o leite deve chegar ao mercado.
O trabalho pioneiro foi iniciado há cerca de oito anos, quando soube, por meio de um nutrólogo, sobre o leite com a betacaseína A2. Além do produto não alérgico, ele investe ainda na qualidade do rebanho: o gado é criado a pasto, sem uso de hormônios. “Os produtores já estão inteirados dessa questão [da genotipagem]. Acredito no trabalho da classe médica para esclarecer a população sobre os benefícios do leite A2. Essa é uma tendência mundial, que em algumas décadas será concretizada como uma mudança de condição dos animais produtores”, analisa.
A Estância Silvânia tem 250 animais da raça gir leiteiro produzindo A2. A meta de Falcão é obter 60 vacas em produção, com mil litros diários. Hoje, são 40 animais, com 700 litros. “O maior desafio é chegar ao consumidor. Embora a gente tenha um produto de excelente qualidade, ainda há entraves de legislação e é tudo muito moroso, mas estamos trabalhando para melhorar isso”, detalha ele, que também é diretor da Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ), se referindo ao diálogo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para a criação de normas sobre a industrialização do leite A2.
Projeto-piloto no RS
No Rio Grande do Sul, o Sindicato da

7 de set. de 2018

5 perigos da desertificação no Semiárido brasileiro

Por Letras AmbientaiFonte: http://www.letrasambientais.com.br/posts/5-perigos-da-desertificacao-no-semiarido-brasileiro

