27 de mai de 2018

POTENCIAL DE PRODUÇÃO DE LEITE EM PASTAGENS NATIVAS E CULTIVADAS NO SEMI-ÁRIDO

POR: JOSÉ NILTON MOREIRA/GHERMAN GARCIA 
LEAL DE ARAÚJO/CHIRLES ARAÚJO DE FRANÇA
INTRODUÇÃO
O Brasil detém o maior rebanho bovino comercial do mundo e possui 20% de sua área agricultável coberta com pastagem, o que equivale a cerca de 185 milhões de hectares. Entretanto, a taxa de lotação média das pastagens brasileiras é de apenas 0,85 cabeças/ha. Apesar do potencial para a produção animal nos trópicos ser alto, a capacidade atual de produtividade ainda é baixa, representando, no caso do Brasil, apenas 360 kg de leite/ha/ano e cerca de 50kg de carne/ha/ano (CORSI, 1990). No Nordeste, em particular no semi-árido,cuja irregularidade das precipitações entre e dentre os anos é pronunciada, as produções se situam abaixo desses patamares. Como em outros países
da América Latina, no Brasil a pecuária bovina é baseada principalmente em pastagens, constituídas, em sua maioria, pela monocultura de gramíneas, estabelecidas após o desmatamento de floresta ou em substituição a outros tipos de vegetação nativa. O manejo inadequado tem sido uma das principais causas de degradação dessas pastagens, acarretando sérios prejuízos econômicos e ambientais, (VILELA, 2001). Estima-se que cerca de 50% dos 105 milhões de hectares de pastagens cultivadas existentes no Brasil encontra-se degradadas ou em início de degradação, reduzindo a produção anima l e aumentando os custos de produção. Além disso, outros fatores, como sazonalidade da produção de forragens e estresses climáticos, também prejudicam a sustentabilidade da pecuária bovina baseada em pastagens. Os prejuízos ambientais, que incluem perda de solo por erosão, redução da disponibilidade de água, assoreamento de cursos d ́ água e perda da biodiversidade vegetal e animal, são também fatos negativos muito sérios, que têm causado crescente preocupação em diversos setores da sociedade, (VILELA, 2001). 
A zona semi-árida, apesar de possuir solos com fertilidade natural média a alta, tem como principal fator limitante do crescimento das forrageiras um acentuado déficit hídrico na maioria dos meses do ano. Sob tais condições ocorre uma marcante estacionalidade na produção de forragem (RANGEL et al ., 2001), de forma que, para os sistemas se tornarem viáveis, torna-se necessário preservar parte do excedente de forragem produzida no período favorável, seja na forma de forragem conservada, prática ainda pouco comum entre os produtores, seja através do diferimento, ainda que isto possa ocasionar perda considerável da qualidade. Sendo a criação de animais uma das alternativas mais promissoras para o semi-árido e sendo a vegetação da caatinga uma das principais fontes de alimentação dos rebanhos, ainda que apresente, como se sabe, uma baixíssima capacidade de suporte, uma tarefa que se coloca é propor sistemas de produção que apresente sustentabilidade e competitividade. Nesse sentido, trabalhos de manipulação dessa vegetação têm sido realizados e têm potencializado a produção de forragem quer pelo incremento da produção do estrato herbáceo, quer pela maior acessibilidade da forragem disponível, possibilitando aumento da produtividade
animal (MESQUITA et al ., 1988). Por outro lado, várias espécie de gramíneas têm sido avaliadas, ao longo dos anos, para a formação de pastagens no semi-árido, buscando-se, sobretudo, elevada produtividade e persistência. Entre elas, o capim buffel (Cenchrus ciliaris L.) tem se mostrado altamente adaptada à seca, associando uma rápida germinação e estabelecimento, precocidade na produção de sementes e capacidade de entrar em dormência no período seco (ARAÚJO FILHO et al ., 1998). Neste trabalho se discutirá alguns aspectos sobre a produção de leite no semi-árido utilizando a catinga e o capim buffel como recurso forrageiro.
A PRODUÇÃO DE LEITE NO NORDESTE 
A vocação do Nordeste brasileiro para a exploração pecuária é de muito conhecida. As secas periódicas, o caráter errático das precipitações pluviais, as limitações edáficas e outros limites de natureza ambiental não têm permitido o estabelecimento de uma agricultura intensiva, mas têm encorajado a exploração pecuária nessa região. Atualmente, cerca de 18% do rebanho bovino, 50% do efetivo ovino e 93% do rebanho caprino nacional são criados nessa região. (ARAÚJO FILHO e CRISPIM, 2002). De acordo com CARVALHO (2006), o Nordeste brasileiro tem tido participação relativa levemente decrescente na produção de leite brasileira, na última década, passando de 14,4% em 1990 para 10,7% em 2000. Em 2004, último ano disponível nas estatísticas do IBGE, o Nordeste participou com 11,5%, ou 2,7 bilhões de litros. Em termos absolutos , de 1990 a 2004 a produção nordestina aumentou 32% ou 660 milhões de kg, bem abaixo do crescimento brasileiro no período, de 62% ou quase 9 bilhões de kg. De 1990 até 2004, o Nordeste foi a região com
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menor crescimento absoluto na produção. Apesar disto esse mesmo autor afirma que, com o aumento expressivo do consumo associado aos programas assistencialistas do governo atual, aliado à proximidade com mercados importadores importantes, tudo isto sugere que o Nordeste deverá ser a nova fronteira do leite nos próximos anos. BRESSAN 1999, relata alguns dos principais pontos relacionados as restrições técnicas do segmento da produção de leite no Nordeste, apresentado no Seminário Técnico do Projeto Plataforma, em Fortaleza-CE, dentre os quais podemos citar: a) Baixa produtividade dos rebanhos leiteiros; b) Alimentação deficiente dos rebanhos de gado de leite, provocada pela falta de alimentos de boa qualidade; c) Alta susceptibilidade da pecuária regional à instabilidade climática; d) Uso inadequado de práticas de manejo; e) Falta de tecnologia disponível para as condições agroclimáticas da região e f) Baixos níveis de tecnologia utilizados na produção de leite. Apesar de não existir estatísticas oficiais, visto inclusive a dificuldade de se estabelecer os limites do semi-árido, sabe-se, como mostra a Figura 1, que a produção de leite do Nordeste está concentrada no semi-árido, especialmente nos limites do agreste co m o sertão, onde as bacias leiteiras de Garanhuns-PE, Batalha-AL e Nossa Senhor a da Glória-SE são bons exemplos. Nessas áreas, a produção de leite tem se baseado na utilização de pastagens nativas e cultivadas, além da participação importante da palma forrageira (Opuntia ficus-indica Mill. e Nopalea cochenillifera Salm. Dyck.) sobretudo no período mais seco do ano.