Dona Marilene é uma agricultura que vive nos Cariris paraibanos, uma das microrregiões mais secas do Brasil, cujas terras já se encontram em avançado processo de desertificação. Junto com seu esposo Manoel e seus dois filhos, ela já viveu dias felizes e de fartura naquele lugar. Porém, nos últimos cinco anos, a família amargou as consequências de uma devastadora seca. As dificuldades para conseguir água a longas distâncias, a carestia no preço dos alimentos, a falta de chuvas e de terras férteis para produzir e criar animais fez com que seu Manoel partisse para São Paulo. Em busca de alguma fonte de renda para garantir o sustento da família, lá não demorou a encontrar uma ocupação de ajudante de pedreiro. Este ano, com a volta das chuvas aos Cariris, ele já se prepara para regressar à sua terra, trazer de volta a alegria da família reunida e retomar suas plantações, embora saiba que seu pedaço de terra já não é tão produtivo como antigamente.
Terra improdutiva, falta de água, de animais e de vegetação. Essa realidade é comum às áreas que se encontram em processo de desertificação. É o caso do local onde vive a família de dona Marilene, situado no Semiárido brasileiro. Com mais de um milhão de quilômetros quadrados de extensão, a região é considerada uma das maiores áreas do mundo suscetível ao processo. A desertificação é provocada pela degradação das terras nas zonas áridas, semiáridas e subúmidas secas, em função de fatores naturais e também pela ação humana (desmatamento e uso intensivo da terra para cultivo e pastagens sem técnicas de conservação adequadas). 
No último dia 15 de abril, foi celebrado no Brasil o Dia Nacional da Conservação do Solo. Porém, temos poucos motivos para comemorar, sobretudo por estamos diante de um alerta relacionado às sérias ameaças do processo de desertificação. 
Segundo um Relatório da Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO, sigla do inglês), publicado em 2016, atualmente, 33% dos solos do mundo estão comprometidos pela degradação, atingindo a vida de mais de 2,5 milhões de pessoas. Além disso, em algum nível, a desertificação afeta a economia e a população de um sexto da população do Planeta, que representa mais de 1 bilhão de pessoas.
Os especialistas também chamaram atenção para a situação da América Latina, onde cerca de 50% dos solos estão sofrendo algum tipo de degradação (erosão, salinização, compactação, acidificação e contaminação). No Brasil, os principais problemas encontrados são erosão, perda de carbono orgânico e desequilíbrio de nutrientes, além de salinização, poluição e acidificação. Entre outros prejuízos, como perda de fertilidade, os solos degradados captam menos carbono da atmosfera, interferindo nas mudanças climáticas. A degradação dos solos, de forma intensiva, tem levado ao avanço da desertificação, um grave risco socioambiental, cujo processo é difícil de se reverter, sendo fundamental combater diretamente suas causas.
Desertificação: um processo irreversível?
Você sabe como uma área se torna gravemente deteriorada ou em processo de desertificação? Tudo começa pelo desmatamento ou a retirada da cobertura vegetal, que expõe os solos às diversas intempéries da natureza, a exemplo da forte insolação ou das chuvas concentradas, aumentando a erosão do solo e a perda da matéria orgânica que alimenta as plantas. O desmatamento descontrolado também reduz as chuvas e a retenção da umidade, contribuindo para transformar áreas produtivas em inférteis. Como consequência, muitas espécies nativas são perdidas e ainda acontece a migração da população rural para centros urbanos.
Os principais vetores do processo de desertificação no Semiárido brasileiro são: extração da biomassa florestal para atender à demanda da matriz energética, que responde por 30% da energia regional; atividades de mineração, cerâmica, agricultura e pecuária sem critérios de manejo sustentável, na maioria das vezes, desenvolvidas com técnicas inadequadas; e projetos de irrigação sem manejo adequado, que degradam e salinizam os solos.
No Brasil, as Áreas Susceptíveis à Desertificação (ASD’s) compreendem cerca de 1.340.863 Km2 (16% do território brasileiro), abrangendo 1.488 municípios (27% do total), incluindo territórios dos nove estados do Nordeste, e de dois do Sudeste (parte de Minas Gerais e do Espírito Santo). Mais de 30 milhões de pessoas (17% da população brasileira) são atingidas pelo processo. O processo ocorre nas áreas Semiáridas, Subúmidas Secas e em Áreas do Entorno, nas quais a razão entre a precipitação anual e evapotranspiração potencial está compreendida entre 0,05 e 0,65.
As áreas mais críticas estão nos Núcleos de Desertificação, cujos solos já estão degradados de forma extremamente grave, um processo de desertificação praticamente irreversível.
São eles: Gilbués (PI), Seridó (RN/PB), Irauçuba (CE), Cabrobó (PE), Cariris Velhos (PB) e Sertão do São Francisco (BA). Em visita à dona Marilene, que vive nos Cariris paraibanos, um dos Núcleos de
Desertificação no Semiárido. 
Fonte: Lápis.
Desertificação do Semiárido, pudemos observar a complexidade do problema, que atinge milhares de outras famílias na região. No livro
“Um século de secas: por que as políticas hídricas não transformaram o Semiárido brasileiro?”, os autores abordaram o problema da desertificação no Semiárido brasileiro, tendo validado a pesquisa sobre políticas para a seca nas microrregiões dos Cariris paraibanos.
Desertificação: monitoramento e políticas
Apesar da importância e urgência de ações para minimizar os impactos da seca, bem como conter os principais vetores da desertificação, existe uma lacuna muito grande de conhecimentos e dados confiáveis a respeito do assunto. Uma das principais fontes de referência encontradas foram os dados de monitoramento por satélite sistematizados pelo Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis). O levantamento indica que os níveis de degradação em relação às áreas totais dos estados do Semiárido estão distribuídos da seguinte forma: Alagoas (32,8%), Paraíba (27,7%), Rio Grande do Norte (27,6%), Pernambuco (20,8%), Bahia (16,3%), Sergipe (14,8%), Ceará (5,3%), Minas Gerais (2,0%) e Piauí (1,8%).
Ainda não existe um projeto consistente de combate à desertificação no Brasil, não obstante a gravidade do problema. Em 2004, foi elaborado o Plano de Ação Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (Pan-Brasil), com envolvimento da população atingida e dos estados, visando definir soluções para prevenir e amenizar os impactos do processo. Além disso, o País é signatário da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD). Todavia, embora a maioria dos estados com territórios degradados tenha elaborado seu plano de ação, pouco foi feito efetivamente para conter o avanço do processo.
Recentemente, foi instituída uma Política Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (Lei nº 13.153/2015), prevendo várias providências relacionadas à questão.
Dentre os objetivos da recente legislação, estão: prevenir e combater a desertificação e recuperar as áreas em processo de degradação da terra, em todo o território nacional; prevenir, adaptar e mitigar os efeitos da seca; instituir mecanismos de proteção, preservação, conservação e recuperação dos recursos naturais; estimular pesquisas científicas e tecnológicas; promover a educação socioambiental dos atores sociais envolvidos na temática do combate à desertificação.

A instituição dessa Política representou um avanço nas diretrizes para tratar do problema da desertificação e da convivência com a seca no Brasil. No entanto, a legislação continua sem regulamentação, de modo que pouco tem sido feito para se evitar o aumento da degradação dos solos nas áreas suscetíveis à desertificação. Os projetos de desenvolvimento sustentável para o Semiárido brasileiro deveriam

Pensamento do mês