A produção de leite a pasto
Os ruminantes, com sua população simbiótica de micróbios do rúmen, dão uma grande contribuição para o bem estar humano à medida que provém 70% da proteína e 10% da fibra que necessitamos. A eficiência no uso de pastagens pelos ruminantes na produção de carne e leite depende de vários fatores, o que tem sido objeto de muitos estudos e passa pela fisiologia, nutrição e composição das plantas, assim como pela bioquímica, microbiologia do rúmen e requerimento de nutrientes pelos ruminantes (MINSON, 1990). De uma maneira geral é aceito, em grande parte do mundo, que o pasto é a forma mais barata de suprir os ruminantes em nutrientes. Entretanto, impedimentos como altas e baixas temperaturas, falta de umidade, entre outros, faz com que a exploração desses animais possa se dar, a bom termo e durante todo o ano, exclusivamente a pasto (WHEELER, 1981; REARTE et al., 2001). Grande parte dos sistemas de produção de leite no Brasil está baseada na exploração de pastagens e a maioria deles com pequena intensificação. Isso resulta, principalmente, em pequena escala de produção, baixos índices zootécnicos e, conseqüentemente, baixa rentabilidade. A alternativa para o momento vivido pela pecuária leiteira é explorar o potencial de produção de animais em sistema de pastejo, em gramíneas tropicais. Alguns mitos nos sistemas de produção intensiva de leite a pasto devem ser quebrados, como sistema retrógrado e, principalmente, na utilização de animais não especializados. No que diz respeito ao atual aumento gradativo dos patamares de preço do concentrado, é a flexibilidade do sistema que pode determinar a sua utilização para garantir o retorno econômico (BRUNO, 2002). 
A SUPLEMENTAÇÃO A PASTO 
As pastagens podem apresentar deficiências qualitativas e quantitativas na nutrição dos ruminantes, sobretudo associadas à baixa digestibilidade e conteúdo de proteína que podem estar asso ciadas à espécie explorada e, principalmente, ao seu grau de maturação, (ALLDEN, 1981). A suplementação vem equilibrar o nível de nutrientes oferecidos contribuindo para a manutenção e um padrão de fermentação uniforme, para que parâmetros ruminais (amônia, pH) se tornem constantes, ensejando maior eficiência microbiana, maior disponibilidade de substratos energéticos (ácidos graxos voláteis) e proteína microbiana (PAULINO et al., 2002). A utilização da suplementação a pasto é uma alternativa eficiente para o aumento da produção animal, sendo que para alcançar os resultados que se deseja, deve-se considerar a época do ano, o nível de produção, os custos e os alimentos disponíveis. A vantagem ou não de suplementar dependerá da produção extra obtida, causada pelo efeito do suplemento e, naturalmente do custo deste último. Quanto maior for a resposta produtiva à suplementação e quanto menor o custo do suplemento, mais propícias serão as condições econômicas para o uso dessa prática. O efeito da suplementação do pasto, na maioria das vezes, não é aditivo e sim substitutivo (ASSIS, 1986). Alguns trabalhos mostram que a suplementação provoca respostas distintas em

